domingo, 2 de abril de 2017

Uma interpretação sobre o filme The Witch (2015)

“A Bruxa”, como foi traduzido para o português, também grafado The VVitch (o que imita a escrita latina antiga) foi o primeiro longa-metragem dirigido por Robert Eggers. 

O filme, que pode ser rotulado como terror ou suspense, e até ir em direção ao terror psicológico, é um dos melhores filmes sobre bruxaria que já assisti, pra não dizer o melhor. Possui uma narrativa lenta, mas que apesar de demorada, prende o espectador interessado do começo ao fim. É preciso certo esforço pra se compreender os pormenores da história: quem gosta do terror explícito, de roteiros diretos, certamente não irá gostar de The Witch. E quanto aos que também se sentem desconfortáveis com o imaginário da bruxaria diabólica (essa imagem que envolve o mito da bruxa demoníaca presente na literatura e nas artes no Ocidente há pelo menos 600 anos, em suma, a bruxaria histórica), esses também não irão gostar da história. Este filme é para quem está disposto a apreciar uma narrativa em que está presente todo o simbolismo que envolve as representações clássicas, tradicionais, tardo-medievais da bruxaria. 


sábado, 25 de março de 2017

Sobre os deuses paternais

Eros divino derrotando Eros terreno, de Giovanni Baglione (1602)
Os cristãos costumam dizer que “Deus é amor”. Aliás a ideia de “amor” de um Deus criador para com as suas criaturas me parece algo muito particular do cristianismo, pelo menos esse tipo de amor, que é o amor paterno: o amor de um pai que cuida, protege e zela pelas suas crias. Não é com muita dificuldade que a gente encontra cristãos que reforçam essa ideia de um Deus que provê o que é necessário, que cuida nos momentos de dificuldade e que protege quando o perigo aparece. Em suma, a ideia de um “pai” que está sempre à disposição, sempre prestes a zelar e que nunca abandona. 

A ideia “paternalista” de Deus talvez seja um dos pilares da religiosidade ocidental. Então também não é de se estranhar que esse tipo de visão de divindade também esteja presente no paganismo em um ou outro momento. Aliás a ideia de uma Deusa maternal é algo muito popular: uma mãe que “ama” seus filhos, que provê através da natureza e que faz com que eles retornem ao seu ventre no fim de um caminho não são noções totalmente estranhas a qualquer pagão moderno. Tenho amigos que costumam brincar que as vezes Jeová apenas ganha saias e continua sendo cultuado como Deusa. 

domingo, 24 de abril de 2016

O Bruxo como Alquimista; ou sobre a matéria-prima da Bruxaria

Ilustração de Núpcias Alquímicas, de Christian Rozenkreuz, século XVII.
A arte da Alquimia consiste, basicamente, no poder de transformar substâncias. Em um sentido mais fundamental ou primário, os alquimistas eram aqueles que transformavam (ou tinham por intenção fazê-lo) chumbo em ouro. Sob uma perspectiva metafísica, no seu aspecto mais filosófico ou até “mágico”, os alquimistas eram aqueles que conseguiam transformar a ignorância em conhecimento, a maldição em bênção ou até mesmo a pobreza em riqueza. Mas tecnicamente falando, não se trata apenas de transformar uma coisa em outra, mas de fundir elementos a fim de criar algo novo. Nisso consiste o processo do solve et coagula, de separar para juntar, de desunir para unir novamente. O Alquimista é um criador por excelência.

sábado, 26 de dezembro de 2015

#somostodos pagãos mal resolvidos?


Acabei de voltar pra casa depois do tradicional almoço de Natal na casa dos meus avós. A caminho de casa, abri o feed do meu Facebook e vi que um dos meus amigos compartilhou esta postagem que reproduzo acima. Tive que ler duas ou três vezes pra entender. Talvez eu não tenha entendido até agora, então peço antecipadamente desculpas pela minha ignorância ou pela minha incapacidade de interpretar um texto.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Quem são nossos Ancestrais?

Alma Parens, de Bouguereau (1883). 
Noite passada, fechei o Círculo e fiz meu Esbá de lua cheia, como de costume. Arrumei o altar, acendi as velas e o incenso, posicionei os objetos ao redor do quarto como de costume, nada de diferente. Mas algo em especial me provocou de certa forma: tenho o costume de acender uma primeira chama ritual, o que eu chamo de Fogo dos Ancestrais, “fonte” na qual todas as outras velas e incensos são acesos. Também costuma ser o último a ser apagado. Geralmente se trata de uma vela vermelha que tem por objetivo representar sui generis o sangue bruxo ou o sangue daqueles que vieram antes de mim, necessário para eu estar ali, naquele momento. O sangue dos Ancestrais, dos meus Antepassados. O Fogo de Vesta. Enquanto derramava as gotas de cera vermelha no recipiente a fim de fixar a base da vela, a pergunta que nomeia este texto veio à minha mente.

Alguém precisou dar o seu sangue para que eu estivesse ali? Se sim, quem? E o principal, o que isso significa exatamente? 

Continuei pingando aquelas gotas vermelhas que, imitando o sangue, lembraram-me ironicamente do sangue venenoso da Medusa, a partir do qual Esculápio descobriu, do aparente veneno, o poder de curar. 

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

E se os Deuses não ligassem pra você?

A perseguição de Orestes (Bouguereau 1825-1905)

Semana passada, a caminho do trabalho, peguei uma chuva forte. Nunca me preocupo em carregar guarda-chuva por uma série de razões, mas basicamente porque o tempo que eu passo na rua é o tempo que eu levo para fazer o trajeto de um ponto de ônibus a outro. Quase sempre é pouca coisa, então um pouco de água na cabeça não faz mal, pelo contrário, até refresca. Mas dessa vez foi diferente: tive que dar algumas voltas a mais, e resultado: peguei uma das piores inflamações de garganta na minha vida. Na madrugada de sábado, beirando os 40° de febre e sem poder engolir a própria saliva, lamentei em silêncio: “o que eu fiz pra merecer isso, meus Deuses”? A pergunta não poderia ter sido mais ridícula. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

As verdades em Salem (Parte 2)




No post anterior (veja aqui se você ainda não leu), falamos sobre os diversos elementos de Feitiçaria que estão presentes na série, bem como as relações entre Sangue, Sexo e Poder que, se por um lado permeiam a ficção como importantes recursos para chamar a atenção da audiência, em outra mão, também não estão ausentes no que estamos chamando aqui da Bruxaria “real” que praticamos. Também foi falado sobre as estruturas dos Encantamentos que são recitados no seriado e os “ecos” de realidade de tais rituais. 

Também foi questionado sobre quem seria, de fato, o Deus das bruxas, e se aquela divindade retratada em Salem teria alguma conexão com a realidade. Alguns aspectos relacionados à Iniciação, à transmissão do Saber Bruxo e sobre os Familiares também foram abordados. Por fim, as chamadas “Bruxas de Essex” foram o último ponto a ser abordado na primeira postagem desta sequência. Por ora, seguimos com os trabalhos. 

Ainda contém spoilers!

sábado, 13 de junho de 2015

As "verdades" em Salem (Parte 1)


Salem é uma série de televisão norte-americana do canal WGN America que estreou em 2014 e já está na sua segunda temporada. Você pode encontrar o seriado pra baixar aqui

A trama se passa em Salem, Massachussets, no final do século XVII onde aconteceram, de fato, os históricos julgamentos de bruxaria na região. Houveram centenas de prisões e dezenas de mortes em função da histeria que alastrou-se naquela cidade colonizada por puritanos protestantes. A história, romanceada, também se passa no filme The Crucible (baixe aqui).  

A primeira temporada do seriado criado por Adam Simon e Brannon Braga possui 13 episódios. Apesar de um roteiro que algumas vezes demora para se desenrolar e por uma ou outra atuação que nem sempre convence, a produção de Salem, como um todo, não deixa a desejar: a primeira temporada está com nota 4/5 e a segunda com 4,4/5 no Filmow e no IMDb com 7,2/10

No entanto, o que nos interessa, pelo menos neste momento, é aproximarmo-nos dos aspectos das “verdades” do seriado, ou seja, aqueles elementos que apesar de serem retratados sob o viés do romance e da ficção, refletem importantes elementos filosóficos ou conceituais que estão presentes na Bruxaria “real” que praticamos e que estudamos. 

A trama na série é ficcional, o que quer dizer que temos consciência que o seriado não possui, necessariamente, fidelidade com os acontecimentos históricos. O objetivo desta série de textos é chamar a atenção para os elementos reais da Bruxaria que foram utilizados como parte da construção da trama, e acreditamos que estes elementos são muitos. Pessoalmente, consideramos esta a melhor série já produzida sobre o tema “Bruxaria”, o que nos faz desconfiar que a produção do seriado trabalha com uma incrível consultoria de estudiosos, de fato, da bruxaria. Essa série de textos que se seguirá, tem o objetivo de ser uma provocação. Um convite ao abrir dos olhos. 

Contém spoilers...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O que legitima uma Tradição ou um Coven?


Oferenda ao Deus Pã, de Pedro Weingärtner.

“O homem é um animal social” já dizia Aristóteles. Isso quer dizer que o nosso instinto ao grupo e ao coletivo são naturais. Aristóteles dizia, inclusive, que é na realização do social que o homem, como indivíduo, conseguia florescer completamente. Aqui eu já disse uma vez que, na verdade, Bruxos “solitários” não existem. Porque mesmo aqueles que praticam na ausência de um Coven ou sob o suporte de uma Tradição específica, ainda assim, eles não estão sozinhos. Eles podem ser as únicas pessoas vivas a fechar e abrir um Círculo naquela sala silenciosa durante a madrugada, mas ele não saberia como fazê-lo sem conversar com outros Feiticeiros antes, ou mesmo sem ler o que já foi escrito sobre o assunto. Isso sem falar na Companhia Invisível que sempre lhe acompanha. Nenhum Feiticeiro está só. Todo Bruxo vive, de alguma forma, em “sociedade”. Mesmo aqueles que se isolam do mundo profano, ainda assim, vivem em comunhão com os seus Espíritos. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A hora de desarrumar o altar.

A Noite e o Sono, de Evelyn de Morgan, 1878. 
Geralmente tudo termina na hora em que eu devolvo o punhal à bainha: depois das despedidas e dos agradecimentos vêm o acender das luzes, o recolhimento e o apagar das velas, a recolocação dos móveis em seus devidos lugares e a escolha de uma camiseta limpa pra dormir. Pelo menos pra mim, nesse caso, sempre um novo ritual se inicia: um outro muito mais sutil, mais introspectivo; quase sempre silencioso, e no entanto, profundamente poderoso.