sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre a persistência.


Ultimamente tenho me perguntado muito sobre até que ponto vale a pena persistir em certas cosias. Teria como esquecer-me da Deusa que desce até os infernos, nua e com os cabelos desgrenhados, a fim de ensinar a própria Morte os mistérios do Amor? Pouco provável.

A vida passa, o tempo passa, e somos obrigados a fazer escolhas todo o tempo. Em algumas delas, temos de abdicar daquilo que é velho e cheira a mofo, em outras delas, abdicamos daquilo que é mais valioso, em troca de algo que de certa forma nem sabemos ao mesmo o que é, mas poderíamos vislumbrar, ao longe dos nossos ouvidos e próximo do coração, uma voz pouco fria dizendo que vale a pena. Talvez o orgulho cantasse essa música, talvez algo que os homens aprenderam a chamar destino, ainda não sei. Talvez nunca saiba. Pois sim, eu tenho saudade.

Mas dessas escolhas, algumas justamente nos surpreendem. Outras não. De algumas, nos arrependemos, de outras muito pouco. Em poucas delas podemos voltar atrás, mas na maioria desses caminhos, a volta torna-se irreversível, transformando a terra pisada em lama suja e barrenta, que um dia poderá servir para amontoar alguns tijolos. Mas o interessante é que, como mortais que somos, não podemos escolher o caminho que tomamos antes de vislumbrar o seu final – se é que existe um final? Até mesmo porque isso seria impossível. Os ventos mudam a todo o tempo, assim como a má vontade dos deuses e a boa dos demônios.

E frente a toda essa ignorância, continuamos com nossas vendas nos olhos a caminhar por uma trilha bela e feia ao mesmo tempo, que muitos chamam de vida. E por mais que ofereçamos libações ao Apolo do sol e do destino, sempre continuaremos com a venda nos olhos, que nos é tirada somente no dia em que verdadeiramente abrimos os olhos: quando atravessamos a barca do Carontes.

Sobre a persistência, o que poderia dizer? Que nada mais é do que a vontade de provar que o destino não está traçado, e que em nossa vã ignorância, ainda insistimos em romper os cristais e transformá-los em carvão, por puro capricho e egoísmo – e a beleza está justamente nisso.

"De que vale o eterno criar, se a criação em nada acabar?"
Mefistófeles, em Fausto. Goethe.


Detalhe de Mephisto e Bruxa (Margret Hofheinz-Doring, 1961)

3 comentários:

Gwyddyon disse...

faz um bom tempo que eu não venho aqui comentar nom? =P

Enfim concordamos que, em algumas dessas escolhas, não há mais volta Infelizmente são poucas as pessoas que compreendem que "nunca é tarde" não é uma verdade absoluta. Sometimes vc vai longe demais nos atos e palavras e tem que arcar com o peso do seu "pecado" pelo resto de sua vida. Nem mesmo "ver o lado positivo" serve pra alguma coisa, já que perder algo ou alguém que vc ama nunca vai ter um lado positivo.

Talvez com o tempo, e com as perdas e ganhos, vc vai aprendendo a deixar tudo ir... percebe que coisas perecem e pessoas desaparecem... na verdade nada ou ninguém é possuído por vc. O máximo que vc pode fazer é ser feliz quando seu caminho estiver junto a determinada pessoa e desejar boa sorte quando seus caminhos se separarem, rezando pra que, um dia, vcs voltem a se encontrar.

"ninguém enxerga além das escolhas que não compreende" right? =P novamente eu acho que não é uma verdade absoluta. Uma vez eu li em algum livro uma definição sobre o destino onde ele era comparado com uma teia de aranha, cheia de ramificações Conforme vc fosse avancando pela "teia" algumas escolhas se tornariam mais prováveis que outras. O segredo é conseguir ver essa teia por inteiro. que tal experimentar como se vc estivesse em uma exposição? dê um passo para atrás e observe o conjunto inteiro em vez de ver apenas a parte onde vc se encontra.

Pessoalmente acredito que a ignorância é uma benção nessas horas. conhecimento, nessas horas, é algo perigoso... preferível que ande com uma venda nos olhos e possa se surpreender do que ver o mundo com uma eterna expressão de tédio.

Enfim, que surpresa pode guardar àquele que adotou o nome do senhor da morte... ele é que governa o destino da barca de caronte não? =P

anyways, ótimo texto não ligue para as reminiscências de um velho tolo...

([säm]) disse...

ainda assim...mesmo que se possa dizer que "nunca é tarde pra voltar atrás", vc sabe como é...aquela história do rio que nunca é o mesmo rio.

Existe algo que se transforma dentro de nós, quando fazemos alguns tipos de escolhas...e existem aquelas que não podemos voltar atrás pois já não somos os mesmos de antes.


Acredito que ainda é possível enchergar com clareza antes de embarcar na barca do Caronte...existe um espaço no centro do ser onde as coisas ainda "são"...onde existe o Todo.

é que a gente tem preguiça ou medo de mergulhar e talz....
uma vida tão agitada....não dá tempo... etc

Achei lindo seu layout *0*
beijos

Robson Rogers disse...

A Vida, como eu digo, é uma cafetina. Te estimula a se prostituir e te faz usar roupas que não cabem em ti. Resistir a tudo isso somente com persistência. Duvido que a vida deixe de ser cafetina por mais que tentemos deixar de sermos seus meros brinquedos. Ela é uma puta velha e sabe mais do que qualquer puta que possamos chegar a ser. Sempre haverá uma forma de te trapacear...
Mas como tu mesmo diz, "a beleza está justamente nisso", na persistência.
De vendas ou mascaras sem buracos para enxergar é que nascemos e dançaremos até o finais de nossos dias. E só há dois caminhos. Escolher ou não escolher. Mas lembrar que de qualquer forma, algo estaremos escolhendo.