quinta-feira, 3 de março de 2011

Porque eu não gosto desse Carnaval.

A origem dessa festa remonta, pra variar, à Roma Antiga. Conhecida como as Saturnálias, festas em honra à Saturno, aconteciam em dezembro começando alguns dias antes do solstício de inverno.

Saturno, como um deus dos mortos e do submundo também era identificado como Senhor das colheitas – lembramos que a Terra é fria e escura, mas é dela que nasce a Vida rumando à Luz. Aqui, a ordem social invertia-se: escravos tornavam-se senhores e eram libertos nesses dias, ricos vestiam-se de pobres, pobres trajavam-se de ricos, mulheres travestiam-se de homens e os homens faziam o mesmo com roupas femininas. Acreditava-se, com isso, que o tempo de inversão é necessário, e que para que exista a ordem, também deve existir o caos.

Não é à toa que as festas eram dadas em celebração à Saturno, que se bem lembramos, havia sido decapitado pelo seu próprio filho Júpiter que subiu aos céus tomando o poder em seu lugar. Aqui, não mais reconhecido como deus velho e vencido, é Ele que é adorado.
Na Idade Média com o cristianismo surgirá a festa que marca a ressurreição de Cristo, também conhecida como Páscoa. Antes dela, existe o que chama-se Quaresma, um período de cerca de quarenta dias que antecedem a festas em honra à Ressurreição. Durante esse tempo, deve-se orar, jejuar e praticar caridade. Também representaria os quarenta dias que Jesus ficou no deserto. Mas o que teria isso tudo haver com o Carnaval?
Pois é justamente ele que vem antes da Quaresma. A festa dos excessos, da libertinagem e da troca de papéis. Aqui, as máscaras e fantasias que os homens da Renascença passaram a incorporar representam todas as atribuições sociais que deixaram de ser importantes pelo menos nesses dias. E depois de tudo isso, e só então, passa-se a jejuar e orar.
Antes de escrever essas linhas, percebi algo curioso: o carnaval é a única festa "pagã" que não me agrada. O que soaria contraditório para alguém que vê na cultura do Paganismo algo essencial para viver a Vida – e foi por isso resolvi pensar sobre.
Entendo que o problema de hoje, no Brasil e no mundo, é o de ser sempre Carnaval. Não se dá espaço para o sagrado, para o mundo religioso e para o cotidiano divino. Logo, os excessos tornam-se banais e comuns, e não há porque festejá-los em uma data específica, pois os carnavais de hoje, ainda que sejam banhados pelo excesso, carecem de qualquer sentido ou significado. Esqueceram-se, inclusive os próprios cristãos, que existe o tempo de festejar e de orar, de falar e de calar. Hoje ou é tudo, ou é nada. O que eu vejo no mundo é uma inversão de valores, e não uma inversão de papéis como acontecia no passado – o que não é mau ou ruim, mas uma pena sem dúvida alguma.

Detalhe de Saturnália. Não consegui encontrar o autor.

8 comentários:

Draku-Qayin vel Sabatraxas (a.k.a. Adriano Carvalho) disse...

"O que eu vejo no mundo é uma inversão de valores" [sic]...

pois é, é o mundo moderno em sua crise... já diria Rene Guenon...

Qelimath disse...

Fantástico!!!!
Eu adoro Saturno e adoro a Saturnália, mas desgosto do festival da ignorância que se tornou o carnaval. Disseste tudo sobre a inversão de valores sobrepor o sentido da inversão de papéis.

Robson Rogers disse...

O texto é interessantíssimo.

Eu não sei exatamente o motivo de eu n gostar de carnaval, mas creio que o carnaval vem a calhar com o momento que estamos vivendo. A crise do modernismo, como foi comentado acima. Entretanto, a crise do modernismo já existe há quase meio século e agora a denominam de Pós-modernismo. Uma palavra que me persegue, atrelada ao ar que eu respiro.

Já é hora de acabar com essa fase e passarmos para a próxima. Independentemente da existência de carnavais, temos que repensar seriamente o que os signos representam em nossa vida e reeducarmos os seres humanos quanto ao verdadeiro significado das palavras respeito, devoção, prosperidade, beleza, amor, caridade e fé. Afinal de contas, o que somos aqui, nessa rede interligada? A que nos prestamos?

Temos blogs, fazemos comentários, compartilhamos coisas, fazemos números. Números para nós mesmos. Estamos em um momento em que o ser humano se volta para si mesmo e apenas para si. não se vê mais união e nem se entende o verdadeiro significado da palavra e do ato de unir-se a algo ou alguém. As amizades são compartilhadas, os livros, as músicas, as coisas em geral, as pessoas e os sentimentos. O que queremos com isso? Perguntarei novamente: O que pretendemos com isso?

Não passamos de escolas de samba desfilando na avenida com a esperança de melhores notas, votos e merecedores de atenção. A causa- independente de que causa for - em si, não parece mais importar.
Existimos por uma desculpa que damos a nós mesmos de que temos que fazer algo por outro algo, quando na verdade só o estamos fazendo por nós e nossas precárias convicções.

Posso não gostar do carnaval como o é aqui no Brasil, mas, de certa forma, ainda que também já tenha perdido o seu verdadeiro significado, creio que seja a forma mais pura e despida de falsas pretensões. Talvez, o mais próximos que chegaremos a fazer, realmente, pela livre expressão.

Não faz crescer a nada útil ao amadurecimento organizacional e deveres de uma sociedade, mas também não os destrói, como fazemos nós, as vezes, cedendo falsos votos ao apoio de algo melhor.

É pura diversão para quem gosta. Livre de preocupações, ideologias. Onde não existe um passado nem um futuro. Somente o presente.

Assim, creio que descubro no final deste post que não gosto do carnaval- o carnaval que conhecemos hoje - por ele retratar o que há verdadeiramente em nós. Nos fantasiamos para mostrar o que realmente somos e nos desfantasiamos para voltarmos a nos fantasiar e sermos aquilo que pensamos ser: seres polidos, íntegros e de ideologias de prosperidade e amadurecimento.

O carnaval é uma das épocas mais tristes do ano, pois me leva a crer que não chegaremos muito longe, justamente pela falta de adaptação à verdadeira realidade que nos cerca e à verdadeira necessidade de modificação que nos é solicitada.

Temos um sistema interligado que se chama internet e não o usamos nem na medida de 0,1% para algo verdadeiramente glorioso. Um sistema de unificação ineficaz devido à desunificação dos seres que se compartilham, por ser mais importante a imposição de seus fragmentos aos outros do que a aglutinação da essência.

Como disse: não passamos de um Carnaval.

Leo Carioca disse...

Simplificando, é a chamada ´´anarquia generalizada``, né?rs A época de poder fazer TUDO sem nenhum tipo de limite deixou de ser o Carnaval e passaram a ser os 365 dias do ano.
Não sei se isso é um problema do Mundo atual ou do Brasil atual, pois o brasileiro é que tem muito a tendência de confundir liberdade com anarquia e democracia com anarquia.

I. disse...

É exatamente isso... não sei se é bom ou ruim, mas de fato, não há limites claros determinando o que é o que em cada lugar, no mundo e na vida.

Muitas coisas perdem seus sentidos, não só o carnaval, infelizmente...

☯ℒLuGoyaZ❀♬✪ disse...

Seu blog é esteticamente, bonito e com um conteúdo fabuloso. Parabéns. LuGoyaz.

Azezel Semjaza Qayinn Lvnae disse...

Imensa gratidão pelas palavras de incentivo e o seu blogger é muito bom e é um dos sempre tenho lido...

Nion disse...

Sei que o comentário tá meio atrasado, mas vamos lá: eu também não gosto do carnaval pelo contexto vazio que ele foi inserido. Nem só os cristãos viram seus feriados (eg. Natal e Páscoa) tornarem-se uma mera data comercial, mas nós pagãos também temos que assistir a este circo trágico que se tornou o Carnaval que substitui o valor da liberdade socio-psicológica por uma liberdade sexual profana e estéril. A banalização do sagrado é reflexo de uma alienação generalizada.