terça-feira, 15 de março de 2011

Sobre os rótulos e a espiritualidade.

Acredito que em tempos como os nossos, de globalização e derrubada de fronteiras – sejam elas intelectuais, culturais ou religiosas – não seja difícil de entender a necessidade de algumas pessoas de classificar e rotular coisas que, muitas vezes, não podem ser nomeadas para uma simples compreensão racional e cartesiana de algo.

Em tempos pós-modernos onde tudo é nada e nada é tudo, não nos é fácil a empreitada de entender algumas relações e processos da vida e do comportamento humano sem recorrer a alguns rótulos pré-estabelecidos que deixamos, em algum momento, guardado em um canto obscurecido da memória cotidiana. Afinal, para uma compreensão do que quer que seja, sempre deveremos trabalhar com conceitos.

Conheço alguém que diz que o equilíbrio é a chave de tudo, e não acho que nesse caso seja diferente. O problema é que muitas vezes somos levados a rotular algumas crenças e visões de mundo não como processos, mas como conceitos estáticos que não mudam dentro de um todo, e ainda com um único objetivo implícito: de que possamos entender as crenças do outro de acordo com nossas próprias experiências. Estranho, não?

Ou é pagão, ou é cristão. Se não se é politeísta, é monista, monoteísta, deísta ou panteísta. Se acredita em uma deusa, ela tem três ou quatro faces? Se é um casal, espero que não sejam de panteões diferentes! Se reverencia os santos, é católico, e se não é católico romano será obrigatoriamente um pagão por renegar um Único deus.

Acredito que é interessante trabalharmos com conceitos para construir nossas próprias opiniões. Mas lembremos que poucas coisas na Vida e na Morte são estáticas ou inflexíveis, e que na maioria da vezes, as coisas costumam fluir como a água de um rio, que hoje pode ser de um lago, mas amanhã de uma cachoeira.

Detalhe de Minerva e o Centauro (Botticelli, 1482-83).

11 comentários:

lucaskirschke disse...

Quem trabalha com teoria, principalmente nas ciências humanas (creio eu), corre sempre o risco de se deixar levar por um mar de conceitos e perder de vista a praia - o que dá suporte, chão à teoria: o corpus, a prática. Mas quando se considera um tema como espiritualidade, e principalmente se se é um praticante, é ainda mais perigosa a fuga ao conforto dos conceitos-gavetas. Isso porque se está a lidar com identidades, e esta zona de conforto é algo muito fácil, mas que deve sempre ser evitado. Nem sempre "uma coisa é uma coisa e outra coisa é (unicamente) outra coisa". Parabéns pelo texto.
Abraço, LK

Robson Rogers disse...

Como sempre digo, o pós-modernismo se serve disso. De caos. Acredito, cada vez mais, que a sua passagem entre nós será rápida, se comparado com outros momentos da humanidade. É preciso o caos para que possamos repensar a ordem das coisas. É como um guarda roupa que estava arrumado com as camisas separadas por cores. Conforme o uso as cores foram se misturando na volta da lavanderia. Chega um certo dia em que abrimos o guarda roupa e não sabemos mais o que temos, nem como os temos. É preciso tirar tudo lá de dentro e reorganizar conforme nossa experiência do que funciona e do que não funciona na especialidade de organizar e guardar roupas. Talvez o resultado sejam camisas separadas não mais por cores mas por mangas curtas e mangas longas. Ainda assim, pode ser que futuramente perceba-se que o novo sistema não funcione tão bem o quando se esperava e voltemos a nos perder no caos.

O importante em tudo isso, não é sabermos organizar ou como vamos organizar as coisas ou nossas vidas, mas acharmos a forma mais adequada de conviver e utilizar essas camisas. Isso sim refletirá no nosso bem estar, na nossa produtividade e no nosso amadurecimento.

Somos meros fragmentos de uma gigantesca cadeia de conhecimento. Não tenhamos a pretensão de sermos mais do que isso, pois não somos e nem seremos. Independente de sistemas, pensamentos ou rótulos que somos portadores e propagadores, tenhamos em mente que somos reflexo de nossos pensamentos e não eles de nós.

É merecido a cada cabeça o chapéu que a esta servir.

Babi Guerreiro disse...

Também gostei muito do seu cantinho... bençãos sempre, voltarei pra ler com calma, os textos são profundos.

Até breve!

I. disse...

Esquecemos que a teoria e os conceitos geralmente são estruturados a partir da observação da prática; por vezes observamos o contrário atualmente...

Os conceitos são importantes, pois precisamos deles para conseguir apreender um pouco do que se é o mundo, no entanto é importante que questionemos sempre até que ponto os tais "rótulos" não nos vetam e nos limitam..

abraços!

Um Pagão disse...

Muito obrigado pelo comentário Diannus. Gostei muito do teu blog também!
Já agora deixo aqui um novo projecto que estou a começar
http://caldeirao.vai.la/
por enquanto estou a por um pouco do básico da bruxaria e mais para a frente falarei de assuntos mais "avançados". Espero que também gostes.

Abençoado sejas!

Luciana disse...

Tenho muita dificuldade em rotular tudo, o que é um problema já que trabalho com jornalismo; a gente sempre tem que ser objetivo e dar nome a tudo, mas nunca tem espaço e tempo pra discorrer sobre o assunto de uma forma decente.
Ótimo o seu blog!
:)

Draku-Qayin vel Sabatraxas (a.k.a. Adriano Carvalho) disse...

Adorei... tive que recomendar no Crux ;-)

nieninquë disse...

É a primeira vez que venho aqui, gostei mto da sua reflexão...o ser humano precisa de rotúlos e conceitos para se organizar por conta da nossa falta de capacidade para lidar com a mudança, com o imprevisível...mas a cada dia mais ciências ditas exatas como psicologia (estou estudando de psico por isso digo sem medo rs), medicina e etc se vêem obrigadas a reconhecer a falta de cientificidade, ou seja, não é possível obter uma verdade, uma resposta pronta.
Tudo está em constante transformação, somos únicos, enfim...logo rotular uma espiritualidade que é feita de pluralidade é impossível, pelo menos eu já não consigo mais dar nome ao que eu sigo, posso dizer os traços mais fortes, mas não consigo seguir só uma trilha quando existe td um mundo de possibilidades ^^

Prazer em conhecer ^^
Miquilis
Bruna Costenaro

Gemini disse...

Gostei do blog, muito bom!
Grande abraço!

Leo Carioca disse...

Mas essa coisa de rotular de uma forma tão maniqueísta assim é um posicionamento mais dos cristãos.

´´Ou está do lado do nosso deus ou está contra ele!``

´´Ou você é isso ou você é aquilo!``

Eu não costumo ver pagãos e nem mesmo ateus se posicionando dessa forma tão radical.

Inês disse...

Me identifiquei profundamente com seu texto. Apesar de ser uma pessoa que ama a teoria, esses conceitos e rótulos nos prendem nas nossas práticas mágicas e espirituais e no descobrimento dos nossos próprios caminhos.

Um abraço!
Inês