segunda-feira, 25 de abril de 2011

Porque eu não gosto dessa páscoa.

"Observe este dia de geração em geração para sempre. (...)"

Êxodo, 12:18.

Nessa páscoa, junto àqueles que amo, fizemos nossos próprios chocolates. Em um mundo consumista e capitalista onde um preço, um tamanho e uma marca valem mais do que qualquer coisa, valorizar o trabalho manual, a dedicação e a paciência de construir nossos próprios presentes, sem dúvida é algo gratificante ao longo do processo e no final dele. 

Poucos compreendem o significado religioso e sagrado desse período, e menos ainda compreendem que o momento não só é lembrado pelos cristãos, mas também pelos judeus e seguidores do neopaganismo. Nos moldes cristãos, essencialmente comemora-se a ressurreição de Cristo após sua morte por três dias começando na sexta-feira. Come-se o peixe que não possui sangue vermelho em sinal de luto ao Sangue de Cristo. Para os judeus, é a comemoração do êxodo do povo de Israel do Egito, lugar de onde eram supostamente escravizados.¹ Nas vertentes reconstrucionistas do paganismo, é a celebração de Eostre, antiga deusa germânica da fertilidade. Trocavam-se ovos de presente em sinal do desejo do renascimento, e a lebre era o símbolo dessa divindade por ser um animal muito fértil. 

Essencialmente, entendemos que os três Caminhos lembram esse período, mais ou menos, de uma forma semelhante: um momento de libertação e transição, onde a Morte dá lugar a Luz ou vice-versa. É um conhecimento compartilhado, de geração à geração, uma tradição deixada pelos Velhos aos Neófitos, como uma corrente que nunca se quebra, mas que por ventura pode transformar-se. 

Enquanto movíamos o chocolate em círculos, traçando sobre ele o pentagrama ou a cruz, não fazíamos nada diferente do que muitos já fizeram em tempos passados e ainda fazem nos dias de hoje: usar o poder do Fogo como uma bênção dos Ancestrais para mudar e moldar para, por fim, transformar uma prece em realidade. A diferença é que muitos não se lembram de como fazer certas coisas.

¹ Provei pela primeira vez o Matzá, pão sírio utilizado nos ritos judeus. Muito gostoso!

Esse texto é uma continuidade à: Porque eu não gosto desse carnaval. 

Detalhe de Os deuses do Lar (Waterhouse, 1880).

7 comentários:

lucaskirschke disse...

E esse lembrar-se pode ser uma delícia, não é? Grande abraço.
LK

Robson Rogers disse...

Muito interessante a reflexão sobre a páscoa. Senti que tu levantou uma questão interessante, a de valorizar o trabalho manual e artesanal, terminou dando embasamento do que viria a ser a Páscoa para três povos diferentes e que coincidências existem aí. Apenas acredito que, talvez, fosse necessária uma maior reflexão sobre o assunto. Gosto do texto, ele é bem informativo, mas confesso que sinto falta de ele ser mais reflexivo. bjs2

Nina disse...

Quando você diz que não gosta "dessa" páscoa, ressalta a páscoa de que gosta. Gosto desse jeito de construir críticas.

Bênçãos, querido.

Inês disse...

Adorei seu relato. Realmente, essa Páscoa não é das mais agradáveis. Fora que trabalhar com chocolate é sempre uma celebração a parte.

Foi seu dia de Vianne Rocher, a dona da doceria de Chocolat. :)

Gemini disse...

Esta Páscoa que vemos hoje em nada lembra o caráter libertário da verdadeira Páscoa. Todos escravos de convenções fazendo tudo o que os outros fazem sem nem saber a razão de repetirem os mesmos pensamentos, atitudes...É, vida essa.
Grande abraço!

([säm]) disse...

Meo...como eu adorei sua idéia!!! Estou com a mesma intenção...mas pra fazer no dia de Ostara mesmo (Roda Sul).

A gente tem que tomar cuidado pra que nossos dias sagrados não se banalizem...pq isso já aconteceu...veja o Halloween...

o comércio vazio sempre procura pessoas que são preguiçosas......

Leo Carioca disse...

Bom, em relação à Páscoa como é comemorada no Brasil, você já sabe a minha opinião, né?rs
Você até comentou lá no meu blog quando eu fiz o post sobre Lir e Lug e, meio sem querer, surgiu o assunto nos comentários.
Bom, é aquilo.