sábado, 30 de julho de 2011

Entrevista com Draku-Qayin (a.k.a. Adriano Carvalho) sobre Bruxaria Tradicional.

Odir Fontoura1: Draku-Qayin, se é possível fazê-lo, o que você define por Bruxaria?

Draku-Qayin2: Bruxaria inicialmente é a Arte de provocar mudanças, é o uso alegado de poderes sobrenaturais ou mágicos, independente da crença religiosa do bruxo. Ao contrário do que reza a crença atual, baseada nos movimentos reconstrucionistas, a Bruxaria é definida não como uma religião, mas sim como um ofício, o Ofício das Bruxas. Podemos dizer num nível mais metafísico que a Bruxaria é o Dom ou Poder inato em certos indivíduos, que os capacita a interagir dentro dos "outros mundos" e seres que lá habitam. E, mais, digo que Bruxaria e Feitiçaria são sinônimos, pois a Arte primordial da bruxa, independente de seus cultos particulares, é e sempre foi a Arte de fazer feitiços, ou bruxedos. Por que digo que a Arte Bruxa é um ofício e não uma religião? Bom, tomarei como exemplo o ofício dos ferreiros; antigamente, os ferreiros tinham uma devoção e culto pessoal, seja para deuses, seja para santos patronos de sua ocupação. Isso não caracteriza uma “religião dos ferreiros”; não precisamos ir muito longe, o santo padroeiro dos ferreiros é São Baldomero, muitos ferreiros tem uma devoção pessoal para com este santo, devoção esta que não é oficial no cânon da Igreja, tal devoção, mesmo sendo um culto de cunho espiritual, não caracteriza uma “religião de ferreiros”. O mesmo sempre ocorreu com os bruxos, o bruxo tendo seu culto particular para a deidade padroeira de seu ofício, não torna tal culto uma religião.

A Bruxaria passou a ser vista como uma "Religião" principalmente após a obra de Margaret Murray (O Culto das Bruxas na Europa Ocidental), onde sua tese parte da premissa de que há dois tipos de Bruxaria, a Ritualística e a Operacional. Por Ritualística, Murray define um apanhado de rituais religiosos em grupos organizados que sobreviveram durante toda a idade média e renascimento, o que já se provou nos meios acadêmicos não ter nenhuma fundamentação. A segunda definição de Murray, que ela qualifica como Bruxaria Operacional, seriam os feitiços, encantos, o uso da magia per se, esta sim sobreviveu com o passar dos séculos, como é observado pela História, e exatamente isso que sobreviveu, não foi o foco da pesquisa da Dra. Murray.

A herança que nós bruxos clamamos, é exatamente esta, a Arte da Bruxaria, seus feitiços, seu conhecimento mágico, que vem desde o começo da Civilização Ocidental, na Mesopotâmia, até os dias atuais.

OF: Carlos Roberto Nogueira no livro 'Bruxaria e História - As Práticas Mágicas no Ocidente Cristão' define feitiçaria como 'algo feito' do latim 'fatum', 'destino' ou seja, algo que muda o destino, a realidade. Já a bruxaria, do inglês antigo 'wiccacraeft', a arte do sábio, é um produto essencialmente medieval por possuir aspectos que não foram encontrados na Antiguidade, dos quais predomina a figura diabólica: O pacto com o diabo, o culto demoníaco, a apostasia e a renegação da fé cristã, etc. Logo, aqueles que não renegavam a fé no Cristo, não eram bruxas, mas sim feiticeiras. Consequentemente, não houvera 'bruxaria' na Antiguidade, mas tão somente 'feitiçaria', de forma que na Idade Média, as duas práticas coexistiam. O que você pensa sobre isso?

DQ: Concordo com o autor, e inclusive recomendo a leitura da obra para todos os interessados. Como disse anteriormente, não vejo diferença entre feitiçaria e bruxaria, mas esta confusão ocorre pelo seguinte, na terminologia antropológica, baseada no estudo pioneiro de E.E. Evans-Pritchard sobre as crenças mágicas da África central, uma “bruxa” difere de uma “feiticeira”, pois a primeira não utilizaria ferramentas ou ações físicas para amaldiçoar, seu maleficium é visto como uma extensão de alguma qualidade interna intangível. Só que, o próprio antropólogo alerta que esta definição não poderia corresponder ao uso do termo no inglês. Os historiadores da bruxaria européia descobriram que esta definição antropológica é difícil de aplicar à bruxaria européia e britânica, onde a “bruxa” poderia igualmente usar, ou ser acusada de usar, técnicas e ferramentas físicas, bem como o uso somente do pensamento, para seu objetivo. Esta diferença se sustenta somente no uso das ferramentas externas ao próprio operador, e hoje a identificação de ambos os termos dá-se pela popularidade do termo, seu uso comum por associação.

A obra de Carlos Roberto Nogueira inclusive aponta para algo interessante, a criação do termo Bruxaria no período de dominância Cristã, logo, isso dá embasamento ainda mais para que a Bruxaria não seja um culto religioso de caráter unicamente pagão, ou pré-cristão como os autores modernos gostam de dizer, mas sim, que a Bruxaria que é praticada hoje nasceu sim na Idade Média, e que sua figura central é o Diabo. É lógico que o “Diabo” tomou a forma de deuses silvestres, um desafio natural que estava em oposição ao civilizado mundo cristão, incorporando o maniqueísmo oriental que o tornou uma figura incompreendida. Mas não penso que as bruxas, nem o Cornudo, se “oferenderam” com a fusão entre os antigos deuses chifrudos silvestres e o Diabo da cristandade. O Cornudo sempre foi uma deidade de caráter “trickster”, e nesta nova realidade cristã, ele acabou se aproveitando desta máscara, e as bruxas também passaram a se aproveitar desta máscara, chamada de “o Diabo”. Para uma compreensão mais acurada da figura do Diabo na Bruxaria Tradicional, recomendo a leitura do ensaio “O Diabo Sábio”3 de Nicholaj de Mattos Frisvold, no qual o leitor poderá compreender melhor esta figura tão mau compreendida pelo maniqueísmo imposto.

A imagem da bruxa nos tempos pré-cristãos começa a ser identificada, por exemplo, na mitologia Clássica, com o ícone de Circe e Medeia, mas somente se cristaliza no que a bruxa veio a se tornar após o advento do Cristianismo. Assim, podemos concluir que toda a herança mágica e "feiticeira" que citei, vinda desde o início da Civilização Ocidental, se fundiu com o imaginário medieval da bruxa, com seus sabbats e seu Diabo, dando origem assim ao que conhecemos hoje por Bruxaria.

OF: O que você acha da presença, bem como da negação da figura do Diabo nas práticas de bruxaria na contemporaneidade? Porque grupos tradicionais e modernos divergem tanto neste aspecto?

DQ: Bom, inicialmente os grupos e praticantes tradicionais defendem a presença do Diabo na Bruxaria, como expliquei previamente sobre quem é esta figura, exatamente por ser uma figura que sempre esteve lá, e isso é constatado não somente nas linhagens de bruxaria “pré-wicca”, como também em diversos estudos históricos.

Os grupos modernos negam a imagem do Diabo por um motivo simples; quando o movimento da Wicca, criado no final dos anos 40 por Gerald Gardner, veio a público, tal movimento desejava a aceitação das pessoas, se utilizando da propaganda de que a bruxaria era um culto benéfico, o que é interessante, pois aqui temos o começo da idéia de “bruxa branca” em oposição à “bruxa negra”, o que mais uma vez demonstra a aceitação por parte de tais pessoas do maniqueísmo imposto. E mais, negando qualquer origem ou resquício de cristianismo em seu cânon. Para obter tal aceitação, é obvio que a figura do Diabo não poderia estar presente, pois tal figura além de representar o mal na mente das pessoas comuns, é uma figura predominantemente cristã, algo que os grupos modernos repudiam e negam, mesmo que até a própria Wicca tenha em sua criação, diversos elementos que são compartilhados com o cristianismo, implícitos ou explícitos.

OF: Você pode citar alguns destes elementos?

DQ: Sim, apenas para citar alguns dos muitos exemplos, podemos falar do uso de um círculo construído com um punhal de cabo negro, o exorcismo da água e do sal, a conjuração dos Guardiões dos Quadrantes, o próprio uso de quatro ferramentas mágicas principais (athame, bastão, cálice e pentáculo), o uso do Pentagrama como símbolo da religião. Todos esses elementos são provenientes dos grimórios Salomônicos, especificamente a Grande Chave de Salomão, uma gramática de magia puramente hebraica. Se você observar, por exemplo, o tão famoso “Livro das Sombras”, verá que até mesmo os nomes cabalísticos de Deus são utilizados em conjurações e nos exorcismos da água e do sal. O nome “Athame”, muito utilizado pelos wiccanos, também aparece pela primeira vez nas Chaves de Salomão, como explico em meu ensaio sobre este Instrumento4. Os Guardiões dos Quadrantes são claramente os Anjos Gabriel, Miguel, Rafael e Uriel; e mais, na Wicca se utiliza para tais seres o nome de “Guardiões das Torres de Observação”, e “Torres de Observação”, sendo quatro em número, uma em cada quadrante da Terra, é o termo usado pelo Mago Elizabetano John Dee em seu sistema de Magia Angelical conhecido como “Magia Enochiana”. Isto apenas para ilustrar uma pequena parte de tais elementos. O observador atento consegue identificar muito mais.

OF: Nicholaj De Mattos Frisvold no livro 'Artes da Noite: A História da Prática da Bruxaria' assume que a bruxaria é um patrimônio cultural da humanidade. Dada a pluralidade da cultura humana não é de se estranhar a diversidade das práticas entendidas como práticas bruxas ou feiticeiras ao longo da história e ao redor da Terra, ainda que existam característias em comum nesses sistemas. Mas devido a essas peculiaridades que cada sistema carrega, é possível um mesmo praticante estar inserido em mais de um sistema de crenças e práticas feiticeiras? Um sistema não anularia outro? Você já presenciou isso?

DQ: Sim, é totalmente possível, e digo isso por experiência própria. É possível, pois os bruxos sempre buscaram conhecimento mágico onde ele estava acessível, logo sempre foi muito comum para um bruxo ter conexões com mais de uma prática feiticeira. Digo por experiência própria, pois eu mesmo como um bruxo tradicional, faço parte da Irmandade da Arte Sábia conhecida externamente como Via Vera Cruz, e também sou iniciado em mais dois ramos de Bruxaria Tradicional; o Clan of Tubal Cain, do qual faço parte através de sua extensão brasileira, o Lilium Umbrae Cuveen, e recentemente fui induzido à Modazaharra, mais comumente conhecida como Bruxaria Basca. Além destes ramos de bruxaria européia, sou Hounsi de Vodou Haitiano, um culto extremamente feiticeiro que nasceu da fusão entre a magia e religião africana com a bruxaria medieval francesa, e sou também Kimbandeiro, sendo a Kimbanda uma forma de feitiçaria puramente brasileira.

Um sistema não anula o outro, pois mesmo inserido neles, não misturo um com o outro. Por exemplo, se vou trabalhar com Vodou, trabalho nos moldes do Vodou, seguindo seus parâmetros, sua liturgia e aquilo que é requerido nele, e nunca chamaria um Exu de Kimbanda num trabalho de Vodou; o mesmo se aplica a cada sistema, cada prática é feita em seu devido local, em seu devido momento, sem misturá-las.

Indo mais a fundo, um sistema não poderia anular o outro, pois os espíritos e deuses que cada prática engloba, não são inimigos uns dos outros; não há conflitos entre Exus, Lwa, Jaunak e Witchfathers; cada espírito, cada deidade, opera unicamente no sistema ao qual pertencem, não tendo influência em outro sistema. Posso dizer até, que todos eles convivem harmoniosamente, cada qual em sua “moradia”. As características em comum que cada prática feiticeira carrega é aquilo que chamamos de Perenialismo, é o que define algo como Tradicional.

OF: Aqui você deu o exemplo de crenças e práticas de caráter Tradicional. No que toca à Wicca moderna, ainda existe a possibilidade de um mesmo praticante utilizar-se dos elementos da Wicca e da Bruxaria Tradicional, por exemplo? Aqui em Wicca moderna eu digo Wicca pós popularização do Ray Buckland e sua possibilidade de auto-iniciação.

DQ: Não penso ser possível, pois a Wicca moderna a qual você se refere, popularizada por Ray Buckland, já começa com algo que vai contra a Tradicionalidade, que é a auto-inicição. Não existe auto-iniciação, pois como que alguém vai se dar algo que não tem? Até aceito o termo auto-dedicação, quando uma pessoa se coloca diante dos deuses, espíritos ou poderes, e se dedica àquelas forças, mas iniciação sempre implicou na transmissão de conhecimentos secretos prévios, e na passagem de poder. Há uma modalidade de Iniciação, conhecida em algumas vertentes da Arte européia chamada de Iniciação Solitária, mas tal Iniciação difere em muitos aspectos da auto-iniciação, tanto na forma e função, como em sua obtenção.

O que se torna possível é um praticante trabalhar tanto com Wicca como com Bruxaria Tradicional, se sua prática de Wicca for aquela legada por seu idealizador, ou seja, um praticante devidamente iniciado na Wicca Gardneriana ou Alexandrina. E tal praticante fará ambas as práticas em separado, dia de Wicca será dia de Wicca, dia de Bruxaria Tradicional será dia de Bruxaria Tradicional, sem misturar ambos os sistemas.

OF: Pode nos falar um pouco sobre a Iniciação Solitária no que a diferencia da auto-iniciação como é conhecida atualmente?

DQ: A premissa da auto-iniciação é aquela na qual a pessoa por livre e espontânea vontade faz um ritual pré-estabelecido, e ao terminar o ritual ela se considera então uma Iniciada. A Iniciação Solitária, ao contrário, não depende unicamente da vontade da pessoa em se iniciar. Na maioria dos casos, a pessoa que passará pela Iniciação Solitária, recebeu as instruções de como proceder no processo da Iniciação de uma outra pessoa já Iniciada naquele Mistério em particular, e aqui já vemos um traço de transmissão, mesmo que textual ou oral. Não somente isso, a Iniciação Solitária não é apenas um ritual que é executado com um começo, meio e fim, e no fim simplesmente “se está iniciado”. Certos sinais e augúrios devem acontecer, para que a pessoa possa prosseguir em sua execução, e somente esta pessoa será verdadeiramente Iniciada em tal Mistério se ela conseguir passar por todas as provações e testes que tal Iniciação requer, e falhar em alguma das provações indica que a pessoa não foi Iniciada, e não deverá prosseguir. Vou usar o exemplo de uma famosa forma de Iniciação Solitária conhecida na Inglaterra, o Toadrite.

Nesta Iniciação Solitária, o aspirante em busca do Poder e do Conhecimento do Rito, deverá sacrificar um certo tipo de sapo. O cadáver do sapo é então enterrado em um formigueiro para se obter apenas seus ossos. Com os ossos, o aspirante deverá ir num curso de rio, numa dada ocasião, e deverá lançar os ossos na correnteza, e diz-se, um único osso voltará para as mãos do aspirante, este osso indo contra a correnteza para voltar às mãos da pessoa, e que toda a natureza em volta tentará, por meio de fenômenos naturais, impedir que a pessoa obtenha o osso. Bem, esta é a primeira parte da Iniciação, e se o osso não voltar para a mão da pessoa, esta etapa não foi concluída com sucesso, e o aspirante deverá desistir do rito. Mesmo tendo conseguido seu osso, após um certo período de tempo, a pessoa deverá fazer três noites de vigília com o osso em mãos, em três locais diferentes. Na última noite, o Diabo em pessoa aparecerá para a pessoa e tentará lhe tomar o osso, usando até mesmo de força. O aspirante deve manter o osso consigo, e se conseguir vencer o Diabo nesta ordália, então é dito que o Mestre Chifrudo lhe conferirá seus Poderes, e é assim que nasce um Toadwitch.

Veja que no exemplo desta Iniciação Solitária que eu dei, muitos fatores vão definir o sucesso ou não da Iniciação, logo, não basta apenas fazer uma cerimônia, mas prosseguir passo a passo de um ciclo ritual, onde somente o sucesso num passo anterior permitirá que se avance para o seguinte, até o termino do ciclo, que somente se for bem sucedido, haverá uma verdadeira Iniciação.

OF: O que definiria um sistema de práticas Tradicionais de outras não-Tradicionais? Moderno é sinônimo de não-Tradicional?

DQ: Bom, para isso temos que analisar o que vem a ser algo Tradicional. Conforme definimos no nosso site sobre Bruxaria Tradicional, a Tradição é uma expressão do ethos de um grupo ou sociedade. Seu significado vem latim, significando “trazer”, “entregar” ou “transmitir”. A Tradição é uma doutrina, uma cosmovisão, não um dogma. A partir de uma dada Tradição, é possível encontrar relações com as outras, e isso é chamado de Perenialismo, ou Filosofia Perene. Logo, todas as manifestações Tradicionais a fora pelo mundo, contém elementos idênticos se analisadas, um núcleo doutrinário que se repete em cada Tradição, desde o Hinduísmo, passando pelo Cristianismo, Islamismo, e religiões antigas e tribais, tais como o Culto de Ifá na Nigéria.

Não, Moderno não necessariamente deixa de ser Tradicional, desde que algo Moderno pode conter em sua essência uma linhagem Tradicional. Uma criação totalmente Moderna, sem nenhuma fundamentação Tradicional sim, é um sinônimo de “não Tradicional”, como por exemplo, movimentos cristãos neopentecostais, e também os movimentos da nova era. Um exemplo de um grupo moderno e ao mesmo tempo tradicional, é a Cultus Sabbati; a Cultus é moderna pois foi fundada e estabelecida por Andrew Chumbley no final dos anos 80 e começo dos 90, mas é tradicional pois nasceu da união de duas linhagens tradicionais nas quais Andrew havia sido iniciado.

OF: Creio que o exemplo que você deu é pertinente para exemplificar as noções de modernidade e tradicionalidade, no processo em que se chocam e complementam-se. Pode falar um pouco mais sobre os sistemas de Bruxaria Tradicional dos quais você é iniciado?

DQ: Claro. Como expressei anteriormente, faço parte da Irmandade conhecida como Via Vera Cruz, que antes de ser um “sistema” propriamente, é uma Família. Não somos uma Ordem Mágica, muito menos uma Instituição, pois o caráter da Via é realmente o de Família. Em uma Ordem ou Instituição de cunho religioso ou espiritual, praticamente qualquer pessoa pode entrar, se ela passar por alguns pré-requisitos, é algo frio, um tanto impessoal. Em uma Família, há muito mais do que uma simples admissão por interesses comuns, uma Família é o chamado dos iguais pelo sangue; é como diz o ditado bruxo, “Sangue por Sangue, Igual por Igual”. Uma Ordem ou Instituição é deveras burocrática, e nem todas as pessoas terão laços de amor, união e intimidade como numa Família. É por isso que, em uma Família sempre haverá poucos membros, se compararmos com uma Ordem ou Instituição.

A Via Vera Cruz nasceu no Brasil, fruto do trabalho de mais de 20 anos de nosso Magister com Bruxaria Tradicional. Nosso Magister trabalhou por todo esse tempo dentro de algumas linhagens da Arte Sábia na Europa, e a Via seria então o fruto nascido destas linhagens, uma “Encruzilhada” onde certas linhas se unem num Ponto único; é por isso que muitas vezes, grupos tradicionais são chamados de “Pontos de Poder”, um Ponto onde duas ou mais linhagens se unem. Por Vera Cruz, temos um entendimento Externo e Interno. Externamente por ser um dos primeiros nomes que nosso amado Brasil recebeu na colonização, e internamente pelo simbolismo da Cruz, da Encruzilhada, do ponto de convergência, e da importância da Verdadeira Cruz, na qual a apoteose de todos os Reis Sacrificiais ocorreu.

A Via costuma ter membros discretos, então será muito difícil você ver seus membros clamando publicamente serem da Via. Na verdade, poucos são os membros que vem a público. Entre eles, eu como Convocador e nossa Chanceler, pois entre os deveres de nossos ofícios, está o de ser a ponte entre a Via e as pessoas de fora da Via.

A Via é por excelência um Caminho Sethiano com um Ingresso Cainita. Seth, o terceiro filho de Adão sendo o protótipo do Homem Perfeito, o Homem Pneumático. O homem do barro, aquele preso pelas ilusões que obscurecem a mente, é significado por Abel, o Profano. O homem do fogo, aquele que começa sua jornada para descartar o simples barro, é significado por Caim, o Homem Psíquico, e Seth vem significar o terceiro estágio desta busca gnóstica.

Trabalhamos essencialmente com os espíritos de nossa terra, os Genii Loci, os Mortos Poderosos tanto da terra quanto das linhagens, e com os Poderes Celestiais, marcados pelo movimento dos Planetas e Estrelas. Dentro da Via há espaço tanto para a magia simples (e não menos poderosa) da terra, dos cunning-men e wise-women, curandeiros e benzedeiras, como para o conhecimento refinado dos Doutores dos Planetas e Filósofos.

Fui também introduzido no Clan of Tubal Cain, a Irmandade de Bruxaria Tradicional estabelecida por Robert Cochrane. Esta introdução se deu por meio de meu tutor, que por sua vez foi jurado por sangue e lealdade diante dos atuais Dama e Magister do Clã, Shani Oates e Robin the Dart. A extensão no Brasil do Clã é o Lilium Umbrae Cuveen, e seu ethos e caminho pode ser entendido pela introdução contida neste link5, encontrado no site oficial do Clã. E, pelo ingresso de meu tutor no Clã, podemos dizer que este e a Via se tornaram irmãos por aliança.

Como citei, também fui introduzido recentemente em Modazaharra, ou Bruxaria Basca. Modazaharra é o termo basco para “Modo Antigo” ou “Costume Antigo”. É um caminho belo e com uma metafísica muito complexa e detalhada. Disto em particular não posso falar muito, pois ainda sou um peregrino de caminhada recente neste Caminho, e muitos anos virão pela frente até que eu tenha autonomia para comentar mais sobre o assunto.

OF: Sem dúvida é uma bagagem importante e com longas raízes. Por Tradicional é correto presumir, nesse sentido, que todo esse conhecimento foi passado de uma geração à outra sem interrupções?

DQ: Sim, herdamos uma tradição de práticas mágicas e conhecimento, que é passada de geração em geração, e como é comum nas irmandades da Arte Sábia na Europa, este legado veio primariamente dos cunning-men e wise-women. Estes homens e mulheres sábios, no século XIX passaram a se reunir em lojas e grupos, tais como a Horseman’s Word, entre outras, o que possibilitou que uns conhecessem aos outros e pudesse então haver um intercambio de conhecimento. Antes disso, não era comum grupos de bruxaria, tais como os supostos covens, pelo contrário, era bem mais comum os bruxos serem solitários, obtendo sua linhagem passada de um para o outro. Mesmo fazendo parte de uma Irmandade hoje em dia, é muito comum que o bruxo continue de certo modo trilhando seu caminho solitariamente, o Caminho do Um em direção ao Um.

Como parte desta tradição, aceitamos que cada geração tenha sua própria versão de práticas e ensinamentos, sua própria recensão daquilo que foi recebido, com isso quero dizer que cada geração mantém os ensinamentos e princípios da prática mágica conforme recebidos, combinando elementos culturais de seu tempo e local de acordo com a necessidade e disposição. Ou seja, o núcleo e a essência da Tradição e seus ensinamentos continuam os mesmos, mas a cada geração sua estética é enriquecida, sua Forma, como a pele de uma serpente, é constantemente renovada, e sua Função permanece imutável.

OF: Ainda que essa transmissão linear do conhecimento possa ser traçada desde o séc. XIX, muito dos conhecimentos que permeiam o modus operandi Tradicional são anteriores a esse período: encontramo-nos na literatura neoplatônica, tratados alquímicos e astrológicos, concepções gnósticas etc. Nesse sentido, então, existe reconstrucionismo?

DQ: Neste ponto não vejo que exista reconstrucionismo, pois neste caso ninguém está reconstruindo um “culto” para deuses que tiveram seus cultos exterminados por quaisquer fatores que fossem. Um Bruxo trabalha forças muito vivas e com máscaras atuais. Tanto a literatura neoplatônica, os tratados alquímicos e de astrologia clássica, concepções gnósticas, e até mesmo estendendo para conceitos herméticos, não são cultos e nem religiões, são áreas de conhecimentos filosóficos e, por que não dizer – como no caso da astrologia clássica – práticos, que independem de uma transmissão linear para serem usados e entendidos. São conhecimentos que não se perderam no tempo, foram documentados, e seu uso pelos bruxos à partir do século XIX veio somente contribuir para um aprimoramento de seus próprios conhecimentos que foram recebidos por transmissão.

Nos dias de hoje mesmo, qualquer pessoa interessada e devotada o bastante para estudar as obras de William Lilly, Agrippa, Al Biruni, entre tantos outros autores antigos da Astrologia, poderá clamar sim ser um astrólogo tradicional, pois no caso nenhuma iniciação ou transmissão é necessária para que uma pessoa se torne um astrólogo. E ele não estará reconstruindo nada, pois esses conhecimentos não foram em nenhum momento exterminados, para serem reconstruídos.

Como disse, durante o século XIX, por meio da reunião dos sábios em confrarias e irmandades, o estudo da Arte Sábia passou a ser muito mais refinado para os mesmos, e é exatamente isso que explica o porque a Arte Bruxa atualmente passou a ter um caráter mais “místico”, mais “quintessencial” e filosófico do que no passado, mas sem perder também sua essência e foco na terra, nos espíritos que nela habitam, nas artes da cura e maldição, na herbologia popular, etc. Todo esse processo pode ser melhor entendido pela leitura dos capítulos VI e VII do livro "Artes da Noite: A História da Prática da Bruxaria" de Nicholaj de Mattos Frisvold.

OF: Assumindo a possibilidade da Bruxaria ser entendida como um processo fruto do contato e da interação cultural, bem como uma herança humana per se – como é defendido na bibliografia acima descrita –, como você explica a categorização das crenças e práticas reservadas aos Iniciados e, outras, aos não-Iniciados? Na teoria, não são todos que teriam acesso a este conhecimento que, por direito, é de todos? 

DQ: Robert Cochrane certa vez disse que todos os Mistérios estão ai, espalhados pelo mundo, que não há nenhum segredo que não possa ser descoberto e compreendido, vai do buscador ter olhos para poder enxergá-los. A Bruxaria é sim um patrimônio da humanidade. Nunca foi, e não é a Iniciação que faz o Bruxo, o Bruxo nasce Bruxo – e isto está presente no tão falado conceito de sangue-bruxo – ele nasce com as habilidades únicas que o fazem ser o que ele é, assim como o músico nasce com o dom e a aptidão musical, e o Padre nasce com a Vocação ao Sacerdócio.

A Iniciação é primariamente um Início, não a Meta como muitos buscam alcançar. Ser Iniciado significa receber um corpus de práticas e conhecimentos com o qual o peregrino irá trabalhar, e mais especificamente nos dias atuais ser Iniciado passar pelo rito de passagem que faz o individuo ingressar numa dada Irmandade. O Conhecimento que é mantido em segredo pelas Irmandades, são as práticas únicas daquele grupo, as experiências e resultados pelos quais aquele grupo passou, resultados esses que podem sim ser obtidos por métodos diferentes, mas com o objetivo comum. São segredos pessoais, que muitos bruxos levaram anos para obter, e mais, o ser humano tem a tendência a não dar valor para aquilo que é dado facilmente. Deve haver uma clara distinção entre Segredo e Mistério, segredos são certos métodos usados, Mistério é algo muito mais profundo que o mero segredo, e como disse, os Mistérios estão todos ai para serem contemplados e compreendidos; ninguém ensina um Mistério para outro, somente pela senciência própria é que o individuo pode chegar aos Mistérios.

Uma Iniciação, vista como um “empowerment”, uma transmissão de poder, visa despertar uma chama que já habitava o sangue do feiticeiro, e que por meio dos processos rituais, tal chama é inflamada. Se não há a chama no sangue, uma Iniciação seria um processo inútil; se não há semente, inútil será adubar o solo.

A Bruxaria é um patrimônio da Humanidade, mas isso não significa que toda a Humanidade necessariamente é, ou será bruxa. Assim como a Medicina é um patrimônio da Humanidade, mas nem todo ser humano nasce com a vocação para ser médico, o mesmo se dá com a Arte, nem todo ser humano nasce para ser bruxo. Ser bruxo não é ser mais ou menos, é simplesmente ser. A Bruxaria não é uma dádiva de beleza apenas, mas é também uma Maldição carregada por aqueles “do sangue”, é viver às margens da sociedade, mesmo estando no meio dos homens, é um caminho de solidão, mesmo estando em uma irmandade; é o reconhecimento desta Maldição que nos faz compreender como os Mortos Poderosos, do primeiro ao último nascido do Sangue-Bruxo, realmente habitam dentro de nossa carne.

Como citei, não é a Iniciação que faz o Bruxo, este nasce feito. E finalizo este comentário com uma frase do célebre bruxo Andrew Chumbley, um dos maiores nomes da Bruxaria Tradicional dos tempos atuais, que explica com simplicidade isso: “Se você chama os Deuses e eles respondem, quem está ali para se opor ou desafiar a integridade se seu Caminho?”

Notas:

1 Odir Fontoura é historiador, autor do blog Diannus do Nemi e do livro Sob o Sol já Deitado, também contribuidor do site Bruxaria Tradicional.

2 Draku-Qayin é historiador, astrólogo tradicional, autor do blog Crux Sabbati e contribuidor do site Bruxaria Tradicional.

3 Este ensaio pode ser lido clicando aqui.

4 Este ensaio pode ser lido clicando aqui.

5 Este texto está disponível também em português clicando aqui.

Bibliografia Indicada:

NOGUEIRA, Carlos Roberto – Bruxaria e História - As Práticas Mágicas no Ocidente Cristão. Editora EDUSC.



FRISVOLD, Nicholaj de Mattos – Artes da Noite: A História da Prática da Bruxaria. Editora Rosa Vermelha.



Imagem: Detalhe de A Visão de Fausto (Luis Riccardo Falero, 1878)

12 comentários:

Mariposo-L disse...

Diannus , tudo bom ...
Quanto mais eu leio sobre paganismo mais eu quero ler ...

Acho que finalmente depois de tanta procura achei algo que realmente quero saber .. saber e saber ...

Um abraço

Draku-Qayin vel Sabatraxas disse...

Foi um imenso prazer responder essa entrevista para ti... perguntas ótimas, e principalmente... DESAFIADORAS!

Um grande beijo,

FFF

☽❍☾ Κάδμος Νηρεύς Azazel Lvnae ☽❍☾ disse...

Gostei muito da entrevista, bastante esclarecedora e olha que eu tenho um grande pé atrás com o blog do Dianus de Nemi.
Porém tenho que dar o braço a torcer, está de parabéns

Nion disse...

Excelente entrevista abordando vários assuntos com perguntas inteligentes e respostas efetivamente esclarecedoras.
Gosto muito de entrevistas pois podemos conhecer vários aspectos do entrevistado.

Cléber disse...

Longa, pertinente, conexa, coesa e elucidativa entrevista! Longa como a vida bruxa, pertinente, pois se relaciona com contextos reais e necessários pra que se possa entender e compreender os fatos, conexa, aliás muito conexa já que o enunciado pode ser lido por um não-iniciado e por um iniciado e ambos terem a mesma visão e apreensão do que foi dito, e elucidativa porque essa entrevista é uma lição, é um aprendizado até mesmo para os mais experientes no assunto. Ler essa entrevista é em última instância, uma aula de progresso na arte!
Parabéns meu querido irmão.
Cléber a.k.a. Sett
;)

Ishiaro disse...

Otima entrevista, clara, concisa, coesa... perguntas esplendorosas, respostas elucidadas. Ambos estão de parabéns :)
Francisco

Raven Draak Luppercus disse...

Realmente, muito elucidativo!

Parabéns Dianus e Draku-Qayin!

Perguntas muito bem elaboradas e respostas bem completas, fazendo referência à outras fontes de conhecimento e despertando a curiosidade do leitor à buscar por tais fontes. Uma grande indução à busca! Eu, como buscador da Arte Sem Nome, fico sempre extasiado ao ler seus ensaios e agora somos brindados com esta entrevista!

Magnífico!

Inês disse...

Parabéns ao entrevistador e à fonte! Foi realmente muito boa.

Gostei porque vocês saíram do "mais do mesmo". Já estou com várias anotações que vou pesquisar agora.

Beijos!

Anjo do Norte disse...

Esclarecedor, direto, com conteúdo e que foge da mesmísse.
Parabéns para ambos!

Axel Lennart disse...

cheguei aqui via o blog diablerie, e estou adorando tudo o que estou lendo.
parabéns para ambos, entrevistado e entrevistador.

Diego ~ Ewan Thot disse...

Interessante. Acho relevante levantar questões sobre as divergências nos diferentes caminhos pagãos. Não pude deixar de traçar um paralelo entre a Bruxaria Tradicional, Satanismo e Thelema. O que percebo é que no fim das contas o que difere entre as várias correntes é a presença mais forte ou mais branda da Magia Cerimonial (incluídos nesse tópico elementos do cristianismo, judaísmo, cabala, alquimia). Como pano de fundo estão sempre presentes os deuses antigos.

raphael disse...

Ola meu nome e Rafael, sou ocultistas e rosacruz, e gostaria de obter uma direcção de como afiliar a tradição de tubal Caim Tao difícil de achar
aguardo respostas
Rs