quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Vida e Morte em Buenos Aires.

Arte vem do latim e significa habilidade. Acho fantástico ver como criações artísticas materializam, através dos símbolos e das imagens, coisas que muitas vezes não conseguimos organizar em palavras. E mais do que isso, como também é maravilhoso perceber que as criações artísticas, essas criações habilidosas, muitas vezes são reflexo de um modo coletivo de entender e dialogar com o mundo.

Nessas férias de julho tive a oportunidade de conhecer Buenos Aires, e particularmente aqui vou me deter à uma especial visita ao chamado Cemeterio de La Recoleta, museu a céu aberto de magníficas esculturas cristãs. Lá encontram-se magníficos mausoléus cercados de anjos, cruzes, uma pluralidade maravilhosa de santos de pedra, alegorias do luto e da morte. O que não é de se estranhar, pois não é o cerne de tudo que fala o cristianismo? Não explica ele sobre as crenças no que vem depois da vida terrena, no desejo de reunião com o Criador após a jornada cumprida, na exaltação de uma justa vida terrena como justificativa para um bom descanso no céu? Reflexões como essas nunca deixaram de ser importantes.

No mesmo dia também uma pequena série de acasos nos levaram ao Jardim Botânico da capital. Diferente do cemitério, um lugar cheio de vida, alegria e também muitas esculturas. Porém, confesso que não consigo recordar-me de qualquer alegoria cristã naquele lugar. Diferente disso, vi esculturas de deuses e deusas pagãs, alegorias do mundo Antigo e até a interessante cena de uma Saturnália. O que também não é de se estranhar, pois não é disso que fala o paganismo? Este último muito pouco se ocupa das questões do post-mortem, mas sim na vida que deve ser vivida com alegria, reverência e êxtase.


Anjo de olhos fechados. Cemeterio de la Recoleta.
Alegoria do Luto. Cemeterio de la Recoleta.
Anjo dormindo. Cemeterio de la Recoleta.
Mercúrio. Jardim Botânico.
Vênus. Jardim Botânico.
Saturnália. Jardim Botânico.
Loba alimentando Rômulo e Remo. Jardim Botânico.


Um interessante dia que tão breve não será esquecido. Vida e Morte que intercalaram-se em um justo tempo mostrando que uma coisa não é nada sem a outra e que para assuntos tão profundos, existem doutrinas e culturas diferentes que se arriscam a refletir sobre essas também diferentes experiências. Com o tempo a gente aprende a não dicotomizar as coisas, arriscando que uma Jornada não deve ser trilhada oscilando entre opostos, mas caminhando em equilíbrio, naturalmente. 

Imagem: Detalhe de O Jovem Baco (Caravaggio 1591-93)

5 comentários:

Luciana Onofre disse...

Adoro visitar cementérios, devo ser louca? se sou agora vejo que não estou só nesse gosto!

Poema as Bruxas disse...

Tenho certeza que seu passeio nas ferias foi muito proveitoso,... Gostaria muito de conhecer lugares assim, quem sabe um dia. Adoro esculturas, tudo que é relacionado a arte.. Sabe vou te contar um segredo. adoroooo livros, eu morro de vontade de conhecer uma biblioteca, sabe daquelas enormes.... pra mim não restaria mais nada, perfeito.

adoro passear por aqui, a leitura me faz viajar eas imagens mais ainda.

boa noite bjinhs

Leo Carioca disse...

Agora você me fez lembrar de algumas esculturas muito bonitas e interessantes que tem no Cemitério de São João Batista, aqui no Rio.
Em todas as vezes que fui lá, prestei atenção nisso.

Cléber disse...

Querido, essa viagem é maravilhosa né, vc me fez relembrar momentos inesquecíveis na Ricoleta de 1997. To feliz por saber que vc fez o mesmo passeio que fiz, e o bom é que hoje tem coisas novas que não tinha quando fui. Será que ta na hora de voltar lá? rs

Robson Rogers disse...

Equilíbrio? Alguém falou em equilíbrio? Pois bem, isso é comigo mesmo. So me resta a dúvida, será, que a oscilação entre dois extremos não caracteriza um equilíbrio se a oscilação for constante? E se caso for, será que algo constante é algo equilibrado? E o que entender de equilibrado? Se for algo constante, é algo que não encontra-se em estado vibracional? Se não se encontrar, seria algo vivo, ou morto? Muitas perguntas, mas é bom pensar a respeito.