sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sobre o porquê das oferendas.

O Jovem Baco (Caravaggio 1591-93).
Já chegou a primavera, mas desde o sabá anterior as flores já começaram a nascer. Foram as primeiras dessa estação que eu colhi nos fundos de casa e deixei sobre o altar, agradecido por Prosérpina voltar mais uma vez dos Infernos.


Tal não foi minha surpresa quando percebi que dentro de poucos instantes as flores já estavam secas – com o calor e o tempo seco que fazia não poderia ser diferente. Observando as flores murchas sobre o prato de oferendas me dei conta que, caso não estivessem naquele lugar, ou sequer tivessem sido colhidas de uma forma especial, é provável que teriam definhado com a mesma velocidade. 


Algumas pessoas não compreendem a questão do sacrifício e das oferendas em um sentido tradicional. O culto a um deus que, além de ser Único e está longe da vida terrena sendo transcendente do material por isso, corrobora para que as pessoas não entendam qual o sentido de oferecer algo físico para uma entidade que, segundo a mentalidade cartesiana, não é física. 


Não vou me deter aqui com argumentos cosmogônicos, filosóficos ou mitológicos para a prática das oferendas. Somente lembrar aqui que os sacrifícios antes de serem as frutas, as flores ou os incensos que são deitados sobre o altar, mais do que isso, esses últimos são apenas o resultado de um processo. A verdadeira oferenda começa com a simples intenção de fazê-la. Devolver algo que já pertence à Natura é lembrar que Vida e Morte andam juntas – e assumir a consciência disso. Prosérpina que o diga.

Oferecer algo sem pedir nada em troca, fazê-lo por puro respeito e reconhecimento, é dar-se conta do porquê de muitas deusas e deuses serem chamados de "mãe" ou "pai". É essencial. 

8 comentários:

Adriana Zampoli disse...

Perfeito! Gostei muito do post! Feliz Ostara!

Fabio Carvalho Nunes disse...

Concordo plenamente!

Angelo Oliveira disse...

sempre vi oferendas como uma forma de agradecimento pelo que nos foi dado. nunca fui de fazer sacrificios, não é muto a minha.

Roberto Quintas disse...

sobre este assunto, aki vai o link de um texto em meu blog: http://betoquintas.blogspot.com/2008/04/natureza-do-homem-e-do-divino.html

Osvandil Silveira Quimas disse...

Sacrifícios de animais são parte de culturas que considero primitivas, principalmente porque não se pode oferecer aquilo que não se deu, a vida. Ninguém é proprietário da vida, então não se pode dar aquilo que não se tem.
O espaço aqui é muito curto para se poder filosofar acerca de assunto tão complexo, mas espero que você tenha captado um pouco da essência do meu pensamento.
Quanto a oferendas de alimentos, flores, jóias, também considero ato desnecessário. Contudo, há quem pratique, e não condeno a ninguém por tal.
Cada um e cada cultura é reflexo daquilo que tem por valores.
Da minha parte creio que é muito mais produtiva a prática de ações positivas direcionadas ao bem comum e ao cuidado com a Natureza.

Nion disse...

O Sacrifício desencadeia processos energéticos e espirituais que estamos longe de entender completamente sua amplitude, a princípio estamos abrindo mão de algo por uma força maior.

Lendo sobre sacrifício, embrei-me de uma passagem de “O Profeta” de Khalil Gibran sobre alimentação (que não deixa de ser um sacrifício diário):

"E que vossa mesa seja um altar no qual os puros e inocentes sejam sacrificados para o que é ainda mais puro e inocente no homem"
[...]
Pelo mesmo poder que te abate, eu também sou abatido; e eu serei consumido.
Pois a mesma lei que te entregou nas minhas mãos vai me entregar a uma mão mais poderosa.
O teu sangue e o meu sangue nada mais são que o fluido vital que alimenta a árvore do paraíso"

Creio que estes versos expressam poeticamente a essência por trás de cada ato sacrificial.

Belo post e desculpe pelo comentário atrasado.

Laura disse...

Retribuindo a visita^^

Boas observações neste texto.
Lendo os coments percebo que alguns consideram vivo apenas o que se debate qndo sangra, hehe

Escrevi um pouco sobre isso, a quem interessar: http://elaquecaminhasobreomar.blogspot.com/2011/03/resacr-alizando-o-sacr-ificio.html

e tmb: http://elaquecaminhasobreomar.blogspot.com/2011/04/adendo-resacralizando-o-sacrificio.html

Elaine Figueira disse...

Olá, sou pagã e adoro filmes sobre bruxas. Este que você mencionou em especial. Faço oferendas de flores, frutas, pedras, em agradecimento, em comunhão com o meio ambiente e a deidade. Penso que neste instante, estamos nos unindo, nos comunicando: eu, a deidade e a oferenda.