quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Veneficia: A arte de envenenar ou perfumar através das práticas feiticeiras.

Veneficium é um termo de origem grega que denota não só a fabricação de drogas e venenos, mas encamentos de toda e qualquer espécie¹, inclusive a fabricação de perfumes e o ato de perfumar em si, que há muito é associado às práticas mágicas². E quanto a isso, já dizia Paracelso que o que diferencia a cura do evenenamento é a dose e a quantidade. Ou seja, Vida e Morte como sempre andam de mãos dadas. 

Há milênios a bruxa é retratada na literatura como aquela que cura, mas que também amaldiçoa. É conhecida como a vilã da jornada do herói, mas que em última instância, é ela quem desencadeia suas descobertas através dos seus obstáculos e da imposição das suas provas. É a Circe de Homero que através do Veneficium transforma os parceiros de Ulisses em animais, mas que também devolve a vida humana aos mesmos. É a Medéia de Eurípedes que em troca do carneiro de ouro que entregou a Jasão recebeu o desprezo do mortal e então em punição, através dessas mesmas artes, envenenou seus filhos a fim de ver o pai em desespero. 

Ainda assim, será dessa mesma forma que as três bruxas sob os comandos de Hécate que apresentam ao Macbeth de Shakespeare o destino e as traições que o aguardam também agem através da arte dos envenenamentos, ainda que ninguém tenha morrido por isso, mas tão somente de loucura. O Mefistófeles que dá ao Fausto de Goethe a beleza da juventude e o conhecimento das coisas sobrehumanas també agiu pelas mesmas artes. Não poderíamos cogitar que, não fosse o envenenamento da maçã pela madrasta da Branca de Neve talvez nunca tivesse sido acordada por príncipe algum?
O que eu pretendo lembrar com esses exemplos é o Poder que os detentores das artes sábias tem de transformar a realidade mundana que os cerca. Perfumar a realidade de alguém que pede esse auxílio, não é tão diferente assim de amaldiçoar quem mereceu certa punição. Caberá, então, à mulher e ao homem detentores desses conhecimentos Misteriosos (e não necessariamente secretos) aplicá-los de acordo com sua Vontade e Sabedoria. 

Imagem: Circe Invidiosa (Waterhouse, 1892).

________________ 
¹ GRAF, Flitz. La magie dans l’ Antiquité greco-romaine. Ideologie et Pratique. Paris: Les
Belles Lettres, 1994.
² FINNÉ, Jacques. Erotismo e feitiçaria: O amor bruxo através dos tempos. São Paulo: Edições MM, 1973.  

3 comentários:

Arlen Quadros disse...

Fantástico.

Nath Hera disse...

Simplesmente fantastico! Nunca encontrei alguem que explica-se tao vem e de maneira simples uma arte tao milenar!
Beijos e parabens =)

Draku-Qayin vel Sabatraxas disse...

Perfect!

A Bruxa sempre foi e será a 'Venefica' por natureza. Vale lembrar que um dos epítetos da Bruxa é "Consoladora" (Solanacea)... o mesmo das ervas 'solanacea' entre as quais figuram o tabaco, a brugmansia, a beladona, a brunfelsia, a datura, muitas plantas venenosas do gênero 'solanun' e a favorita mandrágora...

;-)
FFF