terça-feira, 29 de novembro de 2011

A ilusão do post-mortem: Crer ou não crer? Eis a questão.

Só em uma noite recebi uma notícia de falecimento e outra de gravidez. Fiquei muito triste com a primeira, chorei um pouco, acendi um incenso, algumas velas e rezei para que os deuses pudessem acompanhar meu amigo a um lugar melhor. Já a segunda notícia me trouxe certa felicidade acompanhada de algeria e isso me deixou melhor. 

Há muito já deixei de cultuar verdades absolutas, e por isso não descarto possibilidades. O mundo post-mortem, por exemplo, é algo que sempre ocupou meus pensamentos e continua a fazê-lo ainda hoje. Não descarto a hipótese de que todas as crenças envoltas dessa fé sejam tão somente construções humanas a fim de trazer um pouco de paz, conforto e satisfação entre os sentimentos perturbadores de perda e tristeza. Definitivamente, não descarto a possibilidade de que, como construções, nada disso exista: Deus, deuses, Paraíso, inferno ou reencarnação. Como construções, possam ser ilusões. Um grande nada e um imenso esquecimento podem nos aguardar? Talvez. 

Apenas prefiro acreditar em coisas diferentes, sem desqualificar nada, apenas prestando atenção em aspectos diferentes de um mesmo cosmos. Prefiro acreditar em realidades paralelas, prefiro acreditar que o fato de que talvez não consigamos enxergar certas coisas não é argumento o suficiente para explicar que essas coisas não existam. "Ver" é algo relativo, eu posso ver coisas que outras pessoas não enxergam e vice-versa: Já cansei de procurar minhas chaves e ouvir alguém dizendo que elas estavam próximas a mim, até na minha mão, onde eu também poderia vê-las. Mas meu cérebro simplesmente não assimilou a informação das chaves em cima da mesa. O mesmo não pode acontecer em relação ao mundo espiritual, céu, Paraíso ou seja lá o que valha? Seres humanos são plurais e cultivam percepções diferentes sobre coisas diferentes em momentos também diferentes. Apesar de sentir, eu não vejo o ar. E independente disso ele existe.

Em suma, termino por aqui com Wordsworth que me fez amá-lo com as seguintes palavras:

"Quisera eu que um pagão eu fosse,
por velhas ilusões ter acalentado. 
A paisagem seria bem mais doce 
e o mundo menos desolado."

Assumidamente eu prefiro crer em ilusões, a partir do momento em que são essas ilusões que me trazem caos e criação nos momentos em que são necessários. 

Adash Van Teufel, que Mercúrio te acompanhe pelos melhores caminhos rumo ao renascimento entre aqueles que compartilhou teu amor. Yuri Pospichil e Gabriella Puiatti, que possam reconhecer o sagrado dom da vida que foi depositado a vocês.

Detalhe de Hypnos, o Sono, e seu meio-irmão Thanatos, a Morte (Waterhouse, 1874).


4 comentários:

Aline Gois disse...

Muito lindo o texto Odir. Concordo com vc, embora eu me decline mais aos efemerismos. No final, termina sendo tudo a mesma coisa... Uma necessidade de felicidade, mesmo que por instantes. Minhas crenças são simples e bem poucas. Aprendi até a numerá-las para facilitar meu entendimento, especialmente em situações de sofrimento. Não gosto da dor, mas sei do que ela me provoca. As vezes são necessárias, para que um outro lado tb possa se fazer presente. Nas minhas poucas certezas, acredito no tempo das coisas e das pessoas. Isso é invariável, embora sua variação seja para cada ângulo que se olha, ou de quem os olha. Abraço.

Renato Barros disse...

Me pego tantas vezes me questionando se realmente existe qualquer das coisas que eu acredite ou é tudo da minha mente...Mas aí sempre tento focar no seguinte...ainda que seja criação da mente...toda nossa existencia não é apenas um pensamento?

Rond disse...

Ótimo texto. Às vezes me pego pensando nessa questão do post-mortem, mas minha pequena bagagem budista me diz que, apesar de tudo o quanto me incline a esses pensamentos, eu preciso é não sentir necessidade de pensar num futuro, preciso não precisar me confortar de coisa alguma. Mas é uma luta constante com isso.

Belo blog.

Leo Carioca disse...

Eu não teria medo de deixar de existir depois da morte se fosse esse o caso. Não acredito que vai ser assim. Mas, se fosse, eu também não teria medo.
Na minha percepção de morte (que eu, obviamente, não posso impor a ninguém), entendo que o meu espírito será recolhido por Iansã, que, sob a orientação de Oxalá, me dará o destino que a mim compete.
Mas, como eu disse, não posso (e mesmo que pudesse, não ia querer) impor aos outros aquilo em que eu acredito. Se eu gostasse de tentar impor ´´verdades absolutas`` aos outros, provavelmente eu seria evangélico, e não pagão, né?rs
Mas entendo bem o que você quer dizer. E vejo que as 2 notícias que você recebeu abalaram você, ainda que de formas diferentes. Estou certo de que o seu amigo, de alguma forma, encontrou a divindade que ele esperava encontrar.
Bom, muita força e energias positivas pra você.