terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sobre o Halloween, festa norteamericana num país que nunca teve bruxas.

A primeira e mais difundida é a crítica frente a uma festa que além de ser estrangeira, seria norteamericana, e o fato de celebrarmos o dia das bruxas no Brasil nada mais é do que abrir os braços a um imperialismo que além de econômico também é cultural. Bom, honestamente acredito que o tempo de exaltar um pseudonacionalismo já se passou, pois do contrário, ninguém mais iria aos cinemas onde quase que totalmente das estreias dos filmes de massa são produzidos nos Estados Unidos. E o mesmo se aplica ao futebol, a cerveja e ao carnaval, que de “Brasil” pouco tem. Além disso, a comemoração do Halloween não é genuinamente americana, mas importada através da imigração dos irlandeses cuja festividade de Samhain de traços importantes dos povos celtas fundamentam esse tipo de comemoração. Só aí dois argumentos caem por terra.

Outra pergunta que continua nessa corrente é a clássica: “E o que o Brasil tem haver com bruxas?” Bom, e existiria um país que não teve – e ainda tem – bruxas em sua história? Existiram o que chamamos de degredados, ou seja, uma marginalidade européia que era deportada para o Brasil na época colonial, como um tipo de punição pelos crimes cometidos. Dentre essas pessoas, incluíam-se homens e mulheres acusados de bruxaria, heresia e também ciganos. Suas culturas misturaram-se com o conhecimento das benzedeiras, ou parteiras, ainda hoje existentes no meio rural principalmente no norte do Brasil. Em nosso país não houveram fogueiras ou forcas em massa – o que corrobora para essa ideia de que “não tivemos bruxas” – mas freqüentes visitações do Santo Ofício aconteciam nessa época, implicando nas devidas punições frente aos “desvios” encontrados.

O melhor de todos os argumentos é que o Halloween é uma festa de origens pagãs, e nenhuma relação tem com os bons hábitos cristãos. Bom, mas quanto a isso eu não vou me estender. Apenas pergunto a essas pessoas onde está a origem pura e cristã de um Natal celebrado na época de um solstício que prega o renascimento da Luz, dentre tantas outras coisas, ou de uma Páscoa comemorada nas proximidades de um equinócio e cujo símbolo principal é um coelho da fertilidade.

Mas o mais interessante, a ao meu ver, melhor fundamentando: “O Halloween é uma deturpação de festas genuinamente pagãs, pessoas sérias que utilizam-se da bruxaria como uma verdadeira jornada espiritual não deveriam banalizá-la dessa forma.” Bom, eu também já acreditei nisso, mas acredito que as coisas não são bem assim. A cultura é algo vivo e constante, sempre em transformação. 

Cultura essa, que implica em mentalidades e visões de mundo que também a todo o tempo se transformam. Creio que o verdadeiro bruxo sabe oscilar entre os mundos sagrado e profano e deve saber separar bem uma coisa da outra.

Minha conclusão é a de que os seres humanos devem ser mais flexíveis e viver a vida com mais maleabilidade. E bem sei que é difícil e um esforço constante, pois eu me incluo nisso. 

Bom Halloween! 

Imagem: Detalhe de Círculo Mágico (Waterhouse, 1886).

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BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Festim dos Bruxos. São Paulo: Ícone, 1987.
SOUZA, Laura de Mello. O Diabo na Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial.São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
___________. Inferno Atlântico: Demonologia e colonização, séculos XVI-XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
THERKOVSKY, Alda Andreia. O Memorial da Bruxa: Uma história de magia e erotismo no Brasil colonial. São Paulo: Rosa dos Tempos, 1997.

8 comentários:

Katharina Dupont disse...

rs o engraçado é que hoje eu justamente assisti um jornalistas falando mal do Hallowen " essas festa americanizada" e eu ri alto! simporque nessas horas só rindo mesmo desses pseudointelectuais afff

Tato Cunha disse...

muito bom o texto Odir Fontoura. Li e vou reler, bom pra refletir. Muitas vezes nos perdemos em alimentar rótulos perdendo a essência das coisas, da Vida que é muito além do que o ato de julgar. Obrigado por compartilhar !

Gwyddyon disse...

VOCÊ sendo mais flexível? foi substituido por um ET mon amour? ^^

no mais eu concordo com vc. E o mais interessante em quem fala em banalizar o paganismo por causa do halloween é que tem gente que REALMENTE comemora o halloween no solstício de PRIMAVERA. mas né? quem sou eu pra falar alguma coisa =P

Nion disse...

Parabéns pelo post, incrível, nem tenho muito que comentar; sua objetividade, sem deixar que sentimentos e subjetividades tolhesse seus olhar critico para o tema é louvável.

Também já fui daqueles que se horrorizava com a ideia de halloween como uma festa pagã corrompida e etc... bem hoje também estou mais flexível.

Quanto as bruxas no Brasil, a novela “Xica da Silva”, exibida pela Manchete e reexibida pelo SBT mostrou como nenhuma outra a feitiçaria e a bruxaria, tanto europeia quanto africana, no Brasil colônia e considero-a como uma referencia fidedigna.

AugustoCrowley disse...

Reza a lenda que numa praia aqui em Floriaópolis, Abraao, houve uma reunião de bruxas que deixaram o chifrudo de fora.E ele revoltado por não ter sido convidado, transformou-as em pedras.Tem um mural falando sobre na praia, que é muito linda. Aqui existem muitas histórias contadas por pescadores.Grande Abraço!

Vinícius Morais disse...

Eu escrevi um post mais ou menos sobre isso no meu blog, onde fiz uma correlação entre o Halloween e o Reisado mostrando que ambos podem ter a mesma origem. Se puder dá uma olhada lá:
http://www.alcapuccino.blogspot.com

Eross Wertt disse...

e quanto à Bruxa de Évora, que veio junto com as caravelas, ninguém lembrou dela?

Andanhos disse...

Boa reflexão!
Algumas pessoas preferem comemorar o dia do Saci. Parece-me valioso comemorar o folclore brasileiro, mas sem a necessidade de substituir um festejo por outro.
Em espanhol, diz-se "yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay".
Um abraço.