quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sobre os ídolos de pés de barro.

Ainda que os deuses nunca tenham sido humanos, a religião o é. Logo, uma vez que o ser humano é falho, corruptível e muitas vezes suscetível ao que chamamos de Hýbris não é com dificuldades que encontraremos ao longo da história verdadeiras tiranias religiosas, que vão além de um âmbito de moralidade e valores particulares e individuais, mas tornam-se, então, violências e brutalidades legitimadas e institucionalizadas no coletivo.

Não quero dizer aqui que é esse o único papel da religião. Pelo contrário, acredito que a instrução religiosa pode levar um devoto à inspirações e revelações verdadeiramente divinas e sagradas, mas que muitas vezes esse caminho que é naturalmente sagrado pode tornar-se também profano. Para não nos estendermos, basta recorrer ao exemplo mais recente e conhecido da nossa cultura ocidental: a Igreja Católica, que detentora de um rico conhecimento milenar que é intelectual, artístico e espiritual, mas que banalizado pela ignorância por muito tempo, e por muitos dos seus sacerdotes, repercutem até os dias atuais, em verdadeiras catástrofes físicas e mentais. 

Particularmente, ao longo desses últimos anos presenciei de forma muito próxima e atenciosa o atual movimento neopagão. Movimento, esse, que procura romper com os erros de instituições do passado ao mesmo tempo que resgata aquilo que acha valioso e que carece nos tempos de hoje. Porém, por ironia dos deuses e dos demônios, acabam perpetuando os mesmos pecados. Dentre eles, a idealização dos seus sacerdotes e das suas referências religiosas. 

A religião é humana, os deuses não. Logo, a religião pode falhar - e até os deuses, de certa forma, também podem. Mas de pés de barro - ao menos no sentido pejorativo da palavra -, não conheço nenhuma divindade que os traga. Já, homens, eu conheço muitos deles que os portam: sacerdotes ou não. De muitas religiões.

Fica, então, dois desejos favoráveis: atenção e cuidado. 

Imagem: Detalhe de Adoração ao Bezerro de Ouro (Nicolas Poussin).


7 comentários:

Diego ~ Ewan Thot disse...

Muito válido. Diferentes religiões, descaminhos iguais.

Pedro Henrique disse...

Concordo com sua linha de pesamento. Novos movimentos tendem a repetir a mesma natureza de ações passadas. Natureza essa que ficou bem clara com o decorrer de suas palavras. Dois pontos me chamaram ainda mais a atenção, o desejo deve ser sinalizado a todo instante, como você mesmo diz atenção e cuidado.

Emanuel disse...

As rasteiras da vida pouco se importam com os pés de carne. Que dirá com os de barro, de deuses e homens!
Caem, sem dó nem piedade.

Qelimath disse...

O problema todo tem se resumido à tal da "aceitação" da sociedade, onde muitos neopagãos acabam aderindo à mesma medida usada contra os pagãos anteriormente. O pessoal ainda pensa que o jeito é mostrar que é "igual", ao invés de aceitar primeiramente o "diferente". Se não aceitam o "diferente" dentre eles, como poderão ensinar os outros?
Como sempre digo, não é questão de se erguer mil bandeiras, mas uma só, RESPEITO. E, na boa, está mais que na hora de parar de se definir pelo rótulo...

Eross Wertt disse...

vc tem td razão, tenho visto muitos grupos praticarem cyberbulling tentando desacreditar outras tradições e pontos de vista, deletando posts, compartilhamentos, etc, uma vdd censura de idéias. Outros tem grupos moderados, em que td tem que passar pelo crivo do moderador antes de ser publicado, exatamente como os artistas que tinham mostrar suas peças aos militares na época da ditadura, pra ver se os censores iam ou não aprovar. O problema é que alguns puxam a farinha pro próprio saco, e não se preocupam em denegrir os demais, parece que querem mais adeptos, e não enxergam que nosso caminho não é pras massas, mas pra poucos.

Leo Carioca disse...

É uma coisa que eu faço questão de lembrar no meu blog quando surge esse assunto: babalorixás e ialorixás (ou seja, sacerdotes e sacerdotisas do Candomblé) não podem ser vistos nem tratados como pessoas de autoridade infalível e inquestionável a quem se deve dar razão sempre.
Ao longo de 2000, os católicos já erraram MUITO por verem o papa deles dessa forma e por tratarem os padres e outros tipos de sacerdotes deles como extensões do papa (e consequentemente, como pessoas que não podem ser desobedecidas).
Eu, como praticante do Candomblé, me vejo no dever de alertar outros praticantes e/ou simpatizantes dessa religião de que nós não podemos tratar com excesso de importância a opinião de homens e mulheres que são iguais a nós, que erram como nós, que têm defeitos como nós... Você pode ouvir o que eles têm a dizer assim como ouviria qualquer outra pessoa. Mas não seguir cegamente o que eles dizem.
A opinião dos deuses e deusas é que tem que ser levada em conta. Não a opinião dos sacerdotes e sacerdotisas.

Alana Alencar Goodwitch disse...

Muito bom o seu texto Odir Fontoura. Seguidores assim são muitos. Poucos são aqueles que admitem seus erros. Não aceitam uma 2 opinião. Todos podem falhar. É preciso acima de tudo atenção, cuidado e RESPEITO.