quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Alguns argumentos sobre quem menospreza a Bruxaria.

Detalhe de Hécate (Maximilian Pirner, 1901).
Na Antiguidade, Hécate era a patrona das
bruxas e da feitiçaria. Ao mesmo tempo em
que era deusa da noite, das trevas e do
submundo.
Que atire a primeira pedra, quem de nós, ao falar um pouco sobre as nossas crenças a respeito da Bruxaria - ou sequer sem falarmos nela, quando vieram até nós através de comentários e falações - nunca ouviu termos como "coisa do Diabo", "brincadeira de quem não tem o que fazer", "coisa de gente ignorante" e até o mais famoso: "macumba". 

Isso geralmente gera um sentimento de perseguição e vitimização: é a "Inquisição", as "fogueiras da ignorância", "perseguição medieval" e coisas do gênero. Eu particularmente tenho minhas reticências sobre esse sentimento, principalmente pelo fato de que, até onde sei, praticamente todas as sociedades ao longo da nossa civilização, sempre iremos encontrar vestígios ou arqueológicos ou mitológicos de crenças e práticas relacionadas a cultos feiticeiros. E em todas essas presenças, as práticas "bruxas" sempre foram relacionadas a algo proibido, marginal, periférico, oculto e noturno. Sempre paralelas ao culto oficial durante o dia, existiu a bruxaria durante a noite. Logo, esse "bullying" não é recente, mas algo natural. 

Também sou contra a essa campanha recente de "legalize a bruxaria já!". As práticas feiticeiras, como disse, sempre foram marginais e nunca serão pra maioria, pelo simples fato de que ela não serve para a maioria. E não funciona para a maioria. Diferente do paganismo: Que, por ser estar mais próximo a uma "religião" ou "espiritualidade" que a bruxaria em si, esse sim é algo para todos. Aliás, arrisco a dizer que se o mundo hoje precisa de uma espiritualidade renovada é essa a do paganismo com suas concepções de respeito à terra, respeito à vida e a diversidade etc. Mas com a Bruxaria não é assim. 

Diabo batizando um homem bruxo (Compendium
Maleficarum
, 1601). Hoje historiadores percebem
que os 
acusados de bruxaria na Idade Média
que oravam ao Diabo, não faziam por maldade:
para o homem medieval, 
o Diabo era um figura divina
tal como 
Deus. Se Deus não atendia, pediam ao
Diabo, que não representava necessariamente
uma figura do Mal.
Mas voltando à questão do "bullying" bruxo: Com o tempo a gente tem que aprender a simplesmente ignorar. As pessoas que falam que isso é "macumba" e menosprezam como se fossem práticas ignorantes são as MESMAS - e eu me atrevo a escrever isso em letras maiúsculas - que brilham os olhos ao saber que você joga cartas ou que sabe ler as runas. São as mesmas que ficam fascinadas e perguntam "e isso realmente funciona?" quando ouvem falar em feitiços de amor. São as mesmas que recorrem à bruxa quando seu padre ou pastor não lhe dá as devidas respostas e deixa suas perguntas em branco. São as mesmas que às vezes ficam atentas para não deixar o chinelo desvirado, não se importam em deixar uma vassoura atrás da porta, umas moedinhas para o "buda" da sorte e tomar um chá "qualquer" quando estão nervosas. Sim, são as mesmas pessoas. 

Portanto, meus caros, quando ouvirem alguém mencionando as práticas mágicas e feiticeiras de modo grosseiro, inadequado, inculto ou vulgar, lembrem-se disso: Quem menospreza durante o dia, clama pelo auxílio durante a noite. É só esperar pra conferir. 

8 comentários:

Katharina Dupont disse...

é uma realidade que somente aqueles que têm espíritos fortes encaram.. é a prova da sua fé na bruxaria e no paganismo.. quantos suportam isso?? Como disse no texto " Bruxaria não é para todos" PERFEITO!

Jair de Santana disse...

Olá, meu irmão..
Adorei seu texto, com simplicidade e maestria você nos leva a reflexão, e, com certeza absoluta e digo isso porque vivo constantemente, quem menospreza dia, busca auxilio a noite e você também consegue dá um sentido real ao paganismo de forma clara e concisa...
Muito bom!!!

brunodiniz disse...

Isso é verdade. Quando comecei a demonstrar interesse na época escolar, ouvia muito isso das pessoas da minha sala só por comentar no assunto ou ler um livro sobre. Com o tempo você vai aprendo a ignorar esse tipo de comentário. Ótimo texto.

Ana Lus disse...

Para se ser chamado BRUXA(o) a pessoa dedicou anos de estudo e pasciência devoltados a livros e mais livros.São pessoa que não saem colando cartazes nas ruas, muito pelo contrario. O conhecimento leva a introspecção.

V----V disse...

Impecável!

Asterion disse...

Sonho com o dia em que finalmente consiguirão separar o paganismo como culto religioso de uma forma pagã de bruxaria...
Sim meu caro, os mesmo que apontam o dedo são os mesmos que no fundo de suas almas anseiam pelo vislumbre de apenas uma fagulha deste poder mal compreendido e desta sabedoria velada pertencente as bruxas.
Ótima reflexão.

Rimini Raskin disse...

Muito bom e muito verdadeiro o texto. Tenho uma avó curandeira, neta de índios e assim como eles domina e crê na cura por meio de ervas e rituais. O que acontece, é que minha avó há muitos anos se converteu ao cristianismo e deixou de fazer suas curas à luz do dia como antes. Ela tem medo que denunciem ela na igreja, pois o pastor falou que é "coisa do diabo". Me indigno horrores com isso, ela tem um Conhecimento/dom para a cura, algo poderoso e bonito. E um pastor, ignorante, faz com que essa mulher forte se sinta suja por fazer o bem? Mas infelizmente temos que conviver com isso. Não tenho religião, tão pouco sou adepto á doutrinas, mas respeito a individualidade e principalmente a bondade, isso deveria ser o mínimo em um ser humano.

Heloísa disse...

Eu sempre tive interesse..nunca me encaixei no Cristianismo, nao me sinto bem.
Mas creio que a falta de divulgação de convens nao me deixou ir muito a frente nisso.
gostaria de saber mais, mas quero algo serio, tem muita coisa na internet que é lixo e nao serve para guiar ninguem.
adorei o site!!