terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sobre os projetos de ano novo, Janus, Janeiro e São Pedro.

Detalhe de Pedro recebendo de Cristo
as chaves do reino dos Céus
(Pietro Perugino, 1481-82)
O momento em que passamos atualmente é um período de transição por excelência. Todos estão motivados, superficialmente ou não, de desejos de mudanças e renovações. Promessas de ano novo, lembranças do ano que se passou e projetos que precisam ser aprimorados, coisas que precisam ser definitivamente abandonadas e algumas ideias que precisam urgentemente serem colocadas em prática. Porém, na nossa mentalidade moderna e ocidental temos dificuldade em saber lidar com esse momento. Vemos o mundo e o tempo como uma linha cronológica, linear e ascendente. Passado é o que se foi e o futuro é algo que não chegou, estaríamos então no meio desses dois momentos. 

Ilustração medieval de Janus,
provavelmente ligado à arte
da Alquimia
Logo, não é com dificuldade que boa parte dos planos que organizamos para o novo ano não são colocados em prática, e em questão de poucas semanas, todos os desejos que aspiramos para o ano novo são esquecidos e tudo volta a ser como antes. Eu sugiro que possamos observar as coisas de uma posição diferente: O Tempo não como uma linha reta, mas como um círculo, onde o passado, presente e futuro se cruzam a todo o momento. Sentimentos do passado retornarão no futuro, coisas que aspiramos agor a um dia permanecerão somente no passado e coisas que esperamos para os dias vindouros, é provável que já tenhamos alcançado e nem nos demos conta. 

Pra mim, ver o Tempo como algo que tem um começo, um meio e um fim predeterminados não faz sentido algum. Janus é o deus romano que dá origem ao nome do mês de Janeiro. Janus por excelência representa não só a dualidade, mas os opostos de todas as coisas. Seu nome pode ter relação com janua, palavra latina que significa porta. Torna-se então a divindade protetora dos limites, das fronteiras, dos limes. Janus era o senhor que guardava, com suas duas chaves, o reino do Capitólio, morada divina dos deuses. É quem tem a habilidade de olhar para o passado e para o futuro. Mas por ser uma única divindade, mostra que passado, presente e futuro se encontram como o fogo da transformação, ou como o fogo do caduceu de Hermes/Mercúrio. 

Moeda de Janus e suas
duas faces.
No cristianismo, conhecemos São Pedro que guarda o reino dos céus e traz consigo duas chaves cruzadas que simbolizam o reino dos homens e de Deus. São Pedro também representa a dualidade de todas as coisas. Na cultura popular, por ser o senhor do céu, também é o responsável pelas chuvas e pelo mau tempo: chuvas que podem abençoar ou destruir colheitas. Alguma semelhança com Janus? 

Por fim, minha sugestão acompanhada dos melhores desejos de 2012 é essa. Que não tentamos romper com hábitos do passado e organizar novos desejos, totalmente diferentes e opostos para o ano que começa. Que possamos receber as bênçãos de Janus, que aprendeu que passado e futuro são uma coisa só, e não coisas distintas. A tentativa de construir um muro separando o ontem do amanhã é simplesmente fadada ao fracasso. É o momento agradável para fazer transformações e modificações, não rompimentos.

2 comentários:

Robson Madredeus disse...

Nosso ego tem medo do desenvolvimento que a percepção do presente pode nos causar por isso prende-se quase que constantemente ao futuro e ao passado... É agora que estamos vivos, o amanhã não existe, o ontem já deixou de existir, é agora que precisamos viver.

AugustoCrowley disse...

Excelente notificação! Podemos transformar, evoluir, mas nao romper ou separar! Feliz 2012!