segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Quando Apolo recebe muitas orações, Dionísio fica com ciúmes.

Detalhe de Apolo e as Musas (Simon Vouet).
Apolo, como Senhor da beleza
e da perfeição, é patrono das artes.
Acho muito interessante aquele tipo de discurso clássico quando falam que "tal pessoa tem duas caras" ou "só mostra o que quer que vejam" ou até "é uma coisa no trabalho, mas é outra coisa com os amigos". Quero que, um dia, me apresentem alguém que não cultive essas qualidades. Pois, até onde sei, todos nós, mortais, somos dotados de personas (de personare, "soar através de" ou pershu, relacionado ao papel teatral). Todos nós somos dotados de uma natureza apolínea e dionisíaca, o problema é que nem todos sabem lidar com essas diferentes faces de uma mesma moeda. 

Na jornada feiticeira aprendemos que conceitos de "bom" e "mal" não podem existir, e isso torna as coisas muito difíceis de certa forma, afinal, todo o ser humano precisa de normas, regras, limites e uma linha de parâmetros para seguir. O que acontece é que quando aprendemos, através da resignação e do sacrifício, sobre nossas naturezas apolíneas e dionisíacas, esse tipo de conflito deixa de ser tão nebuloso. 
Detalhe de Baco (Peter Paul Rubens).
Aqui, Dionísio, ou Baco, é otimamen-
te representado em sua face de exces-
sos e vícios. Quem não vê beleza
nessa imagem, ainda não compre-
endeu a natureza dionisíaca.

Apolo é o deus do sol, da música, da poesia e da beleza. O filósofo Nietzsche e o médico neurologista Freud compartilharam o conceito de que essa alegoria representaria tudo aquilo que é belo e louvável. É a natureza "externa" do ser humano, é o caráter civilizador do homem, é a pedra fundamental dos princípios e dos bons costumes. É o Belo e o Justo. Já Dionísio é por si só o deus do êxtase. É aquele que foi morto três vezes e rege o reino da bebida, do êxtase, do caos. É o senhor das bacanálias, é o impulso fundamental, é a selvageria, é o aspecto criativo da nossa mente, é o espírito desenfreado e livre. É a dissolução e a desconstrução. 

O Louco, no tarot
de Mareselha. A
natureza de Dionísio,
a loucura e a ausência
de valores é melhor
representada nessa
carta do jogo.
E como isso se dá exatamente? Bom, é a negação dos nossos aspectos selvagens "sombra" e "destruição" que dá origem às falas belezas, das quais o mundo profano está há muito acostumado. É a superficialidade e a levianidade que faz com que todos corram, em ritmo desenfreado à beleza superficial das coisas. A bruxa e o feiticeiro conhecem essas jornadas, e bem sabem que disso nada pode prosperar. Quando o ser humano não nega sua natureza sombria, mas ao invés disso, aprende a trabalhar com ela, surge então, o verdadeiro princípio do cosmos e de um universo organizado e coerente. Logo, a bruxa e a feiticeira que trabalham a noite com a ajuda dos seus espíritos protetores, e sob uma noite, que muitas vezes não tem lua, amaldiçoa aquilo que deve ser amaldiçoado pode ser o mesmo mago durante o dia que, sábio, dá conselhos e abençoa com a melhor das intenções. Todos sabemos que ninguém pode abençoar se também não sabe amaldiçoar. 

Caso contrário, quando Apolo é requisitado demais em nossas orações, Dionísio fica enraivado. E o mesmo pode acontecer de forma contrária. Mas é claro, sobre isso, todos já imaginam as consequências. 

6 comentários:

Emanuel disse...

Como você disse, em algum lugar no Fb... Os mitos quanto à feitiçaria, de ser cor-de-rosa ou de ser do capeta, tem que cair por terra. Os Deuses respondem àqueles que os chamam. Todos Eles. Então, louvar um lado a mais que o outro é ficar capenga, dentro e fora. Mas ainda existem resquícios maniqueístas na Arte, que, espero, não durem muito tempo.
Excelente texto, só para variar um pouquinho :)

Racquell Narducci disse...

maravilhoso para o grupo de Vitoria que vai participar de nosso encontro sobre autoconhecimento, obrigada por postar Odir Fontoura! bjs

Emmanoel Rodrigues disse...

Gosto do modo livre,leve e solto com que escreve os textos e artigos sobre paganismo e assuntos afins...Adorei um em especial que tratava da legalização da bruxaria,particularmente sou contra,pois é sabido que a bruxaria como religião sempre prezou pela qualiddae e não pela quantidade,enfim,Parabéns pelo trabalho.

carla disse...

Olá tudo bem? Já faz anos que não andava por aqui,mas agora renovei o meu blog e gostava de te ver por cá ,bjo e bom carnaval

carla granja

Anônimo disse...

Um mistério que me intriga é o infortúnio de Apolo que era um deus lindo e radiante, mas foi rejeitado por todas as mulheres, e Jacinto, com quem viveria uma paixão, foi assassinado pelo ciúme de Zéfiro. Alguém conhece um mito que esclareça isso? Homero, Hesíodo ou Higino deixaram registros à respeito?

Anônimo disse...

Gostei do texto...simplesmente é fantastico