sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre as sereias nos dias de hoje. Quem são elas?

Ulisses sendo tentado pelas sereias
(Bardo National Museum). Muitas
vezes as sereias também são retratadas
como mulheres-aves, e não somente
como mulheres-peixe. 
Homero falou há muito da trajetória de Ulisses quando tentava voltar para Ítaca depois da queda de Tróia. Um dos momentos que gosto muito é quando Ulisses se encontra com as sereias entre a costa italiana e os rochedos do alto mar. Lá, ele e seus companheiros se encontram com esses seres de beleza encantadora cujo canto fascina a todos que escutam-nas. Seduzido pela canção em uníssono das sereias, o homem se atira ao mar e não outra coisa senão a morte. 

Ulisses, ajudado pela feiticeira Circe, cobre com cera os ouvidos dos seus companheiros, e quanto a si mesmo, pede que seja amarrado e que não o ouçam caso implore que o libertem enquanto passam pelas sereias que não deixam de tentar seduzi-los. Ulisses, então, consegue ouvir o canto dessas mulheres mas sem receber o drástico destino que os outros homens até então passaram por elas. Cumprem a missão, os ajudantes de Ulisses retiram as ceras dos ouvidos e então desamarram-no. 

Ulisses e as sereias,
de Eric Armusik, artis-
ta realista contempo-
râneo.
Minha leitura particular pode ser que as sereias podem ser metáforas para a sedução temporária e superficial - e ainda que fascinantes - não levam a lugar algum. Hoje em dia elas podem estar na poluição intelectual da qual sofremos um constante bombardeio a todo o tempo. Nossas sereias do mundo de hoje sempre cantam quando chegamos cansados em casa e ligamos a televisão. Cantam quando é a primeira noite de lua cheia, mas esquecemo-nos de comprar incensos e usamos isso como desculpa para não celebrar um ritual necessário. Elas nos seduzem quando compramos um livro e deixamo-no ser coberto de poeira na estante. Elas já não estão só nos rochedos do mar, mas também nos amigos que moram longe e não vamos visitar por falta de tempo e até no fim de semana que poderia ser melhor aproveitado ao ar livre, mas que morre quando prolongamos uma manhã e uma tarde inteira de sono. 

O Diabo, no tarot
de Marselha. Nesse
baralho, o Diabo
é o arcano que melhor
representa a face
das sereias: é vício e
a sedução.
As sereias existem, assim como a feiticeira e o herói. E o mais interessante é que os três podem conviver dentro de nós mesmos. Enquanto que as encantadoras sereias com seu canto mágico habitam nossa preguiça e o ócio, a Circe que indicou o caminho da salvação para Ulisses também é encarnada, em nós próprios, por aquela pontinha de consciência que nos lembra dos deveres e dos compromissos.

Alguém pode se perguntar: e porque Ulisses não fez o mesmo que seus companheiros? Porque não tapou os ouvidos com a cera e seguiu o caminho, surdo? Bom, acredito que não tenha feito isso justamente pelo fato de querer ouvir a maravilhosa canção das sereias, mas sem pagar o preço necessário. A música é transformadora, é magica, é iniciática. É a primeira missão que Ulisses deve cumprir até voltar para sua casa em Ítaca: Ulisses somos nós próprios, que não deixamos de dormir um pouco mais, de ver televisão ou de deixar um livro descansado na estante por um ou dois dias. Sem deixar que isso vire um vício, uma sedução, uma Morte. 

Lembremo-nos então: que nos arrisquemos a ouvir o canto das sereias somente se soubermos como escapar dele sem qualquer dano, somente com a experiência do prazer e da felicidade. É difícil, mas não impossível. 

5 comentários:

Robson Madredeus Carvalho disse...

Mais uma vez um belo texto, gosto da sua maneira de escrever para instruir e não somente para mostrar que sabe...

Cornelia Metela disse...

Dicen que las sirenas eran unas mujeres comunes y corrientes de una tribu de Sicilia. Sus maridos las desterraron por ser muy desenfrenadas y por entregarse a todos los navegantes que pasaban por allí. Desde entonces, ellas decidieron vengar a todo el género masculino y, valiéndose de sus maravillosas voces, atarían a los navegantes a una trampa mortal. Los cuerpos de aves y otros atributos fantásticos no son más que la fantasía de Homero...

Fernanda Costa disse...

Gostei do texto. E talvez Ulisses não o tenha feito (opinião minha) porque cada um deve saber aquilo que lhe é melhor. Se ele tapasse os ouvidos de outrem, ainda ia ter gente zangada com ele...rs. Sabe aquela história de fazer o regime pro outro emagrecer? É meio por aí. Bom dia pra ti! :)

Emanuel disse...

Eu pensei no seguinte... Lendo o texto e vendo o rumo que você deu para os fatos, percebi algumas sereias que teimam em ficar comigo, cantarolando CRAS... CRAS... CRAS... ("musiquinha" oriunda da hagiografia de São Expedito, nem por isso menos contextualizada).
Mas Ulisses era o cara que queria ter o que ninguém mais teve. Por vezes, nossos quereres são as portas mais amplas para os abismos...

Edna Corsi disse...

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