quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Uma crítica ao ateísmo.

Nietzsche disse que Deus está morto, mas não acho que tenha acontecido o mesmo com a fé. Pois se o Deus da religião morreu, os homens sem dificuldades já colocaram outro "Deus" nesse mesmo altar, ainda que não percebessem. 

Isaac Newton (William Blake, 1795).
Newton aqui é um símbolo do racionalismo
e do pensamento científico. O personagem
está curvado e com o olhar fixo para o
papel, como se negasse tudo que acontece
ao seu redor. 
Quando Nietzsche disse isso, podia ter se referido à posição que Deus ocupava antes do advento da ciência. Deus ocupava uma posição central onde tudo girava ao seu redor e a religião era referência para uma composição da Verdade absoluta. Com o advento do racionalismo científico acompanhado do desprezo de tudo aquilo que não era “ciência” – ou o que entendiam por ciência –, Deus então perdeu o seu lugar. Mas o que poucos se dão conta é que essa mesma ciência “iluminada” que ocupa hoje um grau de importância absoluta na mente de alguns homens – muitos dos que se consideram ateus –, faz isso na mesma proporção que Deus ocupava na mente do homem medieval.

Há alguns dias encontrei essa imagem em uma das várias páginas do facebook sobre ateus e ateísmo:

Religião: Eu estou certo! Você está errado! La! La! La! Eu não ouço você!
Esse tipo de mentalidade é comum onde as pessoas costumam relacionar a palavra “Religião” às manifestações religiosas mais conhecidas no mundo ocidental: o pensamento judaico-muçulmano-cristão. Essas doutrinas são fortemente marcadas por um paternalismo religioso onde concepções como “Verdade absoluta”, “trazer a Palavra” e “arrebanhar para o reino de Deus” são defendidas. O deus dessa religião é um deus absoluto, todo-poderoso e onisciente. É muitas vezes referido com deus Sabaoth, ou Senhor dos Exércitos. Logo, a convivência desse tipo de religião com caminhos que pensam diferente do seu é um tanto quanto comprometedor. Logo, não é com dificuldade que esse deus verá nos deuses das outras religiões não divindades, mas sim demônios que querem atrapalhar sua obra: e isso é facilmente comprovado nos livros sagrados dessas três grandes religiões.

A Justiça, no tarot
Mitológico. Esse arcano
representa a racionalidade,
o modo de ver a vida "com
a cabeça" e não com o coração.
Isso levado ao excesso pode
levar a perdas de processos
muito importantes da nossa
vida emocional ou espiritual.

Mas o que os ateus geralmente esquecem é que nem todas as religiões são assim e o que não percebem é que são muitas vezes tão fanáticos quanto qualquer crente religioso. Mas para o religioso, é seu deus ocupa um lugar de referência, e para o homem racional é a ciência e suas concepções falhas de “progresso” ou “evolução” na qual tudo gira ao redor. Só muda o nome. O fanatismo é o mesmo. Resumir a palavra “religião” somente às doutrinas fanáticas que o mundo ocidental conheceu até hoje nada mais é do que um sintoma de ignorância. E de fanatismo, sem dúvida. Não gosto de usar termos do gênero “certo” ou “errado”. 

Não vou dizer que esse tipo de postura é errada. Mas arrisco em dizer que trata-se de uma atitude anacrônica e totalmente dispensável para o mundo rico, plural e diversificado que é o mundo de hoje. E logo, qualquer tipo de fanatismo é desnecessário onde é preciso saber conviver com o diferente. 

Afinal, bem sabemos onde nascem as guerras santas. Sejam elas em nome de Deus ou da ciência.


10 comentários:

Rond disse...

Engraçado que, paralelamente ao ateísmo, às vezes encontramos uma crença na imparcialidade da ciência que contradiz toda e qualquer observação de como a ciência é feita, os pilares que a sustentam e tudo mais.

A afirmação da negação só me faz sentido politicamente.

Qelimath disse...

Ateísmo: um "ísmo", ou seja, uma crença como qualquer uma outra, seja ela vazia de um deus ou não...kkk

brunodiniz disse...

Legal. Interessante que muitas pessoas levam o que Nietzsche diz ao pé da letra. Tenho esse mesmo pensamento que o seu a respeito dos escritos de Nietzsche.
O problema é que vários ateus se tornaram estremante fanático e consequentemente dogmaticos, e esse tipo de pensamento não é bom para ninguém.
Muito boa a reflexão!

Gwyddyon disse...

eu esperava mais desse post. Ainda assim considero ele acima da média, se eu for levar em consideração a postura de boa parte das pessoas. O problema que vc discorreu no post nao se retringe apenas aos ateus, mas a toda humanidade. Alguns pagãos conseguem ser tão fanáticos na defesa de sua crenca quanto qualquer evangélico ou ateu. Afinal, como bons humanos que são, vão apenas substituindo um deus por outro, não importa se ele é a ciência, o consumo ou então vários deuses.

Piter Monteiro disse...

Outra coisa um pouco estranha no ateísmo para mim, é que a grande maioria dos que se dizem ateus trabalham com a mesma "pregação" que a igreja. Os crentes querem salvar os ateus do inferno e os ateus querem salvar os crentes da "ignorância".

Hoje vejo muitos ateus que militam tão bravamente contra Deus, que se esforçam tanto em contradizer a bíblia, que querem tanto te provar que sua verdade é o único caminho que chego a crer que em verdade eles creem em um Deus e estão apenas revoltados, culpando este Deus, ou a instituição religiosa por algo que tenham feito ou se omitido em fazer.

Fábio Firmino disse...

O incrível é que quando você estuda ciência, ciência mesmo, percebe que ela nunca se pretendeu ser a dona da verdade, muito pelo contrário. A ciência busca o tempo inteiro se superar, com teorias caindo quando outras, mais adequadas, tomam o seu lugar. A metodologia científica talvez seja seu único dogma: o de que, se não for aplicado à realidade, não serve.

Leo Carioca disse...

Eu nunca tinha visto essa ´crítica` com a foto da mulher tapando os ouvidos. Mas tenho que reconhecer que, tratando-se de religiões judaico-cristãs, é só isso mesmo que se pode esperar de um judeu, cristão ou muçulmano que se descreva como ´´muito religioso``.

roberto quintas disse...

pois eu vejo o mesmo, simples substituições. a Ciência ocupa o mesmo papel dos Deuses. itens como "evidência" ou "fatos" ocupam o mesmo papel da "verdade revelada" dos textos sagrados. fala-se em "razão", "lógica", "raciocínio" como se não fossem conceitos abstratos, mas reais e tangíveis. a mesma esperança de completude e sentido que encontramos nos Deuses, os ateus encontram no boson de Higgs. a unica diferença é que os ateus nunca irão admitir que são "crentes".

Alan Rangel disse...

O ateu tem a crença na razão, na ciência racionalista para explicar o mundo real. Para ele, o que é real é aquilo que está no universo dos sentidos conhecidos, o que está além disso não vale a pena descobrir. A religião tem a crença em um Ser, Deus, que comanda todas as coisas, e resolve o destino de cada um, e da natureza, e nós seres mortais estamos apartados deste Ser, acreditamos nas tradições e nos milagres. Sendo assim, ambos são crentes, e ambos não tem verdades absolutas, só creditam uma suposta fé em algo que os confortam para bem viverem.

Cris disse...

Só vi esse post agora. Gostei muito (e eu sou uma que nunca parou pra pensar se essa ideia de religiões fanáticas e proselitistas era mesmo difundida pelo mundo inteiro ou se só é coisa das religiões ocidentais)
Mas...o texto também não está generalizando os ateus? Nem todos são assim! Já tive até a oportunidade de ouvir alguns dizerem que acham bonito a pessoa acreditar e alguma coisa, só não conseguem fazer o mesmo. Sim, porque crer ou não não é uma questão de escolha!