quinta-feira, 15 de março de 2012

O que pensar quando ouvir "Até mesmo porque eu sou bruxa... Você sabe!"

Detalhe de Dédalo e Ícaro (Jacob
Peter Gowy). Ícaro na mitologia
representa a presunção humana,
a hybris, que repercute no declínio
e na queda
Que atire a primeira pedra quem já ouviu essa "ameaça" de brincadeirinha.

Eu ouço o tempo todo e hoje ouvi mais uma vez essa pérola no meu local de trabalho. Em silêncio achei engraçado, depois critiquei e por fim questionei a mim mesmo: quem sou eu pra classificar quem é ou não é alguma coisa? Então, justamente por isso, resolvi escrever algumas palavras sobre o que ou quem eu penso NÃO ser uma Bruxa ou Bruxo.

Inicialmente, não acredito que uma bruxa de verdade assuma essa identidade em pleno local de trabalho pra pessoas desconhecidas: como sempre disse, a Bruxaria pra mim é um ofício e uma prática marginal, periférica, oculta e que dificilmente será aberta à discussão em plena luz do dia àqueles que não compreendam suas raízes ou que sequer têm a vontade de compreender alguma coisa. E por "ofício" entende-se por algo que dificilmente se separa da nossa vida cotidiana, ainda que não levemos junto, ao nosso dia-a-dia, junto às chaves, o celular e a carteira um saquinho com velas, cordas e incensos. A Bruxaria como ofício implica em vivenciar e lidar com a vida de uma forma espedcial a todo o instante. Não existem Bruxas de fim de semana.
O Eremita, no tarot de
Marselha. Esse Arcano
representa o isolamento e a
distanciamento que as vezes é
necessário para alcançar
o "verdadeiro" conhecimento.

Palpitar sobre a vida alheia e se vangloriar quando um desses palpites deu certo também não é papel da Bruxaria. Sugerir "magicamente" o que as pessoas estão pensando quando próximas, ou fazendo quando estão longe, seja por ciúmes, curiosidade ou falta do que fazer também não é. Assinar o horóscopo diário do facebook não faz uma Bruxa e ter um baralho guardado em casa que nunca é usado também não. Ter lido um livro esquisotérico na vida muito menos. Fazer simpatias na virada do ano pode te fazer um feiticeiro por alguns instantes, mas dificilmente mais do que isso. Nessa esfera, você pode ser um interessantíssimo esotérico, um brilhante místico, mas paramos por aqui.

Uma mulher que sabe costurar o botão de uma camisa faz dela uma costureira? Um homem que toma aspirina quando tem dor de cabeça faz dele um médico? Se eu sei que o roubo e o assassinato é punido pela lei, isso faz de um mim um advogado? Pois de modo que a resposta para essas perguntas eu sugiro que seja um pequeno NÃO, levianidades também não fazem Bruxas. Pois sim, assim como a tecelagem, a medicina ou o exercício do direito são ofícios, a Bruxaria também o é.

Sempre que ouvirmos essa frase sugetiva, pensemos sobre isso. Essa é a dica do dia.
_________________________ 

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9 comentários:

Katharina Dupont disse...

Oi Odir! excelente texto!sou totalmente a favor de se manter a Bruxaria em discrição total(alias já conversamos sobre isso heh) mas adoraria ver também um texto que, pode ate parecer meio redundante mas que seria o contraponto deste.
O que realmente nos qualifica como bruxos?
bom, fica a dica e beijoss

Anônimo disse...

Infelizmente algumas pessoas estão mais preocupadas com títulos e reconhecimento do que com o foco no seu oficio e prática. ótimo texto!

Asterion disse...

Bom dia, gostei muito da última parte do texto, parece aquelas reportagens sobre que abundam nos meios de massa perto do dia das bruxas ou em fim de ano em que esotéricos new age (nada contra apenas para constar - eu adoro música new age^^) acendem um vela e um incenso e já são rotulados por bruxos do bem (sic)! Eu cozinho vez ou outra, mas isso não faz de mim um cozinheiro porque minha alma não é de um cozinheiro. Bruxaria como ofício é questão de alma, de vocação, de Destino.

Jana disse...

Estou lendo um texto seu pela primeira vez e adorei...(escrita facinante)

Pythio disse...

Meo, tenho feito os mesmos questionamentos. Pessoas do meio espiritualista acham que tudo que vai de manipulação energética a sonhos proféticos as tornam bruxas... Bruxaria vai muito além!
E bom, posso dizer que discordo que a bruxaria é uma prática marginal? Sou militante da Causa e não que eu faça questão de sair falando por ae, mas não escondo no meu trabalho e nem de ninguem... Faço rituais abertos pois acredito que a filosofia que embasa a minha religião seja a resposta para muitos dos problemas atuais.. enfim, cada prática, uma prática =D

Pandumiel Tunmarë disse...

Pois é Odir, muitas vezes me pego com "bruxos" que ficam cantando vantagem, pois viram e são poderosos!

Muitas vezes, são novatos que logo deixam o caminho da Arte por não encontrarem o que realmente desejam: a ilusão dos filmes!

Não vejo a bruxaria como algo que deva ser oculto, porém, é tão natural que não precisa ser levado como sobrenatural e sair por aí espalhando que se é bruxo, pelo prazer de ser diferente.
Uma fantasia de carnaval fora da época destacaria muito mais! `^^´

Adorei o post!
Parabéns!

Tauan Queiroz disse...

Olá, Odir. Concordo em parte com o que vc disse. Não é interessante ficar ameaçando os outros com a Bruxaria porque isso só vai reforçar todo o preconceito que a sociedade tem. Mas discordo quando vc diz que deve ser mantida em segredo porque é uma atitude marginal. Seria bastante interessante que todos tivessem a oportunidade de saber o que é a Bruxaria antes de dar opiniões que tanto dão (que bruxas servem ao diabo e coisas do tipo).
O saber desmistifica e isso se faz necessário na Bruxaria hoje. Manter-se em segredo, escondidos como fugitivos ou com cara de culpados só nos coloca uma imagem cada vez pior. E, convenhamos, isso é coisa do passado. Mesmo com a Inquisição ainda viva, hoje os tempos são outros. Essa coisa de "escondam a Bruxaria", eu não acho interessante, tampouco oportuno.
Se cada pessoa quiser montar sua tradição, que monte. O culto é algo muito particular. Como vc sabe, a Bruxaria é despida de dogmas, portanto não há o modo certo de fazer as coisas, existe o modo pessoal de fazer. E esse, com certeza, é o mais apropriado.
Bom, não quero provocar uma discussão desgostosa, somente expôr minha opinião sobre o assunto.
Valeu!

Cabelos de Fogo disse...

Acho que o teu blogue deve ser bem interessante. Li só uma publicação, por isso, não formei a opinião.
Sobre o texto: é muito bom. Não vou ficar repetindo o que as demais pessoas disseram. Só acho que o "marginal" não é bem o termo. Talvez "oculto" porque por mais que o estar envolto em brumas faça parte (pela bruxaria nos manter em contato com os mistérios nossos e do mundo), não quer dizer necessariamente que seja colocado lá por uma condição social (no caso, marginal como sinônimo de incompreendido ou pouco aceito... - apesar de isso ser verdade atualmente).

E adorei o termo "esquisotérico!"

:)

Leo Carioca disse...

Concordo com tudo o que você disse, embora eu não me considere bruxo, e sim pagão.
Mas pra considerar alguém pagão eu sigo o mesmo princípio que você segue pra considerar alguém bruxo.