segunda-feira, 9 de abril de 2012

Religião se questiona?

Detalhe de Oferenda de Lawrence
Alma-Tadema. O ato de ofertar
significa doar, entregar. E isso não
precisa ser feito somente no
âmbito religioso. 
"Sobre a religião, algumas vezes, é melhor não perguntar ou não pensar muito sobre". Essa é a frase que certa vez minha mãe, católica, reproduziu por ter ouvido da minha avó, também católica. Há alguns dias lembrei disso e cheguei à duas respostas básicas que podem não ser, necessariamente, conclusões:

Discordo disso a partir do momento em que o que eu vejo, muitas vezes é a necessidade das pessoas de colocarem um lençol em cima das suas opiniões e achar bonito como está. Não existem desafios nem questionamentos. Inexiste qualquer tipo de produção intelectual e a fé se mantém inabalada. Bom, é evidente que a fé não tem necessariamente ligação com o raciocínio lógico, mas esse tipo de questionamentos deveriam surgir para questionar valores históricos, sociológicos e políticos da religião, e não acho que isso seja prejudicial. Espiritualidade não é só fé: é um conjunto de moral, ética, valores e concepções sociais que devem sim, ser não só questionadas ao longo do tempo mas sim reciclados todo o tempo. Já dizia William Blake: 

"Espere veneno da água parada."

A Rainha de Espadas, no
Tarot de Marselha. A lâmina
da espada é vermelha, o que
pode simbolizar a agressividade
e a violência, mas a base da
espada é amarela (o raciocínio
lógico, a sabedoria e a
intelectualidade), sendo isso o
que muitas vezes deve guiar
nossos impulsos em discussões
acaloradas. 
Porém, ainda assim, concordo quando os questionamentos passam dos conflitos intelectuais para chegar ao proselitismo. Acredito que toda discussão sobre religião deve ter, por base, uma noção básica de etiqueta compartilhada por todas as partes: tudo que for discutido ao longo da conversa deverá estar em pé de igualdade, as opiniões devem se distribuir em uma linha horizontal. Quando existe a noção de que um Deus é verdadeiro e o outro não é, de que uma religião é a certa e a outra a errada, tudo cai por terra, e quando é esse o teor da discussão (e infelizmente na maioria das vezes é), então de fato, religião não pode ser pauta para discussão.

Não só religião, mas política e futebol, todo e qualquer assunto pode e deve ser passível de debate se as pessoas em questão estão dispostas a dialogar e aprender. O que percebo é que confissões do tipo: "Realmente, você tem razão" ou "De fato, eu estava errado" são raras de ouvir. Se você, leitor, costuma ouvir isso de alguém, considere-se um privilegiado pelas Musas. Ou melhor, considere o locutor dessas frases um verdadeiro abençoado. E me indique para conversar, não tenho dúvidas que serão debates que não fazem outra coisa senão enriquecer. 
É por isso que por ora defendo que religião se questiona sim. E sem medo de me contradizer depois disso, em outros momentos digo o contrário, que não é algo a ser debatido. Tudo dependerá do contexto e de quem estará envolvido na conversa.

3 comentários:

Damra Átropos disse...

Concordo com você de que religião se questiona, dentro do modelo de discussão possível que mencionou. Mas, amigo, eu te confesso, em minha longa jornada nunca encontrei uma pessoa aberta para essa reflexão. E mais: inclusive entre meus irmãos de caminhada. Vez ou outra, sinto estranhamento em relação a alguns ditos pagãos, tão intolerantes quanto os que praticam outra crença...

Felipe disse...

Concordo plenamente! discutir pontos de vista, crenças e etc só tem a enriquecer ambas as partes, concordo com o ditado que diz que "conhecimento é poder". Acho ridículo a chamada "Fé Cega" e como as pessoas aceitam tudo o que lhes dizem sem pesquisar, sem questionar, e por conta disso se tornam ignorantes capazes de loucuras para defender seus teoremas sem ao certo saber a razão. Não existe uma verdade absoluta ou um dono da razão.

Fábio Firmino disse...

Olá, Odir. A crença religiosa é um ponto muito sensível da psique de algumas pessoas. Tocar nisso muitas vezes incomoda. Mesmo assim, religião é um assunto importante e influente demais nos dias de hoje para não ser discutido (até no meio político, como as rusgas entre a Bancada Evangélica da Câmara, que adota uma postura contra a laicidade do Estado, e o STF que é a favor do Estado Laico). Nas minhas discussões religiosas, muitas vezes usando mais argumentos históricos que teológicos, deparei-me com muitos tipos de reação. Já vi marido que quis tirar satisfação comigo por ter atacado a fé da esposa, já vi gente que teimou que vai me provar que Jesus existiu realmente, já vi quem chegou a admitir que “acreditar nisso é uma questão de fé” só pra acabar com a discussão e continuar na mesma e já vi até o silêncio como resposta, mas o que eu nunca vi foi uma pessoa que mudou seu pensamento e sua crença que já não estivesse, desde antes da discussão, disposta a mudar. Esse senso crítico (coisa que a gente escuta muito nas faculdades de humanas), que não tem necessariamente a ver com a capacidade cognitiva (que alguns chamam de inteligência) das pessoas, poucos têm realmente. Acho que uma discussão religiosa vale mais para as pessoas com senso crítico, que muitas vezes estão só de longe acompanhando a conversa, que para aqueles que já têm suas crenças arraigadas e vão lutar por elas contra tudo e contra todos.