segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sobre o romantismo histórico na bruxaria e no neopaganismo.

Detalhe de Admiração de Bouguereau.
Como as flores e o olhar de devoção aqui
bem representam, não é menos que
admiração que os devotos sentem pelas
suas religiões. O problema é quando essa
admiração é seguida da incoerência.
A lembrança mítica de “tempos das perseguições” em que os cristãos eram jogados aos leões que muitos cultuam até hoje provocam um verdadeiro sentimento de identidade e de revolta entre esses. Assim, são muitos os grupos de neopagãos que gostam de falar que essas perseguições foram relativas em Roma e que foram esporádicas e nunca uma regra generalizada. Para o historiador Juan Atienza, por exemplo, é provável que muitos dos “mártires” na história não sejam mais que deuses romanos com novos nomes e novas roupagens. Mas são poucos os neopagãos que olham para o próprio umbigo quando o assunto é a bruxaria ou o neopaganismo na história.

Muitos falam sobre "era das fogueiras", dos milhões de bruxas que foram assassinadas, do paganismo como a mais "antiga religião do mundo" e por aí vai. Mas o que é isso exatamente? E até que ponto essas afirmações correspondem com uma veracidade histórica?



A grossas linhas, poderia traçar duas origens básicas desse “romantismo bruxo” que se estende ao neopaganismo: o romantismo do historiador Jules Michelet que em sua obra A Feiticeira, de 1862 assume que a feitiçaria seria como a religião original da Europa e que a feiticeira, mulher, seria uma heroína estigmatizada pela história e que na margem de uma sociedade de homens prezaria por deuses antigos. Depois de Murray e Gardner terem alimentado noções semelhantes, vem a década de 60 e o feminismo que vê na bruxa outro exemplo do domínio da violência e da ditadura do homem sobre a mulher – não digo que isso nunca tenha acontecido, mas o que ressalto aqui é as generalizações a-históricas que foram feitas em busca de uma história parcial.

Muito se fala dos 9 milhões de mortes na fogueira ou na forca. Wolfgang Behringer foi um alemão que descobriu a origem dessa soma. No final do séc. XVIII, outro historiador alemão utilizou-se do número de mortos em uma caça às bruxas que ocorreu no seu estado de origem na Alemanha e simplesmente multiplicou esse número pelos anos e pelos locais em que as perseguições ocorreram. Para a renomada historiadora Jenny Gibbons, o número não passou de 40.000 e existem argumentos muito sólidos para sustentar essa defesa.
A Estrela, no tarot de Marselha.
Aqui, a Estrela representa a fé
e a idealização que, no fluxo dos
seus sentimentos, muitas vezes
deixa que o ideal se afaste do real,
criando assim uma ilusão.
O mito da bruxaria como a “religião de origem da Europa” ou até do Ocidente há muito já está descartada historiograficamente. A existência desse culto como uma “religião secreta” que sobreviveu dentro de famílias fechadas, de geração à geração desde tempos imemoriais também já foi descartada pela história. Há poucos dias assisti a uma excelente uma palestra sobre tarot em que Alberto de Moraes criticava a visão de muitos tarólogos de pregarem origens egípcias do tarot, onde ao menos até então, sabemos que ele nasceu na Idade Média.

Para resumir: como neopagãos, trabalhamos diretamente com a história e com o passado e justamente por isso, não devemos ser desonestos ou românticos. Nossas crenças são legítimas e não precisam de uma antiguidade inventada – sabemos de nossas origens milenares e isso não deve ser visto como uma prova ou legitimidade de nossos valores. Não importa se nossas crenças e práticas têm 50 anos, cem, mil ou dez mil anos. O que verdadeiramente importa é se elas tornam-nos pessoas melhores no nosso mundo de hoje e se nos preparam para o mundo de amanhã. 

2 comentários:

AugustoCrowley disse...

Também não me apego a números e datas e sim ao conceito, ao que aprendemos com cada filosofia, religião, pessoa, etc.Abs!

Asterion disse...

Sobre a Era das Fogueiras, em meu blog fiz uma tradução do excelente texto de uma historiadora neopagã chamada Jenny Gibbons, e verdadeiramente há muita romantização desta parte específica da história da bruxaria, muitas informações "inconvenientes" aparecem: muitas bruxas denunciavam outras bruxas, uma grande parte dos condenados não eram bruxos, muitos condenados eram cristãos, a justiça eclesiástica era mais misericordiosa do que a civil...
Alguns neopagãos não podem dormir com isso... ou podem quando verem que a posição de vítima não precisa ser assumida para trazer algum tipo de vantagem para o neopaganismo.