sábado, 14 de abril de 2012

Qual é a diferença entre bruxaria e feitiçaria?

Olá pessoal!

Edição da Sibila Délfica, de
Michelângelo, em afresco da Capela
Sistina. Patrona da sabedoria e 
das profecias, sacerdotisa de Delfos. 
Hoje vou começar a responder perguntas que os leitores frequentemente têm postado na página da comunidade no facebook, mas que devido à limitação do espaço, não são poucas as vezes em que os mesmos questionamentos surgem novamente. Decidi, então, lançar algumas dessas perguntas aqui no blog de uma forma mais dinâmica e aberta para leitura de outras pessoas que não estejam, necessariamente, conferindo o página da comunidade. 

Como vocês já puderam conferir lá no Quem somos nós, não sou sacerdote, nem reverendo, nem professor e tampouco reivindico quaisquer títulos de maestria, mas me contento com a identificação de um estudante das artes, da história e do paganismo. Tudo o que for debatido nesse espaço está aberto à novas interpretações e quaisquer contribuições sempre estiveram e continuarão sendo bem-vindas. 

Vamos começar com a pergunta do Joao Pedro: 


Gosto muito de trabalhar com os conceitos do prof Carlos Roberto Nogueira, um historiador brasileiro que já produziu diversas obras no campo da Bruxaria. Historiograficamente e academicamente falando: para ele, a bruxaria é um fenômeno típico do mundo medieval, rural, passivo, natural e coletivo. A bruxa nunca estará sozinha, ela estará inserida dentro de um contexto diabólico, compartilhará seus conhecimentos maléficos com outras bruxas, e por vezes com o próprio Diabo a fim de molestar a humanidade. É típica do mundo rural, devido à essa mesma coletividade medieval que é fortalecida nesse contexto. 

É uma identidade passiva, pois é uma imagem construída pela opinião pública, nem sempre estando esse público preocupado com a comprovação da existência real dessas bruxas ou não. Para a bruxaria existir, tem que existir o Diabo, responsável pela tentativa de levar ao pecado a alma humana e um Deus e uma Igreja que rege pelo bem da humanidade. A bruxa então é, por natureza, maléfica e opositora. 
Já para o mesmo autor, a feitiçaria é um fenômeno típico do mundo urbano. A feiticeira não precisa estar agindo coletivamente, de modo geral é uma personagem solitária. A prática da feitiçaria não envolve necessariamente o pacto diabólico e seu ofício é o veneficium (aqui um texto sobre isso), palavra latina que significa tanto envenenar quanto perfumar

Ou seja, a bruxa sempre agirá em nome do mal, a feiticeria, não necessariamente. Por ser a bruxaria essencialmente medieval por precisar, no seu imaginário, a existência de uma Igreja salvadora, de um Deus bondoso e de um Diabo maléfico, a bruxaria inexiste na Antiguidade. O que existiu lá era a feitiçaria. Cita na literatura clássica a solitária Circe e Medéia. Ambas eram tanto "boas" quanto "más" e não agiam dentro de uma coletividade. 

Essa é uma conceituação acadêmica que não é unânime e existem discordâncias. Para Nicholaj de Mattos Frisvold, por exemplo, o ofício da bruxaria é marcado por aspectos tais como a marginalidade, a periferia, um ofício "oculto" e proibido, muitas vezes paralelo à religio oficial. E isso não é necessariamente medieval, mas um patrimônio humano em si por estar presente em todas as épocas da história.

A Visão de Fausto, de Luis Riccardo Falero (1878) traz a imagem do sabá.
Devido ao caráter coletivo e diabólico, quem participa do sabá geralmente
são bruxas e não feiticeiras. 
Então, traduzindo para os círculos da espiritualidade contemporânea: De modo geral é aceito que bruxa ou bruxo é aquela pessoa que está inserida dentro de um contexto coletivo, mítico e iniciático. Que vê na bruxaria um ofício, geralmente compartilhado por irmãos e irmãs. Já a feiticeira ou feiticeiro é aquela pessoa que não está inserida dentro de um contexto mais rígido, sendo alguém, simplesmente, que faz feitiços. É aceito que a palavra "feitiço" está ligado ao termo latino fatum, ou seja, "algo feito". A feitiçaria é mais uma prática, um fazer, enquanto que a bruxaria é um ofício com mais regras e responsabilidades, devoções e obrigações. 

A bruxa geralmente é feiticeira. Mas a feiticeira nem sempre é bruxa.

6 comentários:

Asterion disse...

Sou totalmente a favor do conceito de bruxaria ser uma atividade mais marginal/rural e a feitiçaria algo mais urbano. Todos podem fazer feitiços. Mas nem todos serão "bruxos".
Quanto ao que foi exposto sobre a bruxaria ser um fenômeno medieval não penso que esteja totalmente equivocado, pois foi exatamente nesta época que a "terminologia" e o "conceito-chave" surgiram, porém podemos sim reinterpretar feiticeiras da era clássica e enquadrá-las como bruxas, pois em sua maioria elas se envolviam com divindades "marginais" de panteões.
Feiticeiro é apenas aquela pessoa que faz. Bruxo é aquela pessoa que sabe por que está fazendo, por que se deve fazer daquela forma e como aquilo funcionará.
Penso na bruxaria como um agente social com um papel social definido: pessoas que possuem conhecimentos e métodos que outros agentes sociais não possuem por serem tabus para aqueles mesmos ou seja, ela possuirá um corpo de conhecimento e prática espiritual, mágica e medicinal, para citar alguns principais, que os agentes oficiais da sociedade correspondentes (sacerdotes, magos e médicos respectivamente) não possuem.É assim que eu penso.

Raven Luques McMorrigú disse...

Raven Luques McMorrigú Perfeito o artigo, e sempre falo a respeito disso, dentro da percepção mais básica sobre tais termos, que é a da língua e cultura portuguesas, já que estamos lidando com termos portugueses. Assim sendo, Bruxa e Feiticeira de facto são graus diferentes dentro do Caminho Iniciático, pela perspectiva Tradicional. Academicamente temos estudos apontando para tal diferenciação, como o do Carlos Roberto Nogueira, que vc citou no artigo, embora o escopo deste estudioso, ali na citação feita ao estudo dele, seja especificamente teológico de raiz cristista. No entanto, gosto dos estudos dele, justamente por nos brindarem com uma interpretação estritamente histórica (ou seja, baseada em documentação, ainda que questionável em seu conteúdo, mas registrada e documentada e ponto final). Concordo com as definições do Nicholaj de Mattos Frisvold, dentro de uma perspectiva antropológica, segundo a qual a Bruxaria e a Feitiçaria são fenômenos presentes em todos os povos e épocas. Concordo, assim como também concordo com a perspectiva etno-cultural segundo a qual Bruxaria e a Feitiçaria são fenômenos especificamente portugueses, até por conta da etimologia (é CÔMICO quando surgem pessoas me encarando com um olhar de “surpresa” e até “perplexidade” quando recordo que Bruxaria e Feitiçaria, por serem palavras de origem portuguesa, falam de um universo cultural de raiz portuguesa... me olham quase que com um certo “ódio”, velado que seja, pois acabo recordando que Bruxaria não é oriunda de nenhum ensejo esotérico novecentista, assim como não é de origem britânica - lembrando que etimológica e etno-culturalmente falando, no caso inglês temos Witchcraft - ou mesmo não advém “única e exclusivamente” de Gerald Gardner e sua Wicca, etc etc... rsrs). Etnolinguisticamente falando, portanto, Bruxaria e Feitiçaria são em Portugal aquilo que Witchcraft o é na Inglaterra, assim como Stregoneria o é na Itália, Sorginkeria o é no País Basco e assim por adelante...

Raven Luques McMorrigú disse...

Assim sendo, para perscrutarmos os reais fundamentos das palavras Bruxa e Feiticeira temos de nos debruçar, primeiramente, sobre o caso português, localizando as raízes etimológicas, a usança tradicional dos termos... e quando me refiro à usança tradicional, não menciono a interpretação de raiz teológica católica romana (que também tem o seu espaço dentro desse estudo, claro, mas tal é secundária em importância); me refiro à usança tradicional daqueles que vivem a Bruxaria e a Feitiçaria enquanto cultura mágico-religiosa popular, com forte presença folclórica (envolvendo aí ritos e costumes vividos abertamente, pelo povo em si), assim como também vivem tal cultura mágico-religiosa internamente, dentro das Casas herdeiras da Tradição. E nesse aspecto, encontraremos a Bruxa e o Bruxo da aldeia, procurado para curar, benzer, e por ser também Feiticeiro muitas vezes, é igualmente procurado para a confecção de unguentos medicinais e mágicos, poções, elixires, assim como amuletos, bolsas de feitiços, garrafas contendo elementos mágicos, etc. A Bruxa/Feiticeira nesse caso é uma pessoa herdeira de um Dom, legado por seus Antepassados, e também é herdeira de um Ofício Mágico, que envolve uma praxis tradicional, técnicas e procedimentos, procurados pelo povo para sanar os mais variados males e responder às mais variadas demandas, desejos e esperanças. Apesar de praticar esse Ofício relativamente de forma aberta (muitas vezes, certos ritos requerem o segredo daqueles que por eles passam, e tal pacto é respeitado, inclusive por depender daí, a eficácia de tais ritos, etc), há sim toda uma base tradicional que a Bruxa/Feiticeira não revela aos de fora. É aquilo que mantém a estrutura de sua Tradição, ou mesmo a própria estrutura em si, e que se configura no Tesouro Iniciático legado geração após geração, dentro do Mistério, que só pode ser compreendido se for vivido, segundo fórmulas específicas, que acessam conceitos próprios daquela linhagem. Isso não nos é alheio, aqui em Terra Brasilis: no Candomblé encontramos exactamente as mesmas estruturas de Mistério Iniciático, convivendo lado a lado com cultos públicos, abertos a todos, e também sessões rituais e oraculares, que visam trazer aconselhamento, cura, bem estar, etc. A diferença é que no caso da Bruxaria Portuguesa encontramos uma realidade mais fluida e menos padronizada, podendo haver inclusive Casas Bruxas estruturadas tal como os terreiros de Candomblé ou não; e mesmo nesse caso, não encontraremos uma identificação tão notória, posto que os Mistérios internos da Bruxaria Portuguesa, nesse caso, não são sequer identificados pela população no geral. A Bruxa detentora de uma Tradição mais estruturada nem sempre abre a existência de tal herança aos de fora, mostrando apenas o facto de ser curandeira, feiticeira, Bruxa sim por ter recebido o Dom, mas “pertencente apenas ao universo de crenças de origem cristã”... o que nem sempre é verdade, mesmo entre aquelas que trabalham com sincretismos religiosos. Encontramos um ditado popular lusitano que explicita a conclusão do próprio artigo do blog, e que foi registrado pelo historiador e arqueólogo José Leite de Vasconcelos, escritor e fundador do Museu Nacional de Arqueologia em Portugal: “A Bruxa nasce e a Feiticeira faz-se” (“Etnografia Portuguesa”, 1933). Ou seja, a Bruxa nasce não só com o Dom, mas dentro de uma cultura mágico-religiosa herdada em Famílias, dentro de Clãs, onde tais saberes são veiculados (sempre entre pessoas do mesmo Sangue Bruxo). Já a Feiticeira se faz e se desenvolve através do aprendizado, da prática, da técnica, da operação mágica e medicinal, experimentando por conta própria, adaptando receitas e procedimentos à sua realidade presente, às circunstâncias em que se encontra; e se construindo enquanto Feiticeira através dessa Escola, que muitas vezes se dá no extrato popular, através de Conciliábulos de Mulheres e Homens Sábios, onde o receituário mágico é ensinado de um para outro... ou mesmo no dia a dia, entre as barracas das feiras livres, onde feitiços, rezas e orações são repassados de boca a boca...

Asterion disse...

Aprecio igualmente a diferenciação que alguns antropólogos fazem sobre os dois termos que é:
Bruxa: aquela que possui poderes, habilidades mágicas sem necessitar de objetos para conjurar magias.
Feiticeira: aquela que precisa de objetos para lhe emprestar poder.
Obviamente, na prática esta definição não se aplica literalmente uma vez que a maior parte das bruxas utilizam-se de fetiches para as suas prátcias tanto quanto a feiticeira. Mas a questão é o Dom que fora mencionado por Raven Luques McMorrigú. A Bruxa terá um chamado, uma vocação a qual dificilmente renunciará pois está entrelaçado a seu Destino.

Qelimath disse...

Odir,
Esta é uma postagem afortunada, pois há muito a ser debatido aqui. Carlos Roberto Nogueira de fato dá uma caracterização passiva, enquanto descarta a ativa dada por tradições que fugiram do escopo de seu estudo (visto que suas fontes foram exclusivamente de natureza ou contextualizadas com um fundo eclesiástico). Não é de toda incorreta, mas parcial, como se deita sob um escopo limitado.
Pessoalmente, prefiro a entrada para a palavra “Witchcraft” no Wikipédia em inglês (http://en.wikipedia.org/wiki/Witchcraft), que está muito bem fundamentado do que a entrada em português, onde vemos cair por terra esta teoria de que “Bruxaria” é um termo exclusivo português, o que desclassificaria qualquer tradução de “Stegoneria”, “Sorginkeria” ou “Witchcraft” para nossa língua. Isto inclusive desclassificaria a primeira “bruxa” mencionada na bíblia: “A Bruxa de Endor”, assim traduzida porque “bruxaria” (ou “bruxa”) é um termo generalizado que marca alguns fatores comuns em todo o mundo e em todas as eras da humanidade. Esta “desclassificação” tem sido forçada por alguns que querem determinar propriedade do termo. Para o brasileiro (ou o português), uma “bolsa” seria algo diferente de “bag” para o inglês ou o americano? Sem dúvida, trata-se do mesmo objeto, mas o significado ainda é o mesmo. Cada povo chamará a “bolsa” de uma forma, mas ela sempre terá pelo menos minimamente as mesmas características básicas. A afirmação de exclusividade de terminologia, neste caso, é bastante tola e estaria na contra-mão de toda a literatura já traduzida no mundo (incluindo a Bíblia!).
Se você perguntar para um praticante da arte basca como eles se chamam nos países bascos, ele dirá “sorginak”, em inglês ele se denominará “witch” e em português, “bruxo”. De fato, “sorginak” significa “aquele que forja seu próprio destino”, um dos marcadores principais do que chamamos de “Bruxaria Tradicional”.
A própria origem da palavra “witch” vai além do Antigo Inglês, encontrando origens primárias no proto-germânico e proto-Indo-Europeu (http://en.wikipedia.org/wiki/Witch_(etymology) e esta entrada também se baseia em fundamentações abundantes), sendo que a própria língua “céltica”, de onde declaram os “bruxos portugueses” sua proveniência, é verificada nesta segunda categoria (derivada do proto-indo-europeu).
Na primeira entrada citada para “witchcraft” no Wikipédia em inglês, é possível visualizar não só as diferenças entre “bruxaria” e “feitiçaria”, bem como as diferentes teses existentes sobre o tema. O que particularmente me atraiu ali foi a análise crítica muito bem feita das fontes. Ultimamente tenho percebido um sem-número de “teses acadêmicas” sem o mínimo crivo analítico de fontes, e isto é particularmente preocupante. Do nada qualquer “pesquisador acadêmico” é tomado como alguém formado, com ares de doutor, enquanto nada mais é do que uma pessoa interessada em investigação acadêmica, que consequentemente não foi treinada a selecionar fontes.
Agora, um ponto onde há muita divergência aqui em nossa Terra Brasilis (onde parece-me que há uma resistência oportunista em negar os trends acadêmicos reais), está na especificação: Enquanto “bruxaria” é um termo genérico para marcadores comuns em todo o planeta, “bruxaria tradicional” sempre será um “pré-nome” para uma determinada “tradição/cultura”, por exemplo: “Bruxaria Tradicional Portuguesa”, “Bruxaria Tradicional Basca”, etc.

roberto quintas disse...

além do livro do prof. Carlos Roberto Figueiredo Nogueira eu recomendaria o livro de Francisco Bethencourt.