segunda-feira, 16 de abril de 2012

O que é a Rede Wicca?


Edição da foto original do inglês
Gerald Gardner, tido como o fundador
da religião Wicca. 
Pessoal, primeiramente gostaria de agradecer pelas respostas e pela repercussão intelectual que causou primeira postagem da seção "Trabalhando com conceitos".

Como já disse em outra ocasião, vou repetir aqui: é assim que o conhecimento é construído: por contribuições, acréscimos, bem como por choques, conflitos e debates. Obrigado mais uma vez! 

Vale lembrar que tudo o que for colocado aqui é plausível de discussão e debate, bem como de crítica - desde que essa última seja fundamentada e respeitosa. Criticar por criticar, sem referências, sem fontes, sem argumentos ou sem embasamentos não são críticas, são xingamentos. E disso todos nós dispensamos. 

Então, seguindo a próxima pergunta, instigantemente proposta pelo Diego da Silva:


Gardner, tido como o "pai" da Wicca, nas primeiras linhas do seu clássico Witchcraft Today ("A Bruxaria Hoje", publicado como factual primeiramente em 1954, mas já tendo publicado ficções sobre isso em 1939 e 1949) confessa: "Muitos livros foram escritos sobre bruxaria. Os primeiros foram, na maioria, propaganda escrita pelas Igrejas para desencorajar e assustar as pessoas que tivessem conexão com o que para eles era um odiado rival - pois a bruxaria é uma religião". Grifo nosso. 

Gardner acreditava nas teorias da antropóloga e egiptóloga Margaret Murray, onde pregava que a bruxaria era um culto com origens pré-históricas e tinha sobrevivido até então de forma linar, por iniciações e praticamente sem interrupções. Hoje bem sabemos que essas teorias são desacreditadas pelo meio acadêmico e muitos bruxos e bruxas convivem bem com as teorias de Carlo Ginzburg e outros autores que defendem coisas um pouco diferentes. Se quiserem, em outra oportunidade posso escrever sobre isso. 

De qualquer forma, onde eu quero chegar é que Gardner via a bruxaria como um culto em declínio, uma religião que estava prestes a morrer. Ele entrevistou bruxas, supostamente foi iniciado dentro desse culto anos antes da publicação do seu primeiro livro. Assim ele pesquisou, compilou, organizou conhecimentos que obteve através dessas pesquisas e o que não encontrou e ficava "em aberto", criou, adaptou, formulou e reconstruiu. 

Todas as religiões possuem mandamentos, normas ou leis. E com a Wicca, sendo uma religião, não poderia ser diferente. Provavelmente não encontrou um "mandamento" consensual compartilhado por todas as bruxas que conheceu, e foi então que ele criou o Na it harm none, do was we will ("Sem a ninguém prejudicar, faça o que desejar") em um tom propositalmente arcaico. A criação de uma norma, de uma regra, ou de uma "Rede" foi uma tentativa de legitimar a organização da Wicca como culto, como religião que estava em declínio e que precisava de novos adeptos, pois do contrário, estaria fadada à morte. 

Pode ser arriscado fazer essa relação, mas assumindo uma licença poética e uma diacronia histórica, assim como Constantino atribuiu a si, na Roma do séc. IV, um papel "salvador" e de "pai" do cristianismo, tirando-o da marginalidade e da periferia transformando-o numa religio licita a fim de torná-lo público, e oficialmente aceito, Gardner fez o mesmo, nesse sentido, com a bruxaria. E entender isso é de suma importância. 

Crowley, tido como um dos maiores
ocultistas do seu tempo, muito
provavelmente contribuiu para a
formação da Wicca.

A contribuição mais comumente aceita é a da máxima "Amor é Lei, Amor sob Vontade", de Aleister Crowley na obra Al Vel Legis ("O Livro da Lei") de 1901. Segundo o autor, essa frase teria sido inspirada por ele próprio por um anjo chamado Aiwass. 

Em 1946 Gardner conhece Crowley e mais tarde tornou-se membro da O.T.O. ou Ordo Templi Orientis, liderada por Crowley. A influência de Crowley em Gardner é atestada por Patricia e Arold Crowther (iniciados por Gardner). Inclusive, o próprio "pai" da Wicca confessa essa confluência de elementos do culto no seu livro "A Bruxaria Hoje":

"O único homem que conheço que pode ter inventado ritos é o saudoso Aleister Crowley. Quando o encontrei, ele estava mais interessado em ouvir que eu era um membro [do culto das bruxas] e disse que ingressara muito jovem, mas que não diria se havia reescrito algo ou não (...) Há porém certas expressões e certas palavras utilizadas que batem com as de Crowley, possivelmente ele emprestou coisas dos escritos do culto, ou mais provavelmente  outra pessoa emprestou alguma coisa dele." 

A primeira aparição dessa frase, hoje conhecida como "Rede Wicca" foi no seu livro The Meaning of Witchcraft ("O Significado da Bruxaria") de 1959, onde fala: 

"Elas [as bruxas] tendem  a seguir a moralidade do lendário bom Rei Pausol [personagem fictício do romance de Pierre Louys, de 1901]: "Faz o que quiseres, contanto que não prejudiques ninguém". Mas elas acreditam na importância de uma determinada lei: "Não se deve usar a magia para causar dano a alguém, e se para prevenir um danor maior for necessário prejudicar algo, isso deve ser feito de maneira que o mal seja minimizado". (...) Isso, você pode dizer, é cristianismo básico. E obviamente budismo elementar, hinduísmo, confucionismo, judaísmo, entre outros."
Se Gardner é tido como o "pai" da
Wicca, Doreen Valiente, iniciada por
Gardner, é a mãe. Após rompimentos
com Gardner, Valiente deu
continuidade ao trabalho de divulgação
da bruxaria após a morte de Gardner.
Mais tarde, segundo John Coughlin, pesquisador dos escritos de Gardner e Doreen Valiente, atesta que essa última mencionou a Rede como é conhecida hoje na edição de 3 de outubro de 1954 (depois da morte de Gardner) na revista informativa trimestral chamada Pentagram. 

Depois disso, a Rede tornou-se um "mandamento" comumente aceito com as publicações de Buckland e a popularização da Wicca através da "auto-iniciação" nos Estados Unidos e ao redor do mundo.

Concluindo, é difícil falar em origem específica. Podemos deduzir várias influências e a enraização desse conceito posteriormente, mas atestar que a compilação desse "mandamento" nada mais é que possivelmente uma tentativa de Gardner de legitimar a Wicca como uma religião frente ao seu constante trabalho de resgate e reestruturação como um culto organizado para uma nova geração que estava surgindo no ocidente pós-moderno. 

Essa é minha opinião e estou aberto à novas interpretações! 

3 comentários:

☽❍☾ Κάδμος Νηρεύς Azazel Lvnae ☽❍☾ disse...

Bem, por onde começar.
Segundo os Bruxos que Gardner cita (o que comumente hoje é conhecido como BTW (Britsh Traditional Witchcraft)Crowley fez parte de um dos noves covens da região de New Forest (todos eles saidos de Old Pickingill)talvez tudo isto que Crowley tenha criado tenha sido por sua experiencia com alucinógenos somado a material oral que ele teve acesso neste coven de Bruxaria o qual ele foi iniciado.

Gardner iniciou pelo que se sabe no mínimo nove altas sacerdotisas e é dito que cada uma deu origem a uma linhagem sendo a mais conhecida a linha Olwen e é dito também que a cada sacerdotisa ele falou um nome do casal divino, sendo uma das maneiras de se saber qual linhagem vc é seria conhecer os nomes dos deuses daquela linhagem, mas todos os BOS destas sacerdotisas (eu já vi as versões A, B, C, e D e nenhum dos BOS contém a Rede Wicca (ou Wica como Gardner cita em sua obra)tal rede é atribuida a Doreen Valiente e só pertencente nos BOS de quem receberam iniciação dela depois de que ela se desvinculou da Wica e de Gardner.

Mas voltando ao cerne da questão. Tal frase está presente sim no BOS (APENAS A FRASE E NÃO TODA A REDE)Se Gardner tomou emprestado de Crowley ou se ambos receberam tal instrução dos covens remanescentes de Pickingill é algo que pode ser dito e nunca afirmado, enfim todo inicio de um caminho religioso é envolto nas brumas.

E assim seguimos nós tentando seguir um caminho seriamente.

Gostaria de te parabenizar pela iniciativa e o cuidado na discussão dos temas.
Parabéns.

Que os deuses te concedam bençãos e maldições na medida que possa merecer e suportar.

Asterion disse...

Parabéns pela pesquisa precisa e imparcial até onde possível. Bem, nunca havia pensado na Rede Wicca como uma forma de legitimar a "religião", mas sempre pensei nela numa forma de "branqueamento", de dizer "hei, somos os bruxos BONS, olha somos proibidos de fazer MAL."
Mas mais do que o conceito, é preciso se ater a prática assim como a moral só se terna ética no exercício da mesma. É mesmo possível viver sem a nada prejudicar? Creio que não. De qualquer forma causaremos danos. Gosto muito de um conceito do budismo tibetano que se chama ku long [1], não há tradução para o português, mas seria basicamente aquilo que motiva uma ação - ou seja, o agir com ética não está no resultado em si da ação, nem tanto nos meios utilizados, mas em seu princípio. Maquiavel defendia que os fins justificavam os meios [2], mas acredito que o principio justifica o meio e o fim, indubitavelmente. Desculpo-me se sai da discussão principal do tema proposto [Rede Wicca], para a ética em geral. Mas é que esta imagem da “bruxa casta” simplesmente não existe. Que atire o primeiro pentáculo quem nunca rogou uma maldição na vida!
"Todos matam o que amam: o covarde, com um beijo; o valente, com uma espada."(Oscar Wild)

[1] Dalai Lama, Uma Ética para um Novo Milênio
[2] Maquiavel, O Príncipe

Asterion disse...

Uma correção. Quando disse "esta imagem da 'bruxa casta' não existe" o que queria dizer é "esta imagem de 'bruxa casta' não corresponde com a realidade.