segunda-feira, 14 de maio de 2012

O público e o privado na Bruxaria.

As últimas rosas (Alma-Tadema, 1872).
Essa ideia do cuidado com as últimas
flores primaveris frente as muitas que
já morreram com o outono
representam muito bem a ideia do post.
De modo geral, existe um consenso básico: depois de alguns anos estudando e praticando bruxaria ou alguma vertente do ocultismo, mil vezes o silêncio do que a exposição gratuita. Ainda assim, não é novidade pra ninguém que vivemos uma pós-modernidade onde privacidade é algo que a cada vez menos sabemos exatamente o que é. Se participamos de uma rede social, então, nem se fala. E é justamente por isso que eu acredito que é possível - não sem um certo esforço - oscilar entre a luz e as sombras quando o assunto é nossas crenças e práticas quase sempre ligadas a um senso comum de deturpações e preconceitos por parte daqueles que nem sempre estão interessados em aprender sobre nós. 

Muitas pessoas costumam trabalhar com algo do gênero, e então a coisa fica mais fácil. É o caso de pessoas que escrevem livros sobre o assunto, são tarólogos ou cartomantes profissionais ou trabalham com algum tipo de terapia alternativa. Essas pessoas já vivem em um meio esotérico que é menos vulnerável às generalizações e ao senso comum. Mas ainda assim, essas pessoas têm famílias, amigos, vizinhos de outras religiões, enfim. Como lidar com uma vida "pública" e "privada" na bruxaria é algo que todos, sem exceção, precisam meditar. 

Hoje, a bruxaria está comumente associada ao paganismo e sempre temos que lembrar as diferenças para não confundir as duas coisas. O paganismo é uma cultura, um tipo de espiritualidade que deve sim ser divulgada, levada à público e ter sua visão de mundo exposta. Em termos de necessidades individuais, sociais, ecológicas e culturais posso arriscar em dizer que, se o mundo precisa de uma espiritualidade, ela é o paganismo. Ainda que seja suspeito pra falar. 

Mas a bruxaria não é isso. Ela é um ofício marginal, periférico, uma gnosis que se for compartilhada à todos e todas, simplesmente não funciona. Sempre foi e provavelmente sempre será assim. Aqui eu já escrevi sobre isso. Portanto, nunca é bastante relembrar: nossas crenças e práticas devem ser encaradas como um patrimônio a ser reservado, alimentado e cultivado no silêncio, somente entre nossos pares. Exposição traz banalização, mesmo que para aqueles amigos “mais próximos”. Banaliza sim, pois eles não vão entender do que se trata, a partir do momento que não tem a mesma visão de mundo que a nossa, nem as mesmas experiencias. E isso gera simplificação e reducionismo que não levam a outras coisas senão ao senso comum.

O clássico Círculo Mágico, de Waterhouse. Atente 
para o cenário oculto, silencioso, quase secreto
em que a Bruxa opera. Tem coisa melhor?

Então, por uma questão de respeito à nossa cultura e ao nosso patrimônio, aqui algumas sugestões: 

Você que costuma tirar fotos dos seus rituais e divulgar pelas redes sociais, pergunte-se: seus rituais são para quem? Para os deuses ou para seus colegas de trabalho? E são para quê? Gerar devoção, pedir por algo especial ou pra gerar publicidade? 

Se identifica nas redes sociais ou até pessoalmente trazendo um “Bruxo”, “Mago”, “Mestra” ou “Sacerdotisa” antes do seu primeiro nome? Bom, você acha que é dessa forma que irá encontrar ou ser identificado por seus semelhantes? Acho que essas coisas são sempre mais sutis, delicados, sagrados e discretos. Pense nisso, você quer ser reconhecido como bruxa, bruxo, mago ou até mestre por QUEM? 

Um lararium, atualmente no Museu
de Basel, Suíça. Os romanos
tinham muito claramente suas
diferenças do sagrado público

e privado. Os rituais  públicos
desempenhavam o culto aos
deuses  públicos, do Estado,
do Olimpo, do Capitólio etc.
Já  o culto familiar era reservado
aos Ancestrais da casa, aos Lares e
só participavam aqueles que
compartilhavam do mesmo sangue.







Roupas chamativas, pingentes, brincos, perucas, maquiagens: Se você usa porque faz parte do seu estilo, ótimo. Agora, do contrário, se é para passar uma mensagem de “eu sou bruxa, tenha medo de mim”, pergunto mais uma vez: QUEM você quer que faça essa leitura de você? E precisa ser dessa forma? 

Não vê problemas em dividir seus rituais com outras pessoas que não sejam do Ofício? Bom, pergunte a um amigo judeu se você, como visitante em alguma data especial, pode participar da ritualística da família. O mesmo com as cerimônias particulares de uma casa de umbanda. Com a maçonaria a mesma coisa. Pergunte se pode participar da cerimônia de ordenação de novos padres na Igreja católica. Pois bem, se você considera seu Ofício tão sagrado ou digno de respeito como esses acima citados, não trate-o como inferior. 

Bom pessoal, encerro por aqui. Essas são algumas sugestões para preservar a bruxaria que, sim, considero um patrimônio. E se muitos de nós comungam dessa sabedoria, não temos porque não protegê-la a sete chaves. Muitos falam que eu exagero com todo um “segredo” supostamente desnecessário. Eu respondo que prefiro pecar por excesso que por falta. E que existe uma grande diferença entre SEGREDO e MISTÉRIO, e de “secreto” nosso ofício pouco tem. 

18 comentários:

brunodiniz disse...

Muito bom o texto para refletir. Obrigado por dividir com a gente.

Anônimo disse...

Concordo com o que vc diz. Tem muito "poser" por aí que não trata nossa fé como uma religião válida. Por outro lado, expor nossa crença ajudaria as pessoas a se acostumarem com ela e a respeitá-la. Temos esse paradoxo. Eu particularmente não exponho meus rituais, fotografo às vezes como lembrança, pois tento fazer sempre tudo muito bonito e de coração, mas acabo não postando no face pq tenho muitos amigos de diversas religiões, daí a ter que explicar tudo a todos, por exemplo, um amigo evangélico hahah...mas se algum amigo que não pratica a Arte se interessa realmente em conhecer, eu acho legal convidá-lo a participar como observador. ***Camila (não dá pra postar como membro do face???)

Sérgio Lourenço disse...

Nossa muito bom o seu texto, comparilho ao máximo de sua opinião. acredito que a Arte é uma Gnose, já o Paganismo uma espiritualidade abrangente e muitos confundem ambas como sendo a mesma coisa em sentido literal. Acredito também que a Arte por si só cria uma peneira, uma seleção natural. Pois sabemos o que sabemos e por saber devemos aprender a preservar, já que os maiores mistérios da mesma acontecem no silêncio, assim como a semente que germina por debaixo da terra sem sabermos como!

Paulo de Tarso disse...

Conheci a wicca e uma das primeiras coisas que li sobre era que a wicca é "das sombras", sempre foi assim, ela sobreviveu por ser assim. Acho que esse texto coloca muito bem esse problema da super exposição da wicca, que gerou uma imagem negativa da wicca no Brasil. Post bem bacana.
Acho que esse post deveria ser de leitura obrigatoria, rsrs.

Rose Hewson disse...

Vc disse tudo! Não é preciso usar vestes, maquiagens ou nada que grite em sua figura que vc é um bruxo. Um bruxo de verdade reconhece o outro pelo olhar pelas atitudes e por sua posição diante de determinadas situações e ninguem mais precisa perceber. Fotos de rituais e de altares então nem pensar! São para nossos Deuses e não para os humanos nossos rituais, e nossos Deuses conhecem nossa esscência, sabem o que vem de dentro de nós. Vc está muito certo em mostrar que deve sim ser preservado e que expor todo este lado não vai fazer as pessoas nos olharem melhor ou mudarem o que elas pensam. O objetivo de um verdadeiro bruxo não é mudar nada para os outros, apenas ser ele mesmo, seguir seu instinto e o caminho que lhe foi determinado com muito estudo e sabedoria. Estudar, aprender e seguir, e ninguem precisa saber! ADOREI SEU TEXTO!

Mauro Pisaneschi Azevedo disse...

Olá Odir Fontoura, interessante seu texto. No entanto me permita discordar quanto à questão da preservação. Eu acho que podemos praticar a arte sem que seja necessário alardear e usar a palavra bruxaria permitindo assim que não iniciados possam também participar. Já participei e até mesmo fiz em casa festas da Primavera e dela participaram vários não iniciados. Não considero isto uma banalização. Eu tive o prazer de conviver por um bom tempo com o Roberto Carvalho, um grande bruxo, e ele sempre defendeu que não devíamos nos segregar em guetos e eu também compartilho esta posição. Bem seu texto foi extremamente pontual e vale esta discussão. Um abraço.

Márcia Cavagnari disse...

Acho bem pertinente seu lembrete, Odir Fontoura. Exposições desnecessárias que banalizam os ritos e mitos por aí são dignas de "vergonha alheia" não é? rs...Por outro lado, penso que o esclarecimento pode evitar muitos aborrecimentos. Tudo bem, não precisamos entrar em detalhes, ficamos no genérico da coisa. E não precisamos esclarecer quem não questiona.(Isso é básico e fundamental) Mas penso ser a informação, sobre qualquer que seja a cultura, a religiosidade, o credo... enfim...o caminho que for... que difunde o respeito pela diversidade. Temos um povo já demasiado desinformado e como tal intolerante, portanto, não deveríamos nos negar a dizer quem somos, o que pretendemos, no que acreditamos... devemos mostrar onde nossas opiniões estão fundamentadas. Isso nos faz essencialmente verdadeiros e difunde positivamente o que cultuamos, sem exposições banais, plenamente conscientes do que pode ser público e privado. Beijos ensolarados irmãozinho! :)

Tyrfang Hollydragon disse...

Bom, se Bruxaria e Wicca fossem religiões para as massas não haveriam segredos de tradições nem iniciações secretas, seriam todos os ritos abertos e todos os detalhes expostos, a partir desse pressuposto qualquer exagerro é fanfarronice, não precisamos de um desfile de pingentes, tunicas e exageros para defender nossas religião tao pouco uma exposição maciça na mídia, precisamos transparecer a normalidade do que somos, pessoas que possuem uma fé normal, pessoas comuns que possuemuma religião assim como as outras, nãos somos PROSELITISTAS, não queremos mais adeptos, NÃO QUEREMOS UM IMENSO REBANHO DE ovelhas seguidoras da Deusa, esse tipo de religião já existe. Guerra religiosa, oras bolas convenhamos, crianças, ACORDEM VÃO PASSEAR NA IRLANDA DO NORT E DESCOBRIR o que é conflito religioso de verdade isso porque lá são Católicos contra Anglicanos, ou olhem para Bagdá que diariamente tem conflitos entre Xiitas e Sunitas, ou na Siria onde a minoria Salafita oprime a maioria Xiita, ou nas Filipinas onde Muçulmanos e Católicos, ou no Sri Lanka onde Budistas e Hindus, e por aí vai, aqui no Brasil o que temos de verdade é perseguição as RELIGIÕES AFRODESCENDENTES isso acontece de verdade, na BAHIA onde templos e terras sagradas são destruidas todos os dias, ou no MATO GROSSO DO SUL onde as comunidade GUARANI MBYA tem suas casas de reza queimadas pelas comunidades neopentecostais, com a Bruxaria no Brasil o que acontece tem mais haver com a desinformação do que com a perseguição e GUERRA. Acordem!!!

Katharina Dupont disse...

refleti muito ao ler seu texto, refleti naquilo que acho sensato e no q acho non sense e resumo tudo isso à uma palavra :
SELETIVIDADE

para quem se dirigir
porque se dirigir
aonde se dirigir

Beijos Odir!

Belchior Torres disse...

Querido parabéns, muito sensato e pertinente com o que vivenciamos aos montes... Gostei da sua forma sutil e deligada de tocar nessas questões, geralmente quando se trata sobre isso as pessoas se sentem logo afetadas e agredidas, mais suas palavras foram meigas... gostei!
Espero q muitos possam refletir...

Nath Hera disse...

Eu gostei muito de teu texto Odir.
E' importante nao banalizar, mas acho importante tbm esclarecer. Esclarecer a aqueles que merecem e mostram um verdadeiro interesse apenas para saber o que realmente è a bruxaria.

Sendo um oficio, que como vc mesmo disse nao è pra todos, e certos 'mistèrios' devem continuar em sigilo e divididos apenas com pessoas que queiram realmente entrar nela.

Acho que 'Bruxas e bruxos' jà ficamos muito nas sombras, e esclarecer o que è um bruxo, de modo geral sem detalhes è importante. Existià pessoas que nem iram ligar para tua explicaçao, mas outras muitas acabam entendendo, achando interessante e ai começam a respeitar e nos ver como pessoas normais.

Mas concordo com todos os seus questionamentos. E' importante se auto-regular e ponderar muito, principalemtne em redes sociais, o que postar.

Parabens!
PS: Sabe que gosto muito do teu blog? =)

Aline Pandora N. disse...

Olá! Gostei demais do texto - álias, gosto muito de todos os seus textos! Parabéns...
O texto me fez, sinceramente, repensar algumas atitudes. Não exponho minha religião, porém, tiro fotos do altar depois de cada ritual. Não irei postar mais... hehe. Obrigada por fazer-me pensar sob outra perspectiva.
Continue sempre com o seu trabalho, que acrescenta tanto à nós!

Um grande abraço e muitas bençãos :)

Aline Pandora N. disse...

Olá! Gostei demais do texto - álias, gosto muito de todos os seus textos! Parabéns...
O texto me fez, sinceramente, repensar algumas atitudes. Não exponho minha religião, porém, tiro fotos do altar depois de cada ritual. Não irei postar mais... hehe. Obrigada por fazer-me pensar sob outra perspectiva.
Continue sempre com o seu trabalho, que acrescenta tanto à nós!

Um grande abraço e muitas bençãos :)

Emanuel disse...

Oi Odir. Sempre um prazer passar por aqui. Mas hoje, em especial, saio daqui um pouco mais pensativo do que de costume (sendo que inevitavelmente saio pensando daqui, sempre).
A Arte não faz proselitismo, sempre soubemos. Que eu não seja o primeiro a quebrar o costume...
Abraços, querido, valeu demais a leitura.

Leo Carioca disse...

Bom, esse é um assunto no qual não se pode radicalizar de um lado nem do outro.
Eu não escrevo na minha testa que sou praticante do Candomblé e nem ando por aí falando com qualquer pessoa sobre isso.
Quando perguntam qual é a minha religião, eu respondo. Se perguntarem como ela funciona, eu respondo.
Enfim, acho que esse é um assunto pra gente expor mais quando a outra pessoa pergunta alguma coisa. Mas sair por aí falando o tempo todo sobre religião parece coisa de evangélico pentecostal, que quer converter a Humanidade inteira (e quer fazer isso À FORÇA!!!). E não é à toa que eles acabam sendo ridicularizados pelo resto da sociedade com uma certa frequência, né?
Então, não é esse tipo de postura que a gente tem que assumir. De jeito nenhum.
Mas transformar a religião num mistério absoluto, acessível SÓ a quem é praticante, acho que também não é o caso.

Angi disse...

é exatamente assim...todos querem divulgar, se mostrar... mas hj em dia tem muitos que dizem ser
de algum preceito, e começa a buscar algumas informações... e acha que é parte de uma grande fatia desse bolo....
e é bem ao contrario.... ele ta apenas tendo uma breve informação... assim... pela má interpretação do que foi "estudado"
passa a querer que as outras pessoas vejam e fiquem chocadas, com medo, e isso é bem o contrario de nosso real ideal.
e vc soube expressar isso muito bem... pq o que queremos é mostrar que bruxa, ou qualquer mago, sacerdote...
ñ foram feitos para serem temidos, ou iguais aqueles de filmes e historias em quadrinhos....fomos feitos de terra, água, ar, fogo, e eter...
como qualquer outro ser divino que percorre na terra, e sujeitos a passar uma mensagem, uma historia, um ensinamento muito mais completo sobre a vida
e como ter total comunicação com o universo...sendo ainda complexo para muitos que acham que mentes brilhantes são apenas os matematicos, esquecendo dos filosofos, historiadores
e que o poder de transcender o equilibrio, a meditação e o culto a todas as forças emanadas pelo universo... ñ é coisa do diabo... e sim
um grande ensinamento de quem sabe exatamente dividir, somar, e tbm abstrair...
nem todos os momentos são necessario fotos, ou filmagens...
por que toda a transformação e real comunicação
fica apenas no momento vivenciado e no pensamentos as enumeras sensações...

Asterion disse...

Na minha visão o paganismo é mais como uma ideologia (ou uma contra-cultura no caso do neopaganismo) que pode resultar em dois caminhos: num espiritualismo pagão (do qual me considoro adepto) ou numa prática religosa pagã. Os dois caminhos são distintos uma vez que a primeira se baseia na ciencia (obviamente não no sentido mais acadêmico e purista da palavra) e a segunda na religião propriamente dita: o conhecimento e a fé respectivamente. Bruxaria você já defniu tão bem inúmeras vezes que até seria redundante, mas sempre é bom frisar algumas coisas...
A humanidade já passou por diversas "eras sociais". Na idade média viviamos na era do SER: as pessoas eram nobres ou não. Com a revolução burguesa, passamos à era do TER: as pessoas tinham ou não. Na revolução tecnológica e a globalização com a queda de antigos paradigmas vivemos na era do PARECER: as pessoas parecem que são algo e ou não.

Rev. Breno Tiki disse...

Texto sóbrio e pontual, simples e correto

Parabens