quarta-feira, 2 de maio de 2012

Porque o Inferno deve ser um lugar frio e não quente.

Detalhe de Inferno de Fra Angelico. O
fogo, a punição e a danação eterna
são características essenciais desse
tipo de iconografia.
A concepção cristã de Inferno nem sempre faz sentido para uma mentalidade pagã. O que há em comum é que de modo geral, tanto pagãos quanto cristãos acreditam que existe um Submundo, um Mundo Inferior no qual podemos ir após morrermos, e de modo geral é um lugar de sofrimento. 

Para o pensamento judaico-muçulmano-cristão o Inferno é um lugar de punição e castigo pelos maus atos que foram feitos em vida onde arde um fogo eterno. Já para o paganismo greco-latino o Hades, o reino de Plutão, é um lugar frio onde as almas penam mas nem sempre são atormentadas. A noção de Helgardh, para os nórdicos, segue o mesmo estilo de submundo dos greco-romanos. 

Percebem a sutileza dessa diferença? Acredito que essas pequenas coisas dizem muito. 

O fogo quase sempre simboliza vida. O Inferno, por comportar todos aqueles que praticaram os mais diversos pecados, tais como a luxúria, a gula, a cobiça, os jogadores, faz sentido que seja quente. Pois esse Inferno é feito de excessos, de êxtases - e as doutrinas judaico-muçulmano-cristãs por serem religiões que pregam essencialmente o auto-controle, a austeridade e uma estrita e fria rigidez moral, quase sempre negando tudo aquilo que é físico e material não poderia ser diferente. Além disso, esse Submundo quase sempre é um lugar sem volta. 

Já o Submundo dos pagãos acima mencionados é um lugar frio, pois não existe vida. Primeiro porque não existe uma noção de "punição" pelos erros cometidos na vida (já os egípcios pensam um pouco, mas não de todo, diferente). Se existe uma "recompensa" para o post-mortem é para aqueles que foram heróis em vida. A  esses sim, é reservado um Paraíso, tido frequentemente como os Campos Elísios ou Valhalla para os povos do norte. Mas de modo geral, para aqueles que não tiveram uma vida gloriosa, o destino era o Hades. Esse lugar era frio e as almas vagavam eternamente, sem punição ou castigo, mas também sem ambições, desejos, vontades. Logo, sem vida, e então, sem calor, sem fogo. 

Para descontrair: O submundo de Hades no desenho
Hércules, da Disney. Para os fãs como eu. 
Outra diferença essencial é que existem várias histórias de personagens que desceram ao Hades e retornaram para a vida terrena. É o caso de Orfeu, Psique, Perséfone, Hércules e outros. E exatamente por isso é que o "Inferno" neopagão é visto como uma interessante metáfora para os praticantes do paganismo do mundo contemporâneo: o "Inferno" é o nosso próprio submundo, nosso interior, nosso mundo de sombras seguido de uma total ausência de vida. Para chegarmos até lá precisamos sacrificar, nos despir de tudo aquilo que é vivo e belo, para percorrer um caminho doloroso e só então encontrar algo que procuramos. É dessa forma que voltarmos quase que literalmente  renascidos. Com novos olhos para uma nova vida. 

Logo, o calor da vida e do êxtase não deve ser punido ou tido como "mau", mas reconhecido como sagrado e respeitado por isso. E a morte no neopaganismo não é o ponto final de uma reta, mas uma constante de um círculo ou de uma espiral. 

São coisas muito sutis, mas que dizem muito. 

5 comentários:

Vítor André Ferreira Monteiro disse...

Temos de nos lembrar que o contexto ajuda, Indo-Europeus viviam em locais ou frios ou temperados, onde assim o frio poderia farecer o pior, mas os Semitas viviam em locais quentes que tinham vizinhanças desabitadas ainda mais quentes portanto isso seria o pior. Além disso os Judeus acreditavam inicialmente num só submundo pra bons e maus, Cheol, ao estilo do Hades clássico, mas já na era cristã criaram uma subdivisão chamada Genna que era fogoso. Mas porquê fogoso? É que Genna era uma lixeira de incenaração que havia nos tempos Romanos, logo os Judeus Palestianos criaram uma espécie de Tártaro, talvez por influência Romana, que pega nesta imagem, local de queima do "lixo". É esta a origem do inferno judaico-cristo-muçulmano.

roberto quintas disse...

sem falar nos 5 rios do inferno: estige, lete, flegetonte, cocito e aqueronte.

Asterion disse...

Faza todo sentido pensar no submundo como um lugar de frio - gélido como a própria morte.

Carlos Taw's disse...

O mundo inferior dos gregos é muito complexo , constituido de rios e tipo diversos de localidades, suponho que o local mais profundo do Hades, o Tartaro, em algumas definições é bem parecido com essa idéia ignea de inferno que as religiões monoteístas citadas determinam como verdade...

Robson Madredeus disse...

É interessante também mencionar que Odin para conseguir beber do hidromel que lhe daria sua grande sabedoria, precisou mergulhou ao submundo, onde este ficava guardado. Ele se transformou em serpente, roubou o Hidromel e saiu de lá transformado em Águia. Serpente: simbolo das forças telúricas, Águia: simbolo da alma livre. Mergulhar nos planos inferiores da alma é fundamental para a libertação do ser.