sábado, 19 de maio de 2012

Sobre a morte de Pã.

Detalhe de Pã e Sirinix
(Pousin). Pã, na mitologia
clássica é marcado pelo êxtase,
pelo selvagem e pelo animalesco
Conta-se que na época do reinado de Tibério, que reinou entre o ano 14 e o ano 37 da nossa era, ouviu-se um grito que ecoou por todo o mundo greco-romano: "O grande Pã está morto!". Esse grito foi seguido por choros, gemidos e lamentações de todos os lugares.

Vários escritores relataram o caso, sendo o primeiro deles o grego Plutarco quando escreveu a obra "Sobre o declínio dos oráculos" (De defectu oraculorum). Segundo Plutarco, Tamo, o capitão de uma embarcação que navegava em alto-mar nas águas do Egeu, próximo à Grécia, sentiu, abruptamente, todos os ventos pararem. Ouviu por duas vezes uma voz chamar o seu nome, e com medo disso, só resolveu responder na terceira vez. Tratava-se de uma voz desconhecida que ordenou ir até certo local, alto, e quando chegasse nesse lugar, nas proximidades de onde navegava, deveria gritar em alto e bom som que o grande Pã havia morrido. Ele fez isso, sua voz ecoou por todo o mundo, seguido por gritos de tristeza de todos que puderam ouvir essa triste notícia. O imperador Tibério, quando ficou sabendo da história, mandou chamar o tal Tamo, e consultando aos sacerdotes, descobriram que tratava-se do grande deus Pã, deus de chifres, filho de Mercúrio e Penélope.


Mais tarde o cristão Eusébio de Cesareia em sua Preparatio evangelica no séc. IV também escreve sobre o assunto quando conta a história do cristianismo. Para Eusébio, a morte de Pã foi o anúncio da "verdadeira" religião que era a religio cristã. Mas eles não foram os únicos que escreveram sobre isso.

O que esqueceram de comentar é que já no século seguinte o geógrafo e viajante grego Pausânias verificou que templos, cavernas e montanhas sagradas ao deus Pã ainda eram muito visitados.

, próximo a um bode, animal
relacionado à virilidade e a sexualidade.
Não é a toa que a imagem do Diabo da
iconografia cristã inspirou-se nesse
personagem pagão. Afresco de
Pompéia.
O mito seguiu adiante entendido dessa forma, como um triunfo do cristianismo sobre a derrota do paganismo. Até o renascimento, quando o Mundo Antigo retorna com todo o seu esplendor no mundo ocidental. Mundo, que ainda assim é cristão. Já no séc. XVII o inglês John Milton reforça a lenda. Mas para Milton, a morte de Pã é algo triste, pesaroso, não é uma vitória:

(...)
Pelas praias, além, pelas montanhas,
Triste como um gemido, ecoa um grito.
Por vales verdejantes, entre as folhas,
O gênio antigo suspirando foge,
Choram as ninfas nos bosques desoladas.

No século seguinte, Schiller escreve uma poesia manifestando seu pesar sobre o desaparecimento da poesia dos tempos antigos. Em resposta, a inglesa Elizabeth Barrett Browning reforça a história da morte de Pã:

Escultura de também de
Pompéia, séc. I. Interessante
notar que não existe, em
momento algum, na Bíblia,
relatos de que o Diabo
é um personagem masculino,
com chifres e pés de bode.
A inspiração, então,
torna-se evidente.
 
(...)
O mundo deixa além as fantasias
Que, em sua juventude, o embalaram
E as fábulas mais belas e mais vivas
Todas perecem em face da Verdade.
De Apolo o carro terminou o curso!
Olhai de frente o sol, olhai, poetas!
E Pã, e Pã é morto.

Mas para Browning, Apolo já não dirige mais a carruagem do sol, a Verdade é o cristianismo, e Pã, bom, Pã morreu, e isso é tido como bom.

Com o advento das ciências e das artes de influência clássica, bem como ao gradual declínio do poder do cristianismo na Idade Moderna, o romântico inglês Wordsworth já confessa sua nostalgia pelos tempos antigos:

(...)
Quisera em que um pagão ainda eu fosse,
Por velhas ilusões acalentado.
A paisagem seria bem mais doce,
E o mundo menos desolado.

Particularmente gosto muito dessa poesia. Wordsworth preferia ter acreditado no que os cristãos chamaram de "ilusão". O mundo seria melhor e mais vivo, crendo nessa "ilusão". E eu tenho certeza que muitos de nós concordam com ele.

Muitos anos depois, em Portugal, Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa), já dá outra leitura para o mito:

O Deus Pã não morreu,
Cada campo que mostra
Aos sorrisos de Apolo
Os peitos nus de Ceres —
Cedo ou tarde vereis
Por lá aparecer
O deus Pã, o imortal.

Não matou outros deuses
O triste deus cristão.
Cristo é um deus a mais, 
Talvez um que faltava.
Pã continua a ciar
Os sons da sua flauta
Arte de Eric Puhier, 2005.
Aos ouvidos de Ceres
Recumbente nos campos.

Os deuses são os mesmos,
Sempre claros e calmos,
Cheios de eternidade
E desprezo por nós,
Trazendo o dia e a noite
E as colheitas douradas
Sem ser para nos dar o dia e a noite e o trigo
Mas por outro e divino
Propósito casual.

Eu tenho certeza que muitos aqui concordam com Ricardo: Os deuses antigos tentaram ser subvertidos há muito tempo, mas eles sobreviveram nas histórias, na literatura, nas artes, na arquitetura para só então, há relativamente pouquíssimo tempo, retornar em seu esplendor a fim de receberem não só poesias, mas mais uma vez vinho, incensos e orações.

"Pã" vem do grego παν e significa "todos" ou até "tudo". Por ser um deus extático, selvagem, da natureza ele pode simbolizar o paganismo em si. A "morte de Pã", por fim, é uma metáfora para uma suposta "morte" do Paganismo. Mas como dizem que a mentira tem pernas curtas, hoje estamos aí para comprovar que Pã não morreu, e continua muito bem vivo. Como sempre.

4 comentários:

Sunny disse...

Basta navegar na internet e veras
Pan esta vivo, olha quantos blog de Tarot!!! Tambem prefiro ser pagão...
Parabens!

Leo Carioca disse...

Os antigos deuses e deusas nunca morreram por completo. Eles apenas tiveram que ser escondidos em algumas ocasiões, quando foi preciso.

Jordan Moraes Costa disse...

Isso me lembra um trecho d"Os Corvos de Avalon" de Marion Zimmer Bradley e Diana Paxson, em que Cathubodva no corpo de Boudicca fala "Os nomes mudam mas enquanto mulheres choram e homens odeiam, eu estarei aqui."

Ever Faun... disse...

eu ia comentar a mesma coisa que Jordan, no exato momento da leitura do post veio a mente este trecho do livro.
Inquieto-me neste questionamento, os Deuses nunca deixaram de existir, apenas pararam de ser cultuados, e mesmo assim o ciclo da vida continuou. O sol nasceu e se pôs, e quem mergulhou nas sombras foi a humanidade.

Odir parabéns, sempre.. principalmente ao gosto que deixas nas entrelinhas...