terça-feira, 5 de junho de 2012

Entenda a confusão que foi feita sobre a "proibição do candomblé" em Piracicaba.

Diana voltando da Caça, de Peter
Paul Rubens. No paganismo clássico
o animal sacrificado era visto como
uma oferenda honrada, um verdadeiro
agradecimento pela fartura e pela
fertilidade dos rebanhos. Hoje, no
africanismo, não é muito diferente.
É uma pena que muitos tenham de recorrer ao sensacionalismo para fundamentar suas crenças. Esse tipo de confusão, proposital ou não, gera uma onda de reivindicações, protestos e debates acalorados que resultam, geralmente, em pouca coisa além de perda enorme de energia que poderia estar empregada em fins mais construtivos e menos destrutivos. 

Nos últimos dias circularam pelas redes sociais várias notícias sobre uma tal "proibição" do Candomblé na cidade de Piracicaba (São Paulo). Todos reagiram, evidentemente, com muita indignação e muito rancor, demonstrando todo o ódio possível. 

Como exemplo, tomei essa notícia, então, que começou a circular pelo facebook e chegou na minha timeline:



Em tom catastrófico e apocalíptico, isso acabou repercutindo (e também foi fruto de) uma série de outras reportagens nos mais diversos blogs e sites, onde deu-se um CTRL+C e um CTRL+V nas mesmas informações, onde poucos se deram o trabalho de conferir se o que estava lá escrito era verdade, estava atualizado, qual a origem das "acusações" etc. Uma simples busca no google mostra uma onda de "matérias", feita nos últimos dias, sobre o assunto: 






Pesquisando esse assunto mais a fundo, percebi que isso é história antiga: trata-se do Projeto de Lei 202/2010 que não proibia o culto em sim, mas tão somente algumas de suas práticas fundamentais: o sacrifício animal, o foi resolvido no final desse mesmo ano. Ainda não entendi porque essa história foi retomada só agora, mas vamos lá: 

Fazendo uma rápida busca aqui, no site da câmara dos vereadores de Piracicaba e digitando, na busca, o termo "sacrifício de animais" é possível entender como o caso foi solucionado. Dando um breve resumo, foi basicamente o seguinte: a proposta veio do vereador Laércio Trevisan Júnior (PR), e foi aprovada. Mais tarde o prefeito Barjas Negri (PSDB) veta o projeto de lei, que vai por sua vez para a câmara que precisava de 9 votos para derrubar o veto do prefeito. O veto ganha 5 votos favoráveis (para o proibição ser cumprida) contra 7 contrários ao veto (para a proibição não ser cumprida). O veto é mantido, e o projeto de lei não torna-se lei, fica engavetado. Ponto final, tudo continuou como estava, nada foi proibido. Na justificativa, o prefeito argumenta que o projeto de lei ia contra aos incisos dos artigos 5º e 60 da Constituição Federal, estes, relacionados à liberdade religiosa e a garantia da proteção, por parte do Estado, por suas liturgias. 


O Sacrifício de Isaac (Caravaggio).
Pra quem não sabe, Javé também
pedia por sacrifícios de sangue. 
Abraão, no final da história, 
salvou o fiho. Mas antes disso,
muitos animais foram dados em
Holocausto ao Deus dos hebreus.
Portanto, o título "Candomblé é proibido em Piracicaba" é um tanto quanto exagerado. Ainda também não compreendi qual a explícita relação da bancada evangélica nesse processo - e, ao menos, quem redigiu pela primeira vez esse texto deveria ter citado quais suas bases para relacionar aos evangélicos, essa história. Pode ser que tudo tenha partido de sociedades protetoras dos direitos dos animais, não estando necessariamente nada relacionado aos evangélicos. E deixo claro: isso é minha hipótese, não tenho nenhuma verdade absoluta para professar sobre essa história. Não estariam, então, muitos pagãos fazendo exatamente o que abominam? Usando da religião de alguns como bode expiatório de problemas que de religiosos, pouco tem? 

Agora, é evidente que ninguém aqui é ingênuo a ponto de acreditar que esse tipo de iniciativa por parte da bancada evangélica seja impossível. Não seria a primeira vez nem a última: mas para atribuir à essa bancada esse tipo de acusação, precisaríamos de provas e bons argumentos, e não foi o que ocorreu nessa vez. 

E sobre o sacrifício animal, bom, eu não me utilizo dessas práticas pois isso não faz parte da minha liturgia religiosa. Mas não condeno quem o faz, compreendo as mentalidades tradicionais quando utilizam-se do sacrifício do sangue (e até acho engraçado quando monoteístas demonstram seu asco sobre isso, pois esquecem-se que no Antigo Testamento Javé também pedia sacrifícios para seus filhos). 

Detalhe de Minerva e o
Centauro
(Botticelli). Que a
Justiça seja feita nessa história.
Até acho hipócrita, inclusive, quando ninguém vê problemas com os pintinhos que mal saem do ovo respirando formol para ficar mais amarelos. Ninguém também tem problemas com o fato deles serem descartados, no processo de seleção, pra fazer salsicha. Muito menos quando eles crescem, passam anos em cubículos pra que não possam se movimentar e engordar o máximo possível. E quando arrancam os bicos das galinhas para que elas não possam filtrar o alimento e, sob stress, não comam umas às outras, ninguém também tem nenhuma objeção quando se come isso no almoço do domingo. Sobre os sacrifícios nas esquinas? Bom, isso não é regra. Conheço umbandistas que condenam esse tipo de prática e preferem fazer seus ritos dentro dos seus terreiros.

E até onde eu sei, os animais sacrificados em rituais religiosos não podem morrer sentindo dor, vivem uma vida como animais normais, em viveiros, caminham, circulam, se reproduzem... E a carne é compartilhada por todos os membros da religião, e quando não, doam o alimento para comunidades carentes. Mas com isso as pessoas tem problemas? Me desculpem, mas isso é hipócrita, ridículo e um argumento furado e preconceituoso. O animal tem uma "sobrevida" de agonia e tristeza e todo mundo acha normal, pois é em benefício próprio. Quando tem uma vida digna, morre sem dor, eles acham errado! Engraçado, não? 

Pra terminar, fica a sugestão: enquanto as pessoas continuarem vendo cristãos como inquisidores cruéis e malévolos, pagãos continuarão sendo visto como ateus ou ignorantes, bruxas continuarão sendo vistas como supersticiosas, árabes como assassinos, umbandistas como mal-educados que deixam seus sacrifícios nas esquinas, espíritas como sensacionalistas e aí por diante. Acredito que já passou a época dos estereótipos, se queremos respeito é hora de começar a respeitar. 

Caso queiram saber mais sobre a história de Piracicaba, leiam mais aqui ou aqui

Pra quem quiser saber mais sobre a questão dos sacrifícios e das oferendas no neopaganismo, veja esse texto: Sobre o porquê das oferendas.

6 comentários:

Mauricio Scienza disse...

Isso me lembra de uma imagem da terra nos anos 70 e uma nos anos 2000, divulgada pela NASA, em que colocaram a imagem dos anos 2000 como sendo de 1970, e editaram a foto pra fazer uma nova dessa epoca e justificar o tom apocaliptico dos ambientalistas. Mais divertido e que o povo nao se dava o trabalho de perder 15 segundos pra pesquisar no google (esse foi o tempo que eu levei pra achar as duas fotos originais). So... povo é burro e não pensa. o fato de estar "incluido digitalmente" não muda essa realidade. VC ate pode tentar ensinar o homem a pescar, mas se ele quiser passar a vida inteira embaixo da sombra de uma árvore, não há o que vc possa fazer =P

Robson Madredeus disse...

Parabéns mais uma vez Odir. Cada vez mais tenho certeza que você compreendeu exatamente o que é ser místico e esotérico nesta era. Uma visão para o futuro, para a solução deste problema que a séculos empurramos com a barriga. Continue meu caro, este é o caminho.

Sweet Dreams disse...

Parabéns sobr eo texto da "proibição do candomblé, mto esclarecedor...namaste Luna

Zazyel disse...

Parabéns pela excelente postagem Odir!

Não faz muito tempo, eu também me obriguei a escrever alguma coisa sobre uma dessas campanhas falácias (contra o então Dep. Edson Portilho) que tratava do mesmo tema, porém quando ocorreu aqui no RS.

E, apesar de também desaprovar o sensacionalismo e manifestação de ódio que esses eventos disparam por parte dos religiosos, não posso deixar de observar que é proporcional aos meios utilizados pelo lado oposto, mesmo quando tratam-se de organizações em defesa dos animais sem caráter religioso.

Pelo que vi, as motivações desse vereador não tinham origem evangélico-fundamentalista como se propagou, mesmo que o preconceito religioso ( vide o discurso do mesmo: http://www.youtube.com/watch?v=uk77T7N78gk ) fosse inerente à infeliz proposição que ele fez.

Uma vez que o sacrifício animal é uma das bases da liturgia do Candomblé, se essa lei fosse mesmo aprovada, o Candomblé estaria sim proibido na cidade, sob aplicação de multa inclusive, e se justificaria o título das "notícias".

De toda forma, o que aconteceu em Piracicaba (assim como em Porto Alegre anos atrás) é um excelente exemplo de que o importante é a mobilização legal sobre a garantia do livre culto. E não a promoção de uma nova "guerra santa".

Lucas da Rocha disse...

Odir,

vale a pena lembrar que, dentro do Neopaganismo, há personalidades contra todo o tipo de exploração animal. Como a Emma Restall Orr, representante do Druidismo, que segue uma filosofia de vida vegana (excluindo toda e qualquer forma de exploração de animais não humanos, seja para alimentação, para vestimenta, para testes etc.), e que é sempre muito coerente ao dizer que, sob seu enfoque, todas as práticas são mantidas de forma coerente ao chamado abolicionismo animal.

Além de que, pelo que me consta, há lideranças no Candomblé que estão mudando sua postura em relação a assassinatos rituais.

Abraço.

produtos de qualidade disse...

haaaaA sim, está claro aí a guerra contra os cristãos já está atingindo o absurdo da paranoia e da teoria da conspiração, kkkkk, só rindo mesmo, essa é uma noticia totalmente falaciosa com intenção de envenenar o povo contra uma cultura tão legitima como qualquer outra (a evangélica) desde quando uma lei municipal tem o poder para passar por cima da CF? é uma lei, que se for verdadeira não é dotada de eficacia, todos podem, no território nacional praticar religião que quiserem mesmo se uma lei federal fosse aprovada, pois essa não é maior que a CF. só rindo mesmo. Aliança Para a supremacia cristã kkkkk, na historias os evangélicos foram e são altamente perseguidos, ainda hoje no nordeste nas terras de "santo padin ciço" todos os dias igrejas evangélicas são apedrejadas.....ACORDA gente é só mais um troller com intenções políticas do PSOL. Kkkkkk. Desafio aos manifestantes de plantão achar essa lei o diário oficial de Piracicaba. segue:http://www.piracicaba.sp.gov.br/goto/store/categoria/diario-oficial--2013. Essa referida lei nada tem a ver com religião apenas multa quem deixa restos de animais em lugares públicos do município, não está na lei referenciado-se a nenhum momento a religiões afro-Brasileiras, vai multar açougues, matadouros, ou qualquer pessoa que deixe animais mortos em via publica, se ha o sacrifício de animais deve haver templos reservados para isso e mesmo assim, esses sacrifícios se forem descartados, devem respeitar as normas sanitárias. Antes de mais nada, como cristão, acho que cristãos não deveriam se meter em política, Jesus deixou isso claro na frase "dai a Cesar o que de Cesar dai a mim o que é de mim” . Não voto no PSC porque cristão não é partido, é a filosofia de amar ao próximo, Sou cristão e Marco Feliciano não me representa.