sábado, 2 de junho de 2012

Paganismo e Cristianismo: seria possível uma convivência pacífica? (Parte 1)

O martírio dos cristãos ou A última oração (Jean-Léon Gérôme, 1883). Se os cristãos foram perseguidos pelos pagãos inicialmente, o cristianismo não demonstrou piedade com aqueles diferentes dos seus pelos séculos que se seguiram.
Poderíamos começar falando disso retrocedendo ao ano 300 E.C. Nesse século, de uma religião proibida e perseguida, o cristianismo torna-se a religio oficial do Império Romano: ou seja, tão logo o cristianismo foi reconhecido como religião ao lado do paganismo, logo teve de se sobrepôs à ele, sendo que os pagãos já antes do virar do século, já foram proibidos de praticar seus cultos abertamente. 

Falando de modo bem abrangente, de 303 à 311 o cristianismo sofreu uma das suas piores perseguições. Já em 312 o cristianismo passou a ser tolerado, e essa é comumente tida como a data da conversão do imperador Constantino. Em 313 as perseguições são encerradas por Galério e em 315 os bens confiscados são devolvidos à cristandade ainda em formação. Em 324 é o paganismo que é tolerado: a política de Constantino no que toca à religião é basicamente fomentar a construção de igrejas cristãs, divulgar a ideia do cristianismo e combater as heresias. Mas interessante notar que Constantino nunca perseguiu pagãos, nem nunca impôs o cristianismo à força, era apenas sua religião pessoal, até mesmo porque o paganismo ainda era maioria no Império. O que Constantino fez foi penas perseguir cristãos que seguiam crenças diferentes da sua e  dos seus "irmãos" cristãos. Mas não nos deixemos enganar, foram por poucas décadas, então, que cristianismo e paganismo conviveram a pé de relativa igualdade. 



Moeda de bronze de Juliano, de
Antióquia, séc. IV. Juliano, "o
Apóstata" é frequentemente tido
como um herói por alguns neo-
pagãos, pelo seu esforço em preservar
o antigo paganismo. Seu aniversário de morte
é em 23 de junho. 
Já em 356 os pagãos são proibidos de adorarem seus deuses em público por Costâncio II, filho de Constantino, mas ainda é possível debater abertamente sobre o assunto. Em 361, Juliano toma o poder e tenta resgatar o paganismo, mas morre dois anos depois. Os imperadores que se seguiram, por sorte (ou azar!) eram cristãos. E é dito isso porque a religião não era um critério importante para a escolha do novo imperador: o cristianismo como uma religião oficial era uma consequência, e não uma exigência: foram razões de oportunidade, urgência, interesses pessoais ou corporativos, o talento ou a maleabilidade dos candidatos, razões muito mais importantes que razões religiosas

Em 392 Teodósio proíbe definitivamente qualquer prática pagã, mas Eugênio, no Oriente, também tenta reavivar o paganismo, mas morre decapitado por Teodósio. Algumas décadas depois do ano 400, funcionários pagãos já não podiam mais exercer cargos públicos. 

Panteão, em Roma, foi originalmente construído por Agrippa em 126 E.C.
para reunir todos os deuses do Império. Com o cristianismo, o templo
foi convertido em igreja: Esse tipo de tolerância é incompreensível na
mentalidade cristã. 
Por séculos o paganismo conviveu com as mais plurais religiões do Império e fora dele, respeitando-as e incorporando os deuses estrangeiros ao seu Panteão, mas o cristianismo não conseguiu fazer o mesmo com algumas décadas. 

Essa é uma história oficial, de Estado e de homens públicos. E desde então, se paganismo é sinônimo de idolatria, ignorância, superstição... Todo mundo sabe que quem conta a história são os vencedores. 

Além disso, isso tudo é a primeira parte de um raciocínio que não pode ser colocado em um texto só. Depois de ler essa pequena introdução frente a pergunta se pode existir uma convivência pacífica entre o paganismo e o cristianismo, podemos ser levemente inclinados a dizer um sonoro não, mas se assim foi no passado, não precisa ser da mesma forma no presente. No passado houve a instituição da Inquisição, a escravidão e o anti-semitismo. Hoje eles também existem (assim como a oposição paganismo-cristianismo), mas grande parte das pessoas já os vê com outros olhos e o passado, então, se transformou no presente. Por que quando falamos em paganismo e cristianismo o passado continuou até o presente? 

Vamos exercitando nosso pensamento. E aguardem os próximos capítulos. 

14 comentários:

Samanta Tanakht Rodrigues disse...

Não gosto do cristianismo, tampouco do Javé. Mas, não me enchendo o saco ou prejudicando, direta ou indiretamente, tô pouco me lixando. #prontofalei

Manuel Araújo disse...

Acho que é algo que acontece mais nos US, onde se os Evangélicos têm se sentido mais ameaçados que esse ódio se gera. Porém isso é uma coisa que se alastra.
Não gosto da natureza 'power-hungry' das igrejas, nem concordo muito com o monoteísmo, mas sei respeitar.
Meus amigos não falam mal das minhas escolhas relgiosas, nem eu das deles. Agora se for um desconhecido a atacar a história é diferente.

Ariadne Duvessa disse...

Andam devolvendo na mesma moeda o q recebem... e este não é um pensamento coerente a nós, já que diferente "dos outros", exercitamos com certa frequência nossa massa cefálica (no tocante religioso - não nos inchertam informações prontas. Vivemos diariamente o aprendizado a ser absorvido)... bom senso, respeito e frases em seus devidos lugares, impondo-se com respeito e sem ofender a fé alheia (que a meu ver, independente da q for, existe um ser humano por trás dela.. um irmão, um ser gerado pela mesma Terra que nos voltamos em nossos rituais) sobre o q estes dizem e fazem do/sobre o paganismo... Rebater "como a Lei de Talião" nunca será o caminho. Diálogo, por mais difícil e demorado que seja, constrói. Ódio por ódio, logo estaremos nos atacando/matando com paus e pedras, nos escondendo em cavernas... --'

Anônimo disse...

Eu sou da opinião que todas as religiões são válidas e devem ser respeitadas. Independente do nome que cada uma dá às deidades, no fundo são só desdobramentos da nossa mãe natureza e de seus fenômenos. Deus é o mesmo, a energia é a mesma, o que muda é a nomenclatura e o estilo de culto. O problema não é a religião, é a intolerância e a mania de querer impor sua ideia aos demais.

Marivalda Gardelio disse...

Já passei por isso várias vezes, por eu ser espírita.. Mas a que mais me doeu, foi quando um garoto disse que jamais iria comer algo das mãos de uma filha do mal.. Um garoto de oito anos gritou isso no meu portão.. porque eu estava destribuindo doces no dia de Cosme e Damião.. Sempre gostei de fazer isso, apenas por fazer.. E sempre pedi para que as crianças fossem abençoadas com saúde, etc e tal.. Quando eu ofereci pro menino, eu não sabia que ele era evangélico.. rsrsrsrs!! Mas o que me preocupou, foi a forma com que ele falou as coisas.. As palavras e os gestos dele de raiva.. Como se eu estivesse oferecendo um veneno.. Nossa, imaginei que tipo de adulto ele se tornaria...

Ana Paula Migli disse...

Sabe, concordo com isso e tento sempre respeitar e não sendo possível respeitar, faço o possível pra ignorar. Mas sabe, me sobre uma revolta quando vejo tudo o que foi destruído por todos esses séculos, quanto conhecimento, quanta beleza presa no passado... o quanto sofremos por culpa de religião. Sei que o cristianismo foi distorcido, e que serviu só de ferramenta para homens nada cristãos.Mas sendo honesta, a raiva existe. Especialmente assistindo tanta tristeza nos olhos das pessoas. Tenho vontade de chorar toda vez que estou aqui pesquisando sobre os 'contos de fadas' e vejo como o homem consegue transformar beleza em destruição.

Carina Tegner da Luz disse...

Um famoso político do passado dizia uma frase "todos os "ismos"" são perigosos. Concordo plenamente, principalmente ao que se refere ao fanatismo. Penso que o olhar crítico sobre tudo e a liberdade proporcionam uma melhor avaliação de tudo. No que se refere a religião, respeito é tudo. Temos que respeitar todas as religiões, caso contrário não teremos respeito com a nossa. Dentro do próprio paganismo existe uma guerra entre grupos, uma guerra por conhecimento, uma guerra por hierarquias. Isso sempre me deixou muito triste. Como o paganismo vai ser respeitado se dentro do próprio paganismo existe e, sempre existiu uma guerra pelo poder ? Odir gosto muito dos seus textos e, admiro muito a clareza com que você escreve. Sou contra qualquer forma de fanatismo para mim é sinônimo de falta de raciocínio. Existe beleza e conhecimento em todas as religiões, assim como existem coisas ruins, assim como no paganismo ! Para pensar, realmente.Grande abraço

roberto quintas disse...

a resposta parece bem simples ao vermos a quantidade de textos, revistas e livros de cristãos atacando o paganismo, a bruxaria e a wicca. o cristianismo não é conhecido por sua tolerância e respeito, a despeito dos ensinamentos dos evangelhos. desde 2010 temos visto no brasil uma crescente resistência e movimentação por parte dos cristãos contra a legitima luta dos homossexuais pare terem seus direitos protegidos e respeitados. de tempos em tempos vemos ataques de cristãos contra templos de religiões da diáspora africana. de tempos em tempos vemos cristãos praticando atos de terrorismo contra imagens. estamos em ano eleitoral e vemos a CNBB por suas mangas pra fora, de novo. eu estou disposto a mudar [e estou fazendo isso] minhas pendencias com os cristãos [e ateus] a partir do momento que houver alguma contrapartida por parte deles. respeito é para quem tem.

Anônimo disse...

O Cristianismo é endogenamente exclusivista e totalitário, não há convivência possível - este paraíba percebeu a coisa na discussão dos comentários:

http://parahybapagan.wordpress.com/2011/03/12/pos-carnaval/

Charlie Drews disse...

Boa reflexão Odir..eu, como BRASILEIRO que sou sempre achei essa rígida separação entre paganismo e cristianismo uma coisa por assim dizer bem EUROCENTRICA, visto que o Brasil, parafraseando Oswald de Andrade, é a terra da ANTROPOFAGIA, ou seja, aqui não há divisões, mas sim misturas, uniões e sincretismos. Um bom exemplo de que é esse "caminho do meio" é possível é a UMBANDA...varios cristãos odeiam a Umbanda dizendo ser elaum "culto pagão", já os neopagãos do orkut e facerechaçam a Umbanda dizendo que ela "é cristã"...Na verdade é um culto hibrido, onde elementos pagãos afro-ameríndios convivem pacificamente com elementos cristãos (seja do catolicismo, seja do kardecismo). Então, oa meu ver, um Umbandista já superou essa dicotomia pagãoXcristão, pois eel reza ao mesmo tempo pra Cristo, pors deuses africanos, para as entidades indígenas e para quem mais vier, chocando assim assim não só aos cristãos tradicionais como também aos NEOPAGÃOS. E viva a ANTROPOFAGIA!

Diego Vilaça disse...

Eu, particularmente, odeio o Cristianismo, mas não odeio Cristo. Odeio pessoas que se dizem devotas de Jesus e não seguem seus ensinamentos, não tem uma relação verdadeira com o deus delas, apenas se guiando pelo que outros homens escreveram em um livro que se contradiz em N momentos e que prega o mal estar dos outros e a intolerância. Eu sou apaixonado pelas pessoas que seguem fielmente a filosofia de Jesus, eu adoro conversar com elas e ver como elas falam com paixão do deus delas, assim como eu falo do/s meu/s. E isso independe da vertente cristã. Eu já conheci evangélicos que eram apaixonantes, que gostavam de aprender sobre tudo, e já conheci espíritas (que, teoricamente, são mais "esclarecidos") achando que só pq vc é pagão vc tem um obsessor na sua cola. Contra esses fanáticos religiosos que não entendem nem o que seu próprio deus pregava eu sou radicalmente contra, não contra eles, contra a ignorância deles. Por isso que eu me disponho a um debate com eles, desde que eles estejam realmente afim de debater. ;)

Dionaea Muscipula disse...

Sou ressentida com o cristianismo e tudo que foi feito em nome desta crença, os missionários que continuam a converter índios "salvando suas almas", todos aqueles que choram por não caberem nas normas cristãs, as pessoas que são condenadas pelo seu amor "proibido", tantas vidas castradas e arruinadas, todas as mulheres que se sentiram sujas menstruadas,as mulheres que são mal vistas por não serem dóceis e submissas. Estou para ver na face da terra um evangélico ou católico...ou afim, que aceite sem olhar de reprovação quando se diz " não sou cristão, sou politeísta". Não sou a favor de generalizar, e sei que certas pessoas se dizem cristãs para não serem importunadas, e que isto de dizer " sou cristão" virou sinônimo de ser uma pessoa do bem, e dizer o contrário, uma pessoa que cultua o diabo deles. Este diabo parece que terá muitas almas...

Samanta Tanakht Rodrigues disse...

Então, eu penso uma outra coisa também - que a discussão de ser tolerante etc não parte dos cristãos e sim dos não adeptos à religiões abrâmicas. Sociabilidade sim, mas ditadura do politicamente correto, tô fora.
Eu não sabia que o caso da professora evangélica tinha sido arquivado, e isso é um absurdo inominável.
Também me sinto assim, Dionaea Muscipula - roubada historicamente pelo cristianismo. E isso me enche e me dá raiva sim. Me irrita ver bancada evangélica/cristã, me irrita CNBB apitando no legislativo - dentre outras coisas.
Mas sabem, o que mais me tira do sério é que a maioria dos não adeptos à religiões abrâmicas gasta muito mais tempo postando coisas anti cristãs, gritando que a Deusa foi injustiçada, divulgando piadinhas dos ateus radicais aqui no face e tantas outras coisas assim do que realmente fazendo algo por sua crença.
Quantos bruxos, sacerdotes e o caramba a quatro tem por aí e quantos são os que estão realmente fazendo alguma coisa? Quantos estão se preocupando com sua crenças ao invés de ficar gritando que Jesus é uma farsa? De boa, com todo respeito, que se f*d@m os xiitas, manifestantes e justiceiros anti cristãos - meus esforços, minha energia e dedicação estão focadas na minha fé, no meu caminho sagrado, nos deuses que me guiam.
Longa vida a nossos deuses, que nossas mesas sejam sempre fartas e que nossa jornada, nós filhos dos deuses antigos, seja sempre próspera. o//

V----V disse...

Odir, fico aqui pensando que do lado dos pagãos ou neopagãos (onde eu me enquadro também) o grande problema não seja bem o crisitanismo "per se" e sim a obrigatoriedade e imposição do mesmo sobre todo mundo quando é novo ainda.Por esta idéia de "obrigação" e "imposição" que todos se revoltam para com este ao encontrarem outras vias de espiritualidade ou religiosas...