quinta-feira, 28 de junho de 2012

Paganismo e Cristianismo: Seria possível uma convivência pacífica? (Parte 2)

Detalhe de Pandora, de Waterhouse.
A surpresa de Pandora ao abrir sua
caixa não é diferente do sentimento
do neopagão ao perceber que o
paganismo só sobreviveu ao que
muitos entendem como seu
"inimigo": o cristianismo.
Esclarecido no primeiro texto como foi o recebimento do cristianismo pela cultura pagã e vice-versa, vamos dar um pequeno salto histórico para o mundo medieval.

A primeira vista, somos levados a pensar que o paganismo, então, "morre" com a ascensão do cristianismo, mas se estudarmos mais a fundo essa questão, esse argumento sem dificuldades torna-se insustentável, pois veremos que paganismo e cristianismo, a partir do surgimento desse último, sempre relacionaram-se mútua e dialeticamente, ainda que sempre em segredo. Se hoje o neopaganismo e muitas vertentes da bruxaria de fato desempenham um resgate do tempo passado, só é um resgate pois esses conhecimentos se enfraqueceram ao longo do tempo, chegando até nós fragmentados, perdidos e até renomeados. O caso mais simples, e há muito comentado é o caso das festividades religiosas como o Natal, a Páscoa, as festas de São João e tantas outras, que mesmo que entendemo-las como cristãs, são em origem, de fato, pagãs. Esse é um clássico exemplo da convivência paganismo-cristianismo, mas entraremos a fundo nessa questão a partir de outros exemplos.


Como visto na primeira parte deste ensaio, 395 é o ano "oficial" da morte do paganismo. Porém, no período de 443-452 são atestadas as permanências de procissões pagãs no Concílio de Arles. Em 642-653 Chisdavinto na Espanha acusa homens e melhores de causar tempestades e destruir as colheitas (clássicas acusações dos feiticeiros da Antiguidade e das bruxas na Idade Média). O mesmo no Concílio de Trulla em 789. Lá em 742 no Édito de Carlomano ainda veremos as proibições de práticas "supersticiosas", mesmo que “cristãs”. Ora, se existem documentos oficiais coibindo certas práticas, isso é um exemplo evidente de que elas ainda existem.

O Diabo batizando um bruxo do
Compendium Maleficarum, 1610. A
grossas linhas, podemos resumir que
a outra parte do paganismo que não
recebeu uma "roupagem" cristã
foi demonizada: tornou-se bruxaria.
Poucos se dão conta disso, mas quase mil anos depois do advento da Era Cristã, algumas regiões da Europa como a Germânia e a Escandinávia ainda não conheciam o cristianismo. É dito que em Upsália, no séc. X, ainda existia um templo onde se cultuava Odin, Thor e Frey.

É só no séc. XII e XIII que surge uma bruxaria em associação ao Diabo, até então eram coisas que não andavam juntas necessariamente. Depois de séculos em um insistente trabalho de conversão não conseguiram extirpar certas práticas, agora colocam tudo sob um mesmo rótulo diabólico. Burchard no início do séc. XI no que chamou de "cortejo de Diana" fala das mulheres que acreditavam acompanhar essa Deusa em cavalgadas noturnas. Pela literatura, os temas celtas, germanos ou latinos ressurgirão.

As Bruxas de Albrecht Durer (1471-1528). O aspecto sexual e 
carnal das bruxas medievais pode ser uma outra face,
de outro tempo histórico, das ninfas do mundo
clássico.
Até o séc. XIII os sábios e os clérigos eram alvos de acusações de magia. Com o avanço das ciências e as mais severas punições aplicadas à esses padres, foram as mulheres o alvo das punições: passaram a ser acusadas de bruxaria. A bruxaria, aqui, torna-se um aspecto "inferior" ou vulgar da ciência culta da magia.

Com a criação das universidades no séc. XII e com o advento de um pensamento mais "racional" ou "científico, gradualmente começa-se a distinção do que é culto e o que é vulgar. A medicina popular e feminina agora é amplamente menosprezada pela intelectualidade masculina dos acadêmicos. Com um relativo aumento da alfabetização, veremos o surgimento e a popularização dos grimoires, ou livros mágicos, sempre disseminados entre uma camada letrada, muitas vezes formada de clérigos e homens da Igreja, como já dito. Frei Rudolfo, atesta que ainda no séc. XIV existiam pessoas que ainda faziam sacrifícios, às escondidas, aos Ancestrais em suas casas.

A bibliomancia (a leitura do futuro é tida por uma leitura aleatória de algum trecho da bíblia, aberta ao acaso ou despretenciosamente) é permitida na Idade Média, bem como faziam os gregos com a Ilíada ou Odisséia e os romanos com a Eneida (rapsodomancia). Também é autorizado – ou ao menos de certa forma – a interpretação dos auspícios (vôo das aves) que são reflexo do comportamento dos astros – São Tomás autorizava essa crença.

Mais adiante vem o Renascimento com a volta dos Deuses da Antiguidade, suas histórias e seus mitos nas pinturas, nas esculturas e na literatura: e é aqui que encontramos as raízes do reconstrucionismo atual. Insatisfeito com o tempo presente, os homens passam a olhar para um tempo pré-cristão em busca de uma maior "humanidade". Mas essa parte da história rende uma outra postagem.

Os quatro elementos, em xilogravura,
autoria desconhecida. Ainda no campo
das permanências: A divisão clássica
do mundo em quatro elementos
ressurge, muitas vezes sob uma
roupagem cristã, na alquimia
medieval, a ancestral da nossa atual
"química".
Para resumir: Todos esses elementos medievais não constituem um conjunto: danças de roda, folguedos, coroas de flores, procissões a divindades cristãs, muitas vezes deuses pagãos com novos nomes, locais de culto que englobam cemitérios, árvores e pedras sagradas etc., não são o suficiente para falar em um culto pagão, ou de uma permanência pagã, mas sim em traços e resquícios de paganismo que só chegou até nós para ser estudado e resgatado, aos poucos, em um trabalho incessante.

Para sobreviver ao mundo cristão, paganismo muitas vezes se torna bruxaria. O que são nossas benzedeiras de hoje em dia? Não são o maior exemplo de convivência de paganismo e cristianismo em suas práticas? Cultuam figuras cristãs em seus altares, não aceitam ser chamadas de bruxas, mas ainda assim fazem seus feitiços a la Antiguidade.

Logo, seria possível uma convivência pacífica? Eu responderia que sempre houve uma convivência, ainda que nem sempre pacífica.
Ainda assim, vamos pensando e continuemos com o assunto em uma terceira parte.  



8 comentários:

brunodiniz disse...

Muito bom o texto, é legal ver que existem elementos pagãos no mundo cristão e os dois não andam tão separadamente.

lucasdarocha disse...

Informações precisas e agradabilíssima leitura, Odir.

Rose Hewson disse...

Eu li os dois textos. Parabéns mesmo! Vc descreveu o decorrer da história paganismo-cristianismo muito bem detalhado. Eu adoro ler seus textos que sempre ajuda a expandir meus conhecimentos. Eu concordo sim que paganismo-cristianismo sempre conviveram lado a lado (muitas vezes nada pacífico), o cristianismo se tornou uma grande religião porém não destruiu o paganismo, absorveu sim (mesmo que negando) muitas de suas práticas e celebrações. Conheço hoje cristãs que possuem em casa uma altar com suas imagens dos santos, acendem velas, possuem símbolos bordados nas toalhas, só que mudaram o nomes, os chamam "santos", os pagãos os chamam "Deuses" e muitas destas mulheres cristãs usam suas rezas para abençoar e até curar enfermos. Não é o mesmo que uma "bruxa", uma pagã que tem um altar em casa e cultua seus Deuses? O Cristianismo "tomou" do paganismo muitas práticas, e o que não conseguiu "dominar" e absorver denominou "feitiçaria", "bruxaria", "coisas do maligno". E se tornou então a religião predominante. Me vem na lembrança as últimas cenas do filme "Brumas de Avalon", quando Morgana se depara com aquelas beatas orando ajoelhadas diante de uma imagem da "Virgem Maria", Mãe do Cristo. Então Morgana olha e pensa: "Ela não foi destruída, não desapareceu. Continua viva, presente mesmo que de uma outra forma (não lembro as palavras reais do filme, mas foi mais ou menos esta idéia) Eu chorei nesta cena vendo e sempre acreditando que a nossa Deusa sobreviveu a tudo que o Cristianismo tentou destruir, assim como muitos outros Deuses que hoje são representados nos altares das igrejas católicas como a "Santa Bárbara", santa das águas e dos trovões e outros que não lembro agora. Acredito que o paganismo e o Cristianismo irão sempre caminhar juntos e quem sabe algum dia haverá um respeito mútuo e o reconhecimento de que o paganismo não é "maligno", não é religião do demônio, e que o bem e o mal está dentro de cada ser humano independente da religião que ele seguir, cabe a ele desenvolver o lado que escolher para si mesmo e aos outros respeitarem esta escolha. Quem sabe um dia...

Julio Soares disse...

Cara, Odir é foda. Os textos dele conseguem transmitir toda a informação necessário em poucas palavras e de forma completamente detalhada. São precisos onde precisam sem, mas sem fugir da simplicidade que costuma acompanhar temas como religião e história.
Recomento o texto a seguir para todos, independente da crença ou filosofia que a pessoa se baseia, o escrito é uma aula de história, e como qualquer aula, nos ensina a ver o mundo de uma forma singular.

Julio Soares disse...

Eu sou mega fã teu, conheci teu blog ao acaso faz uns anos e desde então sou completamente viciado. Na realidade, Diannus do Nemi e toda a gama que o acompanha me serve de inspiração pra mim escrever e estudar. Então, também tenho que agradecer, de certa forma. Muita coisa aprendi com o teu livro, teus textos e etc. Desejo muito sucesso pra ti e ainda quer o Sob Sol Já Deitado em versão impressa. xD

Maria Rita Pereira Da Silva disse...

Sou ateu,não acredito em mitologias seja elas cristã ou pagã.No fundo no fundo tanto o cristianismo como o paganismo são duas bostas, duas mentiras e duas mitologias. é necessario ser muito leigo,ignorante para se ater a crenças. vão ler livros,vejam a tecnologia,as maquinas, a engenharia,o progresso,a ciencia... vcs ainda acreditam em Deus, ou deuses?Para os cristãos meu deus é Charles Darwin e para os pagãos minha deusa é a ciencia!!!

Odir Fontoura disse...

"Maria Rita Pereira da Silva",

Você fala em livros, mas não me parece que alguma vez já tenha passado por Nietzsche. Leia sobre o que ele fala sobre "a morte de Deus".

A sua total falta de educação (no modo de escrever e pela falta de identificação) me impedem o trabalho de escrever mais do que isso.

Sobre essa sua postura, tão pobre intelectualmente, já mencionei em "Uma crítica ao ateísmo". Não seja covarde, identifique-se e vamos conversar sobre o assunto.

Anônimo disse...

Cadê a terceira parte?