quinta-feira, 14 de junho de 2012

Sobre a Arte e o poder da transformação.

Detalhe de Dédalo e Ícaro (Lord  Frederic Leighton).
Dédalo trabalhou e moldou um par de asas para
seu aprendiz, Ícaro, ainda que esse não soubesse
 aproveitar. Mas o papel de Dédalo foi cumprido. 
Há quem diga, não sem controvérsias, que o significado arcaico da palavra Wicca é moldar, girar ou transformar. Longe de debater etimologicamente esse conceito - pois não é esse o objetivo do texto - acho válida a reflexão sobre o conceito de transformação iminente ao bruxo ou à bruxa, dentre todas as formas que esses sábios são compreendidos. Wiccanos, bruxos tradicionais, streghes, magos, cartomantes ou qualquer coisa que o valha: pessoas que se utilizam de magia. E quando eu falo em magia eu me refiro à arte de efetuar mudanças, não importa se isso é feito com velas, incensos, túnicas ou só com algumas risadas e uma boa conversa de mesa de bar. 


É nesse sentido que eu também frequentemente invoco a noção de arte (do latim habilidade) nos meus escritos, não sendo a toa que o subtítulo do blog é Artes e Paganismo. Arte porque a Arte é poesia, é música, é dança, são cores, formas, gostos e aromas cuja ausência desses ingredientes torna impossível qualquer ritual, qualquer operação de mudança da nossa realidade. Não existem rituais mágicos sem esses elementos, não existe mudanças sem arte, não existe magia sem arte, não existe arte sem magia. Não existe Wicca, bruxaria, paganismo, feitiçaria ou cartomancia sem arte. 

Detalhe de Circe (Barker). Circe
é um dos arquétipos mais pontuais
da feiticeira: aquela que provoca
mudanças, muitas vezes negativas,
pois cria seus empecilhos: porém,
se não fossem eles, os heróis talvez
não chegassem no paraíso final.


Observando o maravilhoso trabalho da taróloga, dançarina, sacerdotisa (enfim, artistaKatharina Dupont me surpreendi pensando sobre isso e resolvi compartilhar a reflexão com vocês: ao meu ver, o ser humano é um ser contraditório e dialético por natureza. Ao mesmo tempo que é feito do barro, da poeira das estrelas, de uma pequenez absurda frente a grandeza infinita do Universo, ele também pode ser divino. E quando eu digo que pode é porque isso não é uma regra. Ele pode ser divino, pois traz consigo uma fagulha de divindade, uma fagulha de atemporalidade que faz com que ele crie caos e ordem. Essas poucas pessoas frequentemente são chamadas de bruxas, ainda que esse nome ainda soe feio para muitos. São poucas as pessoas que conseguem, efetivamente, criar algo, transformar caos em ordem. 

O Carro, no tarot de
Marselha. No baralho, essa
é a carta que melhor representa
as transformações, as
mudanças de percurso, muitas
vezes descontroladas e
desordenadas: mas que ocorrem
para construir um objetivo final.
Uma pena que o ser humano,
naturalmente, tem medo de
desafios.
E para os poucos que acham exótico chamar-se de bruxo ou bruxa, eu pergunto: o que esses fazem para serem reconhecidos como tal? Quais as mudanças eles operam na realidade? Quais vidas essas pessoas transformam? Que sentimentos, que reações, que insights, que conhecimentos que essas pessoas provocam em suas jornadas terrenas? O que cada um de nós verdadeiramente executa ao longo da peregrinação? Muitos de nós pintam, outros cantam, dançam, sabem ler as cartas ou as runas, alguns ainda, como eu, escrevem... Mas qual parte da realidade (nossa ou dos outros) que nós verdadeiramente alteramos com os conhecimentos que adquirimos nos livros ou observando a Natureza? 

Ao longo desse blog eu pouco falei da minha vida pessoal, mas aqui vai uma breve confissão: eu sou uma pessoa solitária, mas porque a solidão me deixa feliz. Gosto do silêncio da noite e do exílio que a lua traz consigo pois isso me conforta e enche minha vida de beleza e poesia. Simplesmente não tenho paciência para lidar com pessoas levianas, ignorantes, rasas ou superficiais - e você que está lendo esse texto sabe que essas transbordam por aí, e não tenho dúvidas que alguns rostos até apareceram na sua mente ao ler essa frase. Até mesmo porque nós, em algum momento, também somos levianos, rasos e superficiais. Então, é aí que eu pergunto: Qual realidade eu estou MUDANDO, além da minha própria? Será que é o suficiente? 

Quem leu esse texto até o final repita essa pergunta e pense sobre isso. Sem pressa, eu aguardo as impressões de vocês, porque as minhas eu ainda estou maturando. 


5 comentários:

Danu disse...

Odir lindo depoimento. Acho que magia esta sempre ligado a autoconhecimento. E para mim quanto mais humilde o mago mais poderoso ele é. Achei que as palavras foram certeira.

Katharina Dupont disse...

Odir, eu assim como você, acredito na magia como veiculo de transformação mas não apenas pessoal e sim de todo o ambiente ao meu redor.Não concebo magia apenas para meu uso como nao consigo imaginar arte apenas para mim, ambas são irmãs gêmeas . Honramos nosso deuses com o nosso serviço seja mágico ou artístico. É um trabalho de entrega , de doação e acima de tudo de amor.

By the way.. fui às lágrimas com o texto!

Robson Madredeus disse...

Meu caro Odir.

Tenho que dizer mais uma vez, você chegou no ponto central da questão. Desde que comecei a estudar ocultismo e magia no início pela pouca idade, família católica e recentemente tendo aberto mão de entrar para um seminário católico tinha inúmeras dificuldades para ler livros e ter adereços mágicos, lia os livros na livraria ou biblioteca e apreendia o máximo possíve de uma única frase que lesse ou ouvisse. Eu tinha pouco alimento e precisava aproveita-lo bem. Isso fez com que aprendesse a desenvolver minha própria opinião, aprendi que se aprender magia observando as coisas, as pessoas, a natureza. Aprendi que se pode fazer magia no ponto de ônibus ao informar a hora para um desconhecido. Atualmente uso poucos adereços, meu altar é simples e pequeno mas todos que recorremm senten-se de alguma forma tranformados. Não por mim, mas pela magia que eu permiti que fluisse. Conheço bruxos que nem sabem o que é um pentagrama, mas são sábios e transmutam, transformam e criam até mesmo sem perceber. Este seu texto por exemplo é uma magia das mais poderosas, uma pena que nem todos poderam senti-la. Parabéns Odir, por ter compreendido o que é a magia.

Aline Brum disse...

Amei este texto. E enquanto dezenas de pessoas levianas a gente pode encontrar a mais por aí, eu pude lembrar de uma pessoa que é realmente alguém que sinto que tem esse poder de transformação enquanto praticante da Arte. E por minha parte, posso refletir algumas pequenas coisas que faço enquanto indivíduo no meu dia-a-dia, mas com certeza pretendo levar essa como uma das missões imprescindíveis do meu futuro sacerdócio.

Lindsay disse...

Adorei seu texto e como pediu pra respondermos vim comentar. Não fico idealizando meus atos mas ai parando pra pensar, acho constante este lance de mudar realidades e contribuir para a transformação das pessoas e até da magia. Qdo somos integros na vida, automaticamente encantamos quem está ao redor. O melhor ensinamento é o exemplo, é contagiar o outro com alegria ou qqler sentimento que vc viva plenamente. Independente da pessoa ser intelectual ou viver com profundidade ou ser leviana, todos possuem seus momentos de aprendizado... e qdo compartilhamos sentimentos ou pensamentos que podemos trocar essa energia de transformação. Acho que por ter muita empolgação com td q vivo, estou sempre transformando pessoas a pelo menos terem curiosidade sobre algo mais... levando amigos a cursos de reiki ou mesmo fazendo leituras de tarot e incentivando as pessoas pela busca do autoconhecimento... compartilhando minhas vivências mágicas com amigos ou conhecidos que demonstram verdadeiramente o despertar pela Arte, sem fazer mistérios ou segurar fontes de conhecimento... acho um tanto egoista quem oculta a magia de quem já abriu seus olhos... enfrentando meus medos e tb qqler egocentrismo de querer ser melhor sem querer carregar uma imagem falsa de maga ou bruxa, pq a verdadeira magia, pra mim, percorre nas veias daqueles que sabem compartilhar seus dons, sem cobranças, pois assim tb o faz a natureza... que deixa disponivel a todos que a quiserem manipular...e essa interação só depende de cada um de nós e de nossa vontade interior. Não sou artista por profissão, mas sou muito cuidadosa com as pessoas, amigos e familires e cuidar e compartilhar o bem com as pessoas pra mim é uma forma de transformar realidades...e claro, aprendo muito e me transformo tb...