segunda-feira, 23 de julho de 2012

Os três mundos na Bruxaria: O Submundo (Parte 2).

O retorno de Perséfone (Lord Frederic
 Leighton). O percurso de Perséfone
também é feito pelo Bruxo(a). 
Anteriormente já escrevi sobre minha visão de Inferno sob uma perspectiva pagã aqui, mas dando continuidade a essa "trilogia" de artigos, vou levantar a questão mítica do Submundo sob uma perspectiva mais, digamos, "prática". Posso me repetir um pouco, então considerem esse pedido de desculpas antes de mais nada.

A partir do momento em que o Bruxo se afasta da humanidade para descobrir que a Terra (como já dito aqui) é um lugar sagrado, diferente das outras pessoas ele passa a manter um diálogo com essa Terra. 

Ele vê nela o que as outras pessoas não vêem, e é exatamente desse diálogo que nasce a força dos seus rituais. Seus ritos são conversas com a Natureza, e quando ele também conversa com o Submundo e com os Céus não é diferente. 

Chega um momento em que o Bruxo descobre que a Terra nem sempre é fértil ou próspera. Nem sempre faz seus desejos florescer e nem sempre é iluminada pelo Sol, e não é raro que esse tipo de Jornada mítica seja mais visível nas estações do inverno ou do outono. As folhas das árvores começam a cair, todos tiram seus casacos do armário, as pessoas começam a ficar mais silenciosas e se passa muito mais tempo em casa. 

O Bruxo percebe, com o tempo, que a Morte é algo muito mais complexo que a Morte física daqueles que ama. Seus amigos de infância morreram, ainda que continuem com suas vidas paralelas. Os sonhos, os projetos e os desejos de um Bruxo frequentemente têm de morrer, pois já estão gastos o suficiente. Seus relacionamentos amorosos também encontram a Morte com o tempo. As ideias, os conceitos, as convicções e as crenças de um Bruxo também morrem várias vezes. Morrer é perder e perder geralmente é entristecedor. Mas o Bruxo, diferente dos outros mortais, não tem medo da escuridão, ele se encontra com ela, abraça-a, sente o frio que a Ela traz consigo, e então preenche seu espírito com esse sopro gelado. 

A Morte, no tarot de
Maselha. Detalhe que a foice
da Morte é muito semelhante
a foice do Cronos, o Tempo
.
Ele simplesmente aceita a Morte e sua foice inexorável. Ao invés de debater-se contra ela, ele se debruça para que a foice rague suas convicções, suas crenças, suas esperanças e seus amores que nunca prosperariam verdadeiramente. 

A árvore não germina sem que a semente pudesse ser abraçada pela frieza da Terra escura. É da mesma forma que nenhum mortal também pode saber o que é a alegria e a felicidade sem saber o que é o luto e o abandono. Então é o que ele faz: ele se despe das suas vestes mortais, se despede da Terra que aprendeu a reverenciar e mergulha nas profundezas da Escuridão para, um dia, voltar renascido. E que passe lá o tempo que for necessário. 

Até mesmo porque, todos bem já sabemos, que "tempo" é um conceito muito relativo. 

"É a solidão que inspira os poetas, cria os artistas e anima o gênio"

Henri Lacordaire.

4 comentários:

Emmanoel Rodrigues disse...

Legal esse segundo artigo...esperando o proximo.Gostei do seu ponto de vista tem haver com o modo q enxergo esse assunto.E nada melhor pra ilustra do que o Mito de Perserfone.

Katharina Dupont disse...

Perfeitooo Odir!!
Nós , pagãos , amamos a morte por saber que é ela o recomeço.Não é a toa que o culto a Santissima Muerte é um dos mais fortes , um resquicios dos cultos pagãos dos aztecas.Ao encarar o conceito da morte , encaremos a nós mesmos.
Beijosss

Ariadne Pinheiro disse...

E em meio a "solidão", com meus pensamentos e reflexões que tenho as melhores idéias.. que vejo como são estúpidos os medos... as respostas a eles estão mais próximas que nossos próprios dedos...

Parabéns pelo artigo Odir. =)

Douglas M. Argos disse...

Ir ao sub-mundo é só o começo , mas para conseguí-lo o corpo não deve ser comum , esse não suportaria as exigências físicas da descida , se é difícil para as pessoas subirem ou descerem montanhas imagina distâncias abismais. E aquele que viaja por curiosidade só chegará aonde a curiosidade puder o levar , seja aki ou em qualquer sub-mundo.