sexta-feira, 27 de julho de 2012

Os três mundos na Bruxaria: Os Céus (Parte 3).

Diana e Endimião (Jerome
Martin Langlois). Detalhe no esplendor
lunar que Diana traz consigo, como se
uma "iluminação".
Depois que passamos pela Terra, descobrimos o quanto ela é maravilhosa e sagrada. É então que descemos ao Submundo, encontramo-nos com nossos medos e com o que está escondido para então renascer de volta na Terra com outros olhos. Assim, quando voltamos à Terra, com esses mesmos outros olhos que ficaram tempo demais oculto na escuridão do Submundo é que percebemos que a Terra, o mundo, a vida e o Universo é sempre muito maior do que imaginamos.

Nos damos conta disso quando inclinamos nossa cabeça para trás e olhamos para o céu. E olhar para o céu, não com olhos profanos e humanos, mas olhar para ele sob uma perspectiva sacra é uma experiência iniciática e transformadora por si só. 

É no céu que moram as estrelas nas quais o nosso Destino está desenhado. A Bruxa que voa até esses céus descobre que sua vida está entrelaçada à existência de muitas outra vidas, humanas ou não. Ela lê essas estrelas para depois voltar à Terra para a partir disso escrever o seu futuro. É nas Alturas que moram os deuses celestiais que tem o poder da profecia, pois eles vêem tudo e a todos, todo o tempo. A Bruxa, então, quando sobe aos céus, alcançou a distância suficiente para perceber até onde vão os seus caminhos, para poder voltar à Terra e continuar sua peregrinação naquele que vai lhe trazer melhores frutos. 

A Noite Estrelada de Van Gogh traz o céu, a lua e as estrelas  como se dançassem
uma perfeita sincronia em espirais.
O Bruxo que deita no chão sob o céu estrelado da noite não consegue ficar muitos segundos intacto. A descoberta que ele está cercado por uma abóbada celestial, que além de escrever nas estrelas o seu Destino e refletir os caminhos que pode trilhar no mundo terreno também mostram-no, dialeticamente, o quão grande e pequeno ele pode ser. Grande pois é importante o suficiente ter sua vida gravada nas estrelas e ter sua existência acompanhada pelos deuses. Mas pequeno o suficiente para ser, no máximo, um grão de areia na vastidão de um oceano.   

 Ele então se dá conta – pois já conhece a Terra – que as árvores, as pedras e os animais noturnos que estão ao seu redor todos os dias são abençoados pelas nuvens ou pelas estrelas da noite, mas ele, diferente disso, muitas vezes se esconde entre as paredes da sua casa. Ele percebe que grande parte da natureza que lhe cerca viveu e viverá mais do que ele, sob as bênçãos daquele infinitude que ele só pode apreciar por alguns segundos de eternidade. 

Se uma carta do tarot
pudesse representar o
sentimento de eternidade
mencionado, essa carta
seria O Mundo, aqui no
tarot de Marselha.
E de fato são segundos de eternidade, o suficiente para transformar um olhar profano em um olhar sagrado para sempre. O Bruxo que entra em êxtase na sua ritualística, prova alguns segundos dessa eternidade. Ele vai ao Céus, prova o sabor escuro do Universo com a doce claridade da lua branca, e volta à Terra. Depois disso, ele passa a dar importância a coisas diferentes do que dá um homem mortal. 

Se eu pudesse resumir, diria que o que os Céus mostram na vida do Bruxo é que ele nunca está sozinho e que tudo é sempre muito maior do que as mortais ambições humanas. 

Já dizia Madame Bovary, sob as palavras de Gustave Flaubert: 
"A palavra é um laminador de sentimentos"
Ou seja, ler tudo o que foi escrito ao longo desses ensaios não é o suficiente para provar sequer uma pequena parte do que os Três Mundos podem proporcionar-nos. Quem estiver disposto, que saia da frente do computador e vá dizer à Natureza o quanto a ama. Mas só faça isso aquele que estiver disposto a passar a ver o mundo de outra forma. 

Do contrário, é melhor continuar sem conhecer nenhum deles.

5 comentários:

Emanuel disse...

Me emocionei. Sério.
Parabéns.

Julio Soares disse...

Odir, caramba, esse texto ficou perfeito. Todos eles são ótimos, mas esse é simplesmente perfeito. Ele mostra toda aquela transição divina que um bruxo passa ao observar o mundo em que vive com outros olhos, como se transformasse em algo tão diferente... Enfim, sem palavras. Parabéns.

Helio Kerykeion disse...

Bons ensaios...qualquer praticante de Paganismo e Bruxaria ( e mesmo ocultismo) vai apreciar os textos.

Nathalie Pacheco disse...

Este texto veio a mim, assim com a terra recebe a chuva em um dia de verão. Mais do que emocionar, este texto revela sublimemente o caminhar árduo e ao mesmo tempo fresco de uma bruxa e um bruxo neste mundo de tantas maravilhas visíveis e invisíveis. Agradeço sempre aos Deuses pela oportunidade de conhecer pessoas tão lindas, com sentimentos, ideias e pensamentos tão ilustres, você com certeza é uma delas...

Ever Faun... disse...

Você escreve com uma profundidade na combinação de palavras, formando frases que levam a mim (e creio nos demais leitores) à uma viagem por caminhos que estão dentro de nossas mentes... despera em nós o desejo de escrever mais, ler mais, inspira a todos.

Abençoado sejam as musas que te inspiram nestes momentos...
parabéns...