sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O paganismo como alternativa (Parte I).

A Amazona Ferida de Franz Von Stuck retrata muito
bem o estado da nossa sociedade atual: já ferida,
à beira da morte, tentando se defender, mas ainda
em campo de guerra. 
Vou dividir esse texto em no mínimo duas partes. Em um primeiro momento vou trabalhar com argumentos nos quais o neopaganismo se coloca radicalmente contra, tanto em conceitos intelectuais quanto em questões sociais para posteriormente, apresentar possibilidades de respostas – que não serão nem definitivas nem absolutas. Me ajudem nessa segunda parte através dos comentários desse primeiro texto.

Quando falo em alternativas, me refiro a alternativas culturais, educacionais, intelectuais e sociais. Em outras oportunidades já disse que se o mundo contemporâneo precisa de algum tipo de espiritualidade – e eu ainda não sei se é exatamente disso que ele precisa –, não tenho dúvidas que o paganismo desempenharia bem esse papel. 


Ele faria isso a partir do momento que, geralmente, se coloca diretamente contra a vários pressupostos tidos como verdades absolutas pelo mundo ocidental moderno, mas que já se mostraram, ao longo da história, tendo pés de barro. Por exemplo, a noção da sociedade ocidental com suas tecnologias, suas indústrias, seu conhecimento e sua ciência como símbolo da evolução e do progresso humano. No mês passado eu recebi um comentário que traduz exatamente a mentalidade da qual estou falando:

"Sou ateu, não acredito em mitologias seja elas cristã ou pagã. No fundo no fundo tanto o cristianismo como o paganismo são duas bostas, duas mentiras e duas mitologias. É necessário ser muito leigo, ignorante para se ater a crenças. Vão ler livros,vejam a tecnologia, as máquinas, a engenharia, o progresso, a ciência... Vcs ainda acreditam em Deus, ou deuses? Para os cristãos meu deus é Charles Darwin e para os pagãos minha deusa é a ciência!!!" Postado dia 14/07/2012 em Paganismo e Cristianismo: Seria possível uma convivência pacífica? (Parte II)



Edgar Morin é autor de várias obras, dentre elas Sete saberes necessários para a educação do futuro. Indicado para todo pagão. Obrigatório na biblioteca de qualquer professor pagão. 
Em primeiro lugar, sob uma perspectiva pagã, toda crença pode ser compreendida como mito. A noção de mitologia, segundo Joseph Campbell, não corresponde a simplesmente um conjunto de histórias fantásticas ou lendas, mas um conjunto de mitos cujas experiências desses mitos dão sentido à existência do indivíduo. Um pagão não simplesmente cultua um deus-sol pelo simples fato de adorar, ele se conecta à essa energia da natureza, seus ciclos e suas transições, passa por experiência que significam a sua vida. É o sentimento oceânico do qual já escrevi, quando fiz uma crítica sobre o fanatismo e a maneira equivocada de ver a a religião como terapia.

Quando Nietzsche escreveu que Deus está morto ele se referiu justamente à ciência e ao "progresso" do mundo moderno. A crença em "Deus" teve de morrer para os homens colocarem outro elemento no seu lugar: a ciência. O leitor que comentou nossa postagem é tão crente ou fundamentalista quanto qualquer evangélico. Mas tirou Deus do seu lugar para colocar a ciência nesse trono. Sua crença é tão mitológica quanto qualquer outra crença religiosa.

Tecnologia, máquinas, engenharia? Sem dúvida avançamos muito nesse sentido ao longo dos últimos séculos. Mas é preciso ter uma visão muito míope para acreditar que isso é símbolo de uma evolução linear e progressista. Foi essa mesma Revolução Industrial do passado que fez com que uma quantidade impensável de moradores do campo fossem expulsos das suas casas, que migrassem para os meios urbanos (já cheios de doenças e em uma condição miserável) para trabalhar até 15 horas por dia para ter o que comer, e comer muito mal.

São essas mesmas tecnologias, máquinas e engenharia que fazem com que cada vez mais o dinheiro se concentre em cada vez menos pessoas para que milhares morram de fome. É esse mesmo progresso que para sustentar países desenvolvidos precisou-se destruir ecossistemas perfeitamente saudáveis de países marginalizados, contribuindo para uma extinção incontável de seres vivos até os dias atuais e fazendo com que pessoas não vivam, mas sobrevivam em condições sub-humanas. 
O "Enforcado" no tarot de
Marselha. Através de todas
as destruições dos
últimos séculos, fomos
obrigados a ver o mundo sob
outra perspectiva. É aqui onde
surge o neopaganismo. 

Ciência? Sem dúvida a ciência pode ser algo bom. Mas é difícil pensar em progresso quando lembramos de Hiroshima. Sem contar que já foi cientificamente provado que o mundo é plano, que o nosso sol é o centro do Universo, que existem raças superiores e inferiores de seres humanos ou que o homossexualismo de fato é uma doença. Volto a dizer: crentes na ciência e no "progresso" (e eu insisto em escrever essa palavra com aspas) podem ser tão fundamentalistas quanto crentes religiosos a partir do momento em que não trabalham com a hipótese de que verdades individuais e temporais podem não ser, necessariamente, verdades universais e eternas. 

A ciência como verdade absoluta, o progresso tecnológico como símbolo da evolução, o desrespeito à natureza, a falta do trato humano para com culturas diferentes são alguns dos pressupostos da nossa sociedade contemporânea. Já ficou claro, então, que o neopaganismo questiona se posiciona contra muitos desses pressupostos.

No próximo texto vamos pensar nas alternativas que ele apresenta à essas ideias. 


Ainda sobre esse assunto, leia também sobre o filme Metrópolis aqui no blog.  A continuação desse texto você encontra aqui.

3 comentários:

Haro de Carvalho disse...

Olá! Bem, para começar, sigo o Espiritismo Pagão. Bem, penso que a utopia nos dias de hoje só seria alcançada quando houvesse um equilíbrio homem(tecnologia)-natureza, e fosse estabelecido um respeito mínimo à Grande Mãe. Logo, a propagação do neopaganismo, seja na forma mais famosa (a Wicca) ou outras vertentes, seria algo no mínimo vantajoso para isso, aliás até onde eu sei, boa parte das vertentes pagãs pregam o respeito à natureza.. Ao menos digo isso pela Wicca e pela vertente que sigo.
Fanatismo não é bom em lugar algum, seja no cristianismo, no paganismo ou na ciência.

BloomingLotus disse...

Antes de mais quero dar os parabéns pelo seu blogue. Na minha opinião o ideal é haver uma harmonia entre religião e ciência, ambas são importantes, devemos dar igual importância á filosofia/espiritualidade e á matéria. Na minha opinião o problema que ás vezes se coloca é o fanatismo e também o poder, é fácil perceber que o fanatismo é errado, que a pessoa fecha a sua mente a novos horizontes e mantêm uma fê cega em algo que pode muito bem ser refutado, o poder é outro dos problemas, acredito plenamente que uma sociedade anarquista é uma sociedade ideal, auto-suficiente, quando à hierarquias, poder, muitas vezes os que estão no topo fazem o resto das pessoas "engolir" as suas crenças... Eu acho que a religião e até mesmo a ciência são duas áreas importantes para a pessoa se conectar com o universo, realidade e levar uma vida melhor, como disse acima acho que ambas são importantes, e que por isso é possível haver uma crença harmoniosa nas duas, acredito também que teriam sido evitados muitos problemas se o mundo funcionasse nessa harmonia, se na idade média a fé no cristianismo não fosse tão cega não teria havido o derramamento de sangue inocente que houve, e se na revolução industrial tivesse havido um pouco de preocupação com a espiritualidade (especialmente pagã, eu não acredito que o cristianismo nos traga algo de útil, acho apenas que defende uma sociedade de "ovelhas") talvez não se tivesse destruído a natureza e talvez tivesse havido alguma empatia para com os desgraçados que trabalhavam horas a fio... Acho que este é um tópico que dá para escrever imenso, por isso acho melhor terminar por aqui.

Ever Faun... disse...

Ai ai ai.. Esperei ansiosamente por um tempinho livre hoje pra vir comentar aqui... Enquanto tomava um café, fui relendo seu texto, que, ao longo de tudo me faz crer no seu dom de escrever.
Agora, ao tema principal... Como estudante de ciências biológicas (a caminho da conclusão), encarei diversas vezes os questionamentos do método científico, frio, calculista, versus a emoção da vida, os sentimentos e a fé. Em geral, minha turma manifesta-se ateia, creem em uma força espiritual que rege os princípios da vida a nível molecular, criador do universo.. (não me refiro aos duendes de laboratório kkk) Tal crença na parte deles, é devido à criação católica que receberam, no qual “algo” ou “alguém” criou tudo o que a ciência não nos explica.
De minha parte, sou crente em muitos aspectos da ciência, no caldo primitivo que originou as moléculas da vida, na interação do DNA e seus átomos constituintes, nas primeiras células vivas, simples, anaeróbicas.. porém, por trás disso tudo, vejo a dança da divindade, as polaridades positiva e negativa, o macho e a fêmea, em um ritual sagrado que rege os ciclos da vida...O homem colocou a Ciência no lugar do Divino, aí eu me pergunto até que ponto essa fé permanece inabalada?
O neopaganismo vai de encontro à sacralidade da terra, aos problemas ambientais, à “causa verde.” Acredito que não mais longe que isso, abrindo a consciência das pessoas interessadas e ligadas à comunhão com o mundo em que vivemos. Por outro lado, o paganismo está ligado à magia, sombras, bruxaria (por mais que sejam coisas diferentes, poucos sabem), repercutindo um aspecto sombrio, do medo do desconhecido..