sábado, 4 de agosto de 2012

Religião é terapia?

As obras de William Blake são perfeitas para comentar
sobre a experiência religiosa. Aqui, A Canção de Los,
ilustrativa de uma das suas obras escritas. É justamente
o "sentimento oceânico" do qual estamos falando que faz o
homem, em êxtase, se curvar ou dançar frente ao
Universo.
Sentimento oceânico foi o nome no qual Freud batizou, a grossas linhas, o sentimento religioso. Como se o homem fosse por natureza desprotegido, descrente sobre a incerteza da vida e do futuro, ele encontra na religião uma espécie de redenção salvadora que lhe proporciona uma experiência de completude, de imersão, de infinito

Paralelo a isso, preciso lembrar que Joseph Campbell também comentou que o homem moderno se distanciou dos seus mitos. A leitura que o Ocidente cristão faz da sua religiosidade é uma leitura literal e não mitológica, não abrindo espaço assim para o simbolismo, para a metáfora e, justamente, para a sacralização da experiência religiosa. 



O que eu suponho, então, é que o sentimento oceânico não deixou de estar presente na vida do homem moderno, mas ainda que ele existe, a espiritualidade não lhe confere mais uma experiência religiosa. A religião não situa o homem no seu lugar do Universo, e apesar de explicar-lhe, não lhe convence do sentido da sua vida mortal. A religião não liberta a experiência mística, mas diferente disso, ela prende em leituras literais e racionais do Sagrado. 

O resultado disso, então, é que frequentemente vemos na religião – ou para sermos mais flexíveis, na espiritualidade ou religiosidade – uma espécie de terapia para os problemas na vida profana, como se fosse uma fuga ou uma recompensa aos problemas ou empecilhos da vida material. Assim como a televisão supostamente daria ao homem trabalhador, no final do seu dia o devido descanso, a religião também aniquilaria as tristezas e as decepções da vida. E todos sabemos que em nenhum dos dois exemplos a cura efetivamente existe, a não ser uma ilusão de compensação. 

Aqui, Alma sendo carregada ao céu de Bouguereau. Para o homem contemporâneo, "céu" e "inferno"
são coisas que só podem ser alcançadas depois da morte. Antes disso, uma experiência religiosa
é quase inconcebível. 
Alguém diria: "Ando tão triste, tão desanimado! Devo estar com encosto!" e então prontamente vai no terreiro de Umbanda no final de semana. "Tenho tido muitos problemas familiares" outra pessoa poderia dizer, e com a mesma pressa indo parar no Centro Espírita mais próximo. "Nada dá certo na minha vida, acho que devo voltar para a igreja" e isso serviria para qualquer católico, protestante ou neopentecostal. 


Imperatriz no tarot de
Marselha representa soberania.
Soberania do corpo, do físico,
da matéria. Que possamos ser
soberanos de si próprios para,
só então, receber o auxílio 
dos deuses. 
"Deus é a cura para a depressão" já ouvi falar. E no meio neo-pagão, também não é diferente. Vejo muita gente por aí que só lembra da Bruxaria quando precisa "purificar" o ambiente ou "trazer boa sorte" quando necessário. Hoje vemos por aí uma multidão de cursos, workshops, palestras e eventos que tratam da Wicca e do neo-paganismo como alternativas e respostas para as mazelas da nossa vida, uma vez que as religiões tradicionais já não oferecem respostas satisfatórias para isso. 

Aqui eu não quero pregar a ideia de que a religiosidade não tem a obrigação de confortar! Pelo contrário, ela tem sim esse papel, mas precisamos entender que não é esse seu objetivo principal. 

Creio que precisamos parar de ver o ritual religioso como uma sala de terapia tendo como Deus/Deuses os psicólogos ou terapeutas dos nossos problemas. O que hoje pejorativamente chamamos de mitologia é a religiosidade do passado que dava um sentido à vida do religioso. Situava-o em um lugar do Universo, dava a ele uma missão a cumprir. Explicava-lhe o sentido da vida e nem sempre precisou prometer-lhe um "Paraíso" após a morte para isso. 

A partir do momento em que o homem ou mulher se sentir verdadeiramente completo e consciente do seu papel nesse mundo, seja dentro de um círculo de velas ou dentro de uma igreja, ele não precisará da experiência religiosa ou do sentimento oceânico como terapia. A terapia será uma consequência natural, não um objetivo. 


Leia mais sobre a religião e o sentimento oceânico aqui: 

Sobre o Fanatismo

6 comentários:

Gil Eder disse...

Muito bacana o artigo! Cada pessoa tem um motivo para entrar no mundo religioso e muitos deles podem ser a "cura" de males ou "libertação" mas o importante é estarem de certa forma espiritualizando-se. gosto também de ver espiritualidade como sendo um "bem" terapeutico, mas que essa não seja apenas a motivação para estar num caminho espiritual. Se a terapia é vista como um meio para a dissolução de males psicoemocionais a religião pode não ter esse titulo porém pode colaborar ou não.

brunodiniz disse...

Nossa! Gostei muito do texto, e vejo isso mesmo, as pessoas perderam essa visão mitológica na religião. E também já ouvi que mitologia era besteira, creio que as pessoas deveriam voltar a enxergar a importância da mitologia e das metáforas na vida. É bom ler um texto desse para poder repensar como está sua relação com a religião, pois podemos acabar caindo nessa ideia de religião como terapia. Parabéns pelo texto!

Katharina Dupont disse...

Tentar encontrar soluções para seus problemas de ordem prática na prática religiosa ao invés de realmente encarar a realidade da vida cotidiana.É Odir, vemos muito disso por aí.. porque é mais comodo do que fazer uma auto análise e olhar o rela vazio interno.

roberto quintas disse...

o crucial em qualquer caminho religioso/espiritual é o auto-conhecimento e crescimento. quem busca no paganismo, na bruxaria e na wicca mais uma fuga, um conforto, um escape, desmerece estas crenças/práticas. e crescimento exige mudanças, esforço, dedicação, disciplina. será mais sofrido, mas é por algo bom, certo e divino.

Asterion disse...

Celebre a frase "E a Verdade vos libertará". Por Verdade entende-se diversas coisas, na minha visão,Verdade é Conhecimento e este por sua vez é mutável e nunca completo em si mesmo. Somente o Conhecimento traz as respostas e o não são os ritos religiosos e mágicos o exercício de um Conhecimento em particular?

Ilda Mendes Rodrigues Rodrigues disse...

É como lá diz o velho ditado. Só nos lembramos de Santa Barbara quando faz trovões. Realmente Odir Fontoura, a espiritualidade é mais do que religião ela é a outra vertente que nos dá a oportunidade de nos questionarmos porque motivo a nossa vida de repente inverte os acontecimentos. Só que, muitos não entendem qual o seu verdadeiro significado. Isto claro, é a forma como eu entendo a espiritualidade e cada um a vê à sua maneira.