quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Sobre o fanatismo.

A Andrômeda de Gustave Doré mostra
como dos mares podem surgir monstros.
Aqui nesse outro texto eu comecei a mencionar o "sentimento oceânico" do qual escreveu Freud sobre o sentimento religioso. Aquele que reza, que ora e que dialoga com o mundo espiritual, chame ele esse mundo na forma for, sente, no êxtase da experiência, o arrebatamento oceânico, ou seja, "(...) uma experiência de completude, de imersão e infinito".

Freud encontrou uma ótima metáfora para falar sobre esse sentimento. A água é sentimento: é o suor, é o sangue e também a lágrima. O oceano é o infinito, embora saibamos que ele não seja fisicamente, é o sentimento que sua visão nos proporciona – e quem já meditou de frente para o mar sabe o que eu estou falando. Sentir-se oceanicamente, então, é de certa forma atingir o êxtase religioso, a apoteose mítica, a catarse do sentimento. 


Nos ritos isso pode ser alcançado através da dança ou da meditação – que não deixa de ser uma espécie de dança –, ou seja, pode ser alcançado através do barulho ou do silêncio. Da estabilidade ou do desprendimento. Pode ser alcançado em um círculo mágico, na praia, sentado numa igreja cristã, ajoelhado em uma mesquita ou dançando nos ritos da Umbanda. 

Para Mircea Eliade, além de homo sapiens sapiens também somos homo religiosus. E para Joseph Campbell, a experiência religiosa é transformadora por excelência, e isso é maravilhoso, ainda que nem sempre aconteça em todos os rituais. O problema então, surge quando nós – e aqui eu me arrisco a falar no plural pois eu não tenho dúvidas que muitos que lêem esse texto já não tenham compartilhado desse comportamento, como eu já o fiz – acreditamos que, sendo então universal, isso ocorre da mesma forma para todas as pessoas. 

O Ás de Copas do Rider-Waite
Smith mostra como a água
simbolicamente está ligada à
fertilidade emocional e espiritual.
Eis então o momento em que nos afogamos com o sentimento oceânico. Acreditar que, por ser maravilhosa e mágica, essa experiência também pode ocorrer para os outros da mesma forma é um equívoco. Muitos sequer um dia saberão do que estamos falando. Vários já cansaram de comentar sobre isso, pois já vivenciaram esse sentimento muitas vezes. Mas quando nos deparamos com a maravilha da Wicca, da Bruxaria ou do Paganismo pela primeira descobrimos: "é disso que o mundo precisa!". 


Mas, de modo geral, não é. As pessoas pensam, vivem e lêem o mundo de formas diferentes. Um dos mais precisos sintomas da embriaguez do sentimento oceânico é acreditar que todas as outras crenças, práticas ou ofícios diferentes do seu são vazios de sentido ou significado. É inconcebível para um embriagado religioso que, por exemplo, uma auto-iniciação possa ser tão poderosa quanto uma iniciação formal. É impraticável para algumas dessas pessoas acreditar que o tarot não responda tantas perguntas como as runas ou a leitura das mãos. Ou que deuses egípcios estejam mais próximos que deuses tupi-guaranis. 

Em resumo, então eu digo: embriagar-se com o sentimento religioso é tornar-se fanático. E de modo que existem fanáticos evangélicos, católicos fervorosos e extremistas islâmicos, também existem embriagados religiosos na Wicca, na Bruxaria e no Neo-paganismo de modo geral, não nos deixemos enganar. 

A cura para essa embriaguez – que sem dificuldades com o tempo pode tornar-se dependente – é a ressaca intelectual: aprender a aceitar que as experiências não são únicas, que a cultura humana não é modelada para servir em massa, que as individualidades morais, espirituais e intelectuais existem e devem ser respeitadas. 

Essa ressaca é dolorosa, mas provar o sentimento religioso com sobriedade é algo que – acredito eu – que não tem preço. 

2 comentários:

brunodiniz disse...

Isso é verdade, eu mesmo passei por essa fase de embriaguez onde eu achava que qualquer outra religião era ridícula e sem sentido. Só com o tempo, maturidade e ouvir as pessoas certas que me mostraram o quanto estava errado e que precisava mudar essa pensamento. Fanatismo não leva a nada, sempre é melhor ver as religiões com consciência e respeito. Ótimo texto!

Érica Lucena disse...

Não acredito que religião alguma cause fanatismo. Do ponto de vista sociológico, religião é uma base de ordenação moral e social; na perspectiva religiosa, vejo em diversos credos que Deus é amor. As segregações, e práticas fervorosas são atos estritamente humanos.

Esta falha de percepção humana advém da falta de reflexão. A exemplo em uma das religiões dominantes, o Cristianismo, prega-se amor ao próximo, a honestidade, a simplicidade; não vejo a figura do Cristo longe dessas virtudes, mas sim muitos cristãos sem praticá-las, o que nos leva a conclusão que o problema não está no cristianismo per se.

O paganismo e suas vertentes não estão ilesas deste mal. Ainda que como citado, seja "estilo de vida" pois vivenciamos (ou deveríamos vivenciar) nossas diretrizes ideológicas e crenças na prática diária, ainda assim há o "religare", a conexão com o divino, que para nós está expresso em tudo que é vivo, na natureza. Desta forma, somos sim religião, estando portanto a mercê do deslumbre, da embriaguez citada pelo Odir em seu texto, tão verdadeiramente. O contato com o Divino é realmente encantador, e nem todos sabem lidar com isso; como alguns fanáticos, acham-se os mais abençoados, os escolhidos, os que estão no caminho certo.

Daí que acredito ser só falta de reflexão, que leva a intolerância - outra palavra chave na discussão destas questões, que considero análoga ao conceito 'fanatismo religioso'. Ora, se apelarmos para o sincretismo, perceberemos de imediato uma vasta similaridade entre as religiões; ainda sabendo-se que historicamente é comprovável que as religiões organizadas descendem das práticas das primeiras religiões (leia-se xamanismo e paganismo, através de práticas totêmicas, miméticas), e que como sabemos, existem diversos conceitos que trazem a mesma abordagem destes antigos cultos (santa trindade, morte e renascimento, entre outros festejos e figuras santificadas), não vejo motivos pelo qual deveríamos ainda nos deixar levar pelo sentimento inebriado do fervor religioso.

Quando alguém me fala das maravilhas de seu Deus, não me sinto ofendida, apenas em minha mente acontece uma tradução automática: que o Divino é um só, e que cada um vê o sagrado do modo que quer ver; explica-se da mesma forma como em cada cultura existe uma palavra diferente para amor, da mesma forma que cada local tem uma dança típica, uma crença e um ditado popular, cada um com uma versão em outras culturas.

Respeitar o Deus do outro é respeitar o seu próprio Deus, no meu caso, a minha Deusa e o meu Deus; pois tudo tem a mesma essência, mudada pela concepção cultural do HOMEM. Não ser um fanático, é não responder ações distorcidas em nome de Deus da mesma forma, é não se igualar, mesmo sabendo que nem todos serão tolerantes, nem terão a mesma capacidade de conceber o sentimento divino e a experiência da religião sem se deixar embriagar pelo sentimento oceânico.

É tão simples que dói ver como nós seres humanos complicamos tudo só por não refletir e não se colocar no lugar do outro.
:)