terça-feira, 4 de setembro de 2012

O Paganismo como alternativa (Parte II).

Helena (pintada por Poynter) viu Tróia pegar
fogo sem nada poder fazer. Que diferente de
Helena, através das nossas atitudes,
possamos salvar nosso mundo. Se não todo
ele, pelo menos alguma parte.
Aqui no primeiro texto eu comentei sobre a postura do paganismo frente a diversos paradigmas da nossa sociedade atual, tais como os conceitos de evolução, progresso ou ciência. Não que essa espiritualidade que é a neopagã negue esses processos, e diferente disso, não conheço neopagãos que neguem, para suas vidas, algum tipo de evolução ou progresso ou que tenha se afastado, de todo, da ciência.

Mas é a maneira na qual esses elementos são colocados na nossa cultura que estamos questionando. E é sobre essa alternativa, sobre esse recurso, sobre essa proposta que é a proposta intelectual e social pagã que nos ocuparemos a partir da segunda parte desse ensaio.


Uma vez que a nossa sociedade ocidental contemporânea mostra-se como uma cultura racional, linear e cartesiana, de modo geral, a tendência neopagã é percorrer um caminho diferente, mas não oposto. Pensar um mundo circular representa não ver o tempo em passado-presente-futuro, mas compreender que o tempo circular envolve uma constante volta no passado, avanços no futuro e permanências no presente. Sob essa perspectiva, só para alguns exemplos, se houve um tempo onde a Terra era respeitada como sagrada, podemos sim voltar à esse tempo. Se existirá um tempo onde o ser humano saberá conviver com o diferente podemos sim antecipar esse tempo. Se hoje temos uma relativa liberdade de pensamento, isso também pode permanecer. Pensar uma sociedade neopagã é compreender que nada está perdido, que coisas boas podem retornar e que tudo tem o seu devido tempo de plantio, crescimento e colheita.

O que os antigos chamavam de Intrepretatio consiste, basicamente, em ver nos deuses dos outros povos, manifestações dos deuses da cultura observadora. Para os gregos que viam os romanos cultuando um deus-rei, chamavam-no Zeus. Para os romanos que viam os gauleses cultuando um deus-Sol, chamavam-no Febo e assim por diante. Bem sabemos que o imperialismo greco-romano teve poucas dificuldades em aceitar o culto a deuses estrangeiros. Hoje vivemos em um mundo onde o deus diferente do meu é um demônio. Ou, então, simplesmente não existe. O neopaganismo propõe uma alternativa diferente. 

Visão essa que não é só necessária para o mundo plural, multiétnico e heterogêneo que é o mundo contemporâneo. Mas uma visão urgente para a sobrevivência e convivência de diferentes culturas. É o que o intelectual francês Edgar Morin chama de visão globalizante ou Era Planetária frente a globalização e mundialização que enfrentamos hoje. 

Gaia, para os gregos, era a deusa-Mãe representada pela própria Terra., que era seu corpo físico. Nessa escultura (fonte desconhecida) é representada alimentando seus filhos junto a ramos de flores, frutas e trigo. 
Essa mesma Terra que vivemos pode voltar a ser respeitada. Diferente da crença em que o homem deve "crescer, multiplicar e dominar a natureza" (Gn: 1-28), ele em verdade deve fazer parte dela, respeitando seus ciclos sendo o homem uma extensão desse corpo. O homem desce do seu patamar e não está mais sobre a natureza. James Lovelock quando escreveu sobre sua Hipótese Gaia já deixou claro que a Terra é um organismo vivo e que, vendo no gênero humano uma ameaça, tratará de exterminá-lo. 

O ser humano não é só ciência ou racionalidade. Já vimos na primeira parte como o racionalismo e o cientificismo podem levar a miopia "progressista" que aniquila culturas e ecossistemas exteriormente e toda uma vida mágica interiormente. Além disso, o homem também é cultura, é espírito, é arte, é filosofia e pensamento. Ele é multidimensional por natureza. Hoje confundimos racionalismo com racionalidade. Ser racional (e não racionalista) é pensar o humano em uma complexidade humana e não matemática. 

O homem que está sobre a natureza, no topo de uma pirâmide evolutiva é o Homo sapiens, sabedor, evoluído e racional. Sob essa perspectiva que estamos falando, lembramos então do Homo demens. O Homo demens classifica nossa natureza caótica, bárbara, selvagem e animalesca. É o ser humano que vive, que chora e grita. Só para dar um exemplo entre tantos, a aceitação do ser humano como Homo demens dificilmente reprimiria a sexualidade humana, nunca vendo-a como pecado, diabólica ou suja, como muitas das religiões estabelecidas insistem em observar. 

Sob os princípios da noologia, o que vemos hoje é uma embriaguez do sentimento religioso, como já escrevi aqui. É quando o ser humano torna-se um possesso das suas ideias. Sob a pressão e a repressão de instintos naturais e sexuais é que nascem o machismo ou a homofobia, por exemplo. A pluralidade de deuses selvagens ou ctônicos do panteão pagão das mais diversas culturas, já no mundo atual, dificilmente permitiria que isso acontecesse. Que possamos encontrar a mistura do Homo sapiens e do Homo demens que é o Homo complexus. 

O Neopaganismo é um fenômeno contemporâneo presente no mundo inteiro, onde muito mais que religioso, é cultural, estético, mental, intelectual e até político. Foto retirada daqui
O que propomos, então, em contraponto à cultura moderna, é o que diversas correntes não necessariamente espirituais ou religiosas já lutam ao longo de meados do século passado: a proposta de uma contracorrente ecológica, qualitativa (pela qualidade de vida), pela resistência à vida prosaica (busca pelo amor, poesia e pelas artes), uma contracorrente ao consumismo (consumo consciente e sustentável) e outras duas ainda tímidas, contracorrentes da emancipação da tirania do dinheiro (não-consumismo) e negação à violência (trabalhos de pacificação). 

Hoje religiões tradicionais estão em crise. O modelo patriarcal de um deus-homem sentado em um trono de ouro em um céu cheio de nuvens não corresponde às necessidades das novas gerações. O politeísmo propõe, geralmente, um contato mais próximo desse "deus distante" (que já falou Mircea Eliade). Uma vez que não existe um só deus, mas vários deuses, a vida cotidiana do homem torna-se divina e sagrada. Os deuses estão em todos os lugares e em diferentes lugares, e se manifestam de diferentes formas, pois os seres humanos são diferentes, pensam diferente e dialogam com o mundo de uma maneira diferente. E exatamente por isso os homens podem sim dialogar com essa pluralidade divina, e não submeter-se cegamente a uma autoridade invisível.  

Para finalizar, cabe lembrar que uma sociedade neopagã não é necessariamente uma sociedade religiosa, ainda que mundo civil e mundo religioso na Antiguidade fossem coisas difícil de se separar. Pois o neopaganismo não é só o resgate de uma religião antiga, copiada e colada no calendário contemporâneo, mas uma adaptação de valores do passado ao mundo atual. 

Como disse no primeiro ensaio, não sei se é de uma religião que o mundo precisa. O mundo precisa, antes de mais nada, é de atitudes. E atitudes só ocorrem através da mudança de mentalidade. Que possamos relativizar nosso nundo contemporâneo então. Sejamos politeístas, monoteístas ou ateus. Ou todas essas coisas misturadas em um só ser humano.  

2 comentários:

Julio Soares disse...


Amei esse, na boa. Mostra sinceramente do que o mundo precisa: a compreensão da pluralidade, a consciência de uma forma de adaptação e interação como o mundo e com as diversas culturas, para vivermos como um todo - porém, cada um com sua diversidade. Vish, perdi a inspiração pra comentar. [...]
Basicamente, mostra que o ser humano precisa conhecer a ideia de que o mundo jamais vai mudar diante das suas atitudes, pois o que para os gregos era Gaia, é um ser vivo que simplesmente vai se livrar daquilo que a prejudica - o ser humano, no caso, que pensa dominar a natureza, mas esquece que veio dela. O texto não tenta converter ninguém a religião nenhuma, mas mostra que os padrões de vida ao estilo pagão, ao estilo arcaico, onde os seres humanos eram todos irmãos e todos se respeitavam. Hoje em dia o diferente é algo negativo ou inexistente, quando deveria ser, na realidade, apenas algo igual, mas de forma diferenciada.

Anônimo disse...

Depois de passar algumas horas no seu blog procurando informações sobre o panteísmo deparei-me com o paganismo ( o que é relativamente ligado ), mas de várias tentativas frustadas de encontrar conteúdo para a filosofia panteísta ( não a religião, nem a adoração à natureza ) peço-lhe que faça um especial sobre panteísmo, seria bem-vindo um vídeo no youtube com tal título. agradeço desde já [ e peço desculpas pela mistura de linguagem culta e popular usada nesse comentário ] { mas cá entre nós ... o panteísmo é realmente a resposta certa quando se pergunta algo sobre deus ser tudo =D }