sábado, 13 de outubro de 2012

Porque Halloween não é Samhain.

Detalhe de Enfeitiçado pelo Medo (Goya).  É o
aspecto de "trevas" da bruxa que ficou eternizado
no seu estereótipo. No Dia das Bruxas isso
é relembrado. 

Resolvi escrever esse artigo, pois pelo que estou vendo nas redes sociais, chegando a tradicional data de 31 de outubro, muito querida entre os bruxos e bruxas do mundo inteiro, muita confusão começa a se fazer sobre o assunto. Joga-se folclore, contos de fada, religião, espiritualidade e uma pseudo-história dentro de um caldeirão e o que sai disso pode ser muito problemático. 

Ainda que o Halloween seja uma coisa e o Samhain outra, pode haver sim uma convivência pacífica e saudável nessa relação. Basta que tenhamos, bem claro em nossa mente, o que cada coisa significa, onde isso deve ser aplicado e que tudo tem o seu momento específico.

Vamos começar, como eu sempre gosto, trabalhando com conceitos. Samhain é o nome dado ao sabá Wiccano, sendo assim, então, uma festividade ou celebração própria da religião Wicca, muitas vezes tida como a maior das oito celebrações anuais do calendário litúrgico dessa religião. A Wicca é uma religião organizada por Gerald Gardner, um inglês. Gardner disse ter tomado contato com um coven (grupo de bruxas) de New Forest, no extremo sul da Inglaterra, e com base no material coletado desses bruxos e bruxas estruturou a religião Wicca com a ajuda de outros estudiosos. A bagagem intelectual e filosófica para a organização da Wicca é o ocultismo moderno e uma releitura de mitos celtas. A organização dois oito sabás anuais tem essa inspiração, que buscam as “origens pagãs” de festividades inglesas e folclóricas já sincretizadas com o cristianismo.  No sabá de Samhain se honram os ancestrais e reconhece-se a morte do Deus, que renasce no sabá seguinte, Yule.

Pintura da Roda do Ano no Museu de Bruxaria
em Boscastle.  Prestem atenção no
detalhe no Samhain.
Clique para ampliar. 
É comumente aceito hoje que alguns grupos celtas viam nessa época do ano, um momento de transição de um ano velho para um ano novo, ocorrendo isso algumas semanas antes do solstício de inverno. Se homenageavam os ancestrais e a barreira entre os mundos dos mortos e dos vivos ficava mais tênue. Essas tradições celtas se misturaram com a cultura romana, mais tarde com o cristianismo e isso deu origem às celebrações do dia de “Todos os Santos”, e começou originalmente para homenagear os mártires, aqueles que morreram por professar a fé cristã. Com o tempo, essas celebrações passaram a ser preparadas desde a noite anterior, como uma vigília. Em inglês, All Hallow’s Eve, em português, “Noite de Todos os Santos”. A expressão em inglês foi se transformando aos poucos até dar origem ao nome Halloween.

Como era um período onde os mortos andavam também pelo mundo dos vivos, as abóboras com desenhos assustadores talhados junto a uma vela dentro, para servir de lanterna, serviam para espantar os espíritos que quisessem atormentar os vivos. São os chamados Jack O’ Lantern. Com o tempo, outros elementos lúgubres relacionados ao terror, à morte, ou até mesmo a fantasia foram adicionados. É aí que entram as bruxas, historicamente relacionadas à morte, às trevas e ao horror.

O discurso comum é de que o Halloween é uma festa norte-americana, o que é um equívoco. Na verdade é uma festa com origens celtas, sendo assim, levada aos Estados Unidos através da imigração irlandesa. Ela se populariza nos Estados Unidos, e de lá vai para o resto do mundo. Mas sua origem não é americana.

Pra entrar no clima, o autor, no
Halloween de 2011.  À direita, com
o chapéu. 
Para resumir: Halloween é uma brincadeira, é um folclore, uma tradição cultural. Uma festa já muito explorada pelo capitalismo (o que de forma alguma tira sua diversão). O Samhain é uma festividade sagrada, um ritual religioso, típico de uma religião específica, mas celebrado por outros grupos neopagãos posteriormente. No Samhain existe o culto, a devoção, o contato com os deuses e com os ancestrais. No Halloween esses compromissos não existem, só a diversão é esperada. Enquanto que uma festa é profana, a outra é sagrada. Enquanto que o Halloween pode ser uma festa pública, o Samhain é melhor que seja uma celebração privada entre os membros praticantes de uma mesma espiritualidade comum.

Como eu disse no começo do texto, com cada coisa ocupando o seu devido momento, sem dúvida o diálogo entre o Samhain e o Halloween pode ser saudável. Um Feliz Dia das Bruxas, mas um abençoado Samhain (ou Beltane) se for esse o caso também!

4 comentários:

gil yoko disse...

Excelente post para diferenciar o que é Halloween de Samhain.
Sou pagão e busco celebrar a espiritualidade celta conforme suas origens; como os 8 Sabbaths tem com origem o ciclo natural do planeta, representado pelas estações do ano, para quem vive no Hemisfério Sul do planeta dia 31 de outubro deve-se comemorar Beltane, rito de fertilidade onde o Deus fecunda a Deusa prenunciando o verão, e Samhain deve ser celebrado em 1º de maio. Espero ter contribuído um pouco com a prática da vida pagã.

AugustoCrowley disse...

Muito bom, sempre é bom por as coisas em seu devido lugar!

Tiago Bosquê disse...

Comentei lá e comento aqui.

Gosto do texto, concordo com o que se diz na maior parte, mas uma coisa me preocupa.

A definição de "uma brincadeira, um folclore, uma tradição cultural" separada de uma "festividade sagrada, um ritual religioso, típico de uma religião específica", e finalmente, a separação de "Enquanto que uma festa é profana, a outra é sagrada", são meio assustadoras.

A princípio porque elas me fazem pensar em uma religiosidade separada da cultura e das atividades humanas, quando tanto a Wicca quanto o paganismo como um todo se pautam em uma comunhão com o mundo, com a natureza e com os outros e suas atividades, semelhanças e diferenças. Esta comunhão não pode ser somente mágica ou somente ritual, senão caímos no paradigma cristão de sagrado Versus profano, quando na verdade pregamos que o profano faz parte do sagrado. São religiões que se focam em uma imanência, e não em uma transcendencia.

Concordo que Halloween e Samhain são coisas diferentes, mas é preciso cuidado para não negligenciar que são festas em datas semelhantes, são relações de apropriação cultural muito mais antigas e complexas do que se imagina, pois cultura, folclore, religião, brincadeira e festa são coisas cujas fronteiras não podem ser tão rígidas, senão a gente acaba por criar um referencial engessado.

Cuidado com a identidade. Ela faz de você quem é, mas pode te impedir de fazer de você mesmo quem você gostaria de ser.

João Manoel disse...

Ótimo texto. Parabéns!