quinta-feira, 8 de novembro de 2012

7 Motivos para rituais não virarem espetáculos.


A Cozinha das Bruxas está atualmente no Kunsthistorisches Museum, em Viena, mas não me recordo o autor. Rituais cheios de gente podem ser ótimos. Mas com pessoas que saibam o que estão fazendo, de preferência.
1. Rituais públicos e privados são coisas diferentes. Não sou contra esse primeiro tipo, aliás pelo contrário, já disse em outras oportunidades que o paganismo deve ser algo divulgado sim. Mas qualquer pessoa que já organizou ritos privados e públicos sabe que as estruturas rituais, bem como a condução do mesmo, segue formas totalmente diferentes se a ritualística ocorre entre quatro paredes, ou se o rito está aberto a ser observado em um parque público, por exemplo. 

Rituais públicos não contém certos procedimentos ou certas invocações que os privados têm: as pessoas simplesmente não entenderiam, ignorando o que está sendo feito, ou deturpando o sentido verdadeiro do que pode estar acontecendo. Por isso, eu repito: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

2. Se não existe, ao longo do rito privado, nada que possa ofender, escandalizar ou assustar o espectador curioso (pois “se não tem nada de absurdo, qual seria o problema de outros assistirem?” podemos nos perguntar), também não existem motivos dos quais uma plateia pode ajudar. Aliás, diferente disso, muitas vezes a intenção ou a expectativa gerada do lado de fora do círculo mágico pode interferir na concentração necessária para a limpeza do espaço, para a invocação ou para o condução ou direcionamento da energia necessária para o cone do poder, por exemplo.

Bagagem do mundo clássico, vemos em As ninfas de Diana perseguidas pelos sátiros de Rubens, o elemento sexual e orgiástico que até hoje está no imaginário popular quando se fala em "rituais de bruxas". Em outra oportunidade falaremos sobre as origens desse pensamento. 
3. Toda a religião (e a Wicca não é exceção) possui claras barreiras entre o sagrado e o profano. Pois, se não existe essa limitação, não sabemos a diferença entre o momento de dar atenção aos deuses e o de dar atenção aos homens, e a própria Bíblia exemplifica isso no começo do capítulo 3 de Eclesiastes.. As pessoas estão acostumadas com as religiões proselitistas onde há a necessidade da conversão e, logo, a necessidade de “arrebanhar” adeptos para a “verdadeira” fé. 

Não penso que muitas espiritualidades pagãs tenham essa intenção. Mas até mesmo nessas religiões, sejam elas proselitista ou não, fronteiras entre o público e o privado existem: no caso do islamismo, algumas mesquistas são reservadas só aos homens; no caso católico, nem todos podem participar da eucaristia (como não-batizados e divorciados, por exemplo); ninguém entra em um centro espírita ou em um terreiro de candomblé invadindo todos os recintos, tocando em todos os altares.

A feiticeira, diferente da bruxa, geralmente é retratada como solitária na literatura. O Círculo Mágico de Wordsworth retrata bem essa representação.
4. Segredos não são a mesma coisa que Mistérios. Muitos rituais wiccanos e de demais práticas de bruxaria e feitiçaria não são segredos pra ninguém, é só dar uma googleada sobre o assunto e em alguns minutos, já se tem uma noção básica. Mas os Mistérios, não. Os Mistérios são conhecimentos revelados, insights, “verdades” que fazem com que vejamos o mundo com outros olhos. 

Alguém que não conhece os Mistérios pode enxergar pessoas dançando peladas com facas nas mãos ao redor do caldeirão, mas só isso. E isso pode ser engraçado ou até ridículo. Porém, aqueles que conhecem esses Mistérios enxergam essa mesma cena, mas vendo coisas totalmente desconhecidas aos olhos não treinados. E ainda vale lembrar: esses conhecimentos Misteriosos só são “ocultados” pois não pertencem ao senso comum. Mas qualquer pessoa disposta a “desvelar” esses Mistérios consegue fazê-lo. Basta se sacrificar um pouco trilhando a jornada de pés descalços. E acontece que nem todos estão dispostos a fazê-lo. Querem abrir uma cortina e pronto: “Descobri!”

Antes de qualquer coisa, rituais devem ser transformadores e é importante que tudo contribua para essa esfera. Autoria da imagem desconhecida. 
5. Quando vamos a um restaurante desconhecido pela primeira vez, tudo parece maravilhoso: a comida, o atendimento, o ambiente, as pessoas etc. Quando isso torna-se um hábito, toda a “magia” da coisa (se me permitem o trocadilho) se perde. A aura de velas e incensos em um momento específico da noite ou da estação do ano também servem para “avisar” o nosso cérebro que algo especial está acontecendo e que, consecutivamente, vai acontecer. 

O fato de ter pessoas do nosso cotidiano (profano) ao redor, provavelmente não entendendo muito bem o que está acontecendo não ajudaria nessa mensagem. Nem na mensagem cerebral nem na mensagem divina.

6. Meus livros - até mesmo os mais velhos ou os mais baratos da coleção L&PM Pocket  - são preciosos, não deixo qualquer pessoa tocá-los. Minha casa também é sagrada, não convido qualquer pessoa para entrar nela. Não revelo os segredos das pessoas que amo por aí. Muitos dos meus projetos, dos meus sonhos, das minhas aspirações, pertencem só a mim, aos deuses e a um seleto grupo de seres humanos. 

Minha espiritualidade também é especial, e exatamente por sê-lo, querer dividir ela com pessoas que não são do Ofício seria como tentar conversar com um estrangeiro sem que ele conhecesse o meu idioma. E isso é dispendioso, desgastante e desnecessário.

7. Se os rituais podem ser tidos como um espetáculo, os únicos espectadores devem ser os deuses e os espíritos invocados no trabalho mágico. Não mais do que isso por um simples e único fato que poderíamos resumir: outras pessoas não ajudariam em nada.


4 comentários:

Sérgio Guarani Kaiowá Adolfo disse...

As pessoas leigas pensam que todo ritual pagão é uma festa em que todos podem participar...rituais privados, o próprio nome já diz, é apenas para os iniciados.

Arne Saknussem disse...

para um profano, um ritual é apenas um teatro.

Emanuel disse...

Só para variar, me vi espelhado em cada uma das suas linhas. O motivo pelo qual sou Solitário, escrito de uma forma magistral.
Porque simplesmente existem coisas inexplicáveis, e, de fato, deliciosamente inexplicáveis.

Rose Hewson disse...

Adorei !! Vc expressa muito bem as diferenças, e o "porque" destas diferenças. Lendo seu texto me encontrei em várias frases, penso como vc, e tento conduzir minhas escolhas e meus rituais num circulo onde somente eu mesma e meus Deuses participem. Pelo simples fato de que outras pessoas possam não entender ou até não aceitar minhas escolhas, e se elas estiverem presentes em nada vão ajudar e até possam mesmo sem intenção, cortar a energia positiva deste círculo! PARABÉNS Odir Fontoura, e obrigado por nos presentear com seus textos, suas experiencias e sua cultura quando fala de nossa religião e desta nossa escolha! QUE A DEUSA CONTINUE TI ILUMINANDO POR TODO O SEMPRE! Assim será! bjsss