quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Fonte da Donzela (Ingmar Bergman, 1958)

Jungfrukällan, como é conhecido no original, tornou-se um dos meus filmes prediletos. Primeiro porque traz a questão da convivência paganismo-cristianismo, segundo e consequentemente porque trata de questões simbólicas e do imaginário, e por fim, por trazer traços muito fortes do expressionismo.

O filme conta a história da família de Herr Töre (Max von Sydow, o Padre do Exorcista) e Märeta Töre (Birgitta Valberg), camponeses cristãos de uma baixa Idade Média. A história começa com Ingeri (Gunnel Lindblom), bastarda e serviçal da família, às escondidas, fazendo uma invocação a Odin, enquanto que a cena é quebrada com o casal Töre orando para Jesus morto na cruz frente ao altar da casa. Isso já revela a tensão da justaposição paganismo-cristianismo, sendo que o primeiro é marginal e periférico, e o segundo, a crença "oficial". Mais tarde, Karin Töre (Birgitta Pettersson), a filha do casal, é incumbida de levar pães ao padre da Igreja e velas para Virgem Maria. A mãe questiona se uma das serviçais não pode fazê-lo, mas o pai assume que somente uma virgem poderia levar velas à Virgem, Mãe do Cristo. Karin acompanhada de Ingeri então montam em seus cavalos e viajam à Igreja, que é longe da casa onde moram.

Para chegar à Igreja, têm de atravessar a floresta, e é lá que encontram um homem que reconhece a bárbara Ingeri, e confessa que escuta coisas que "a humanidade sussurra em segredo e vê o que ninguém pode ver". O homem ainda sacrifica ao deus Odin, faz com que Ingeri ouça a alma de três homens que correm ao norte, como se estivessem sendo arrastados pelas Valkírias. É na floresta que vemos frequentemente corvos que gritam (lembrando que Odin tinha dois corvos que sempre lhe acompanhavam e que simbolizavam a Memória e o Pensamento).


Cristo Crucificado, importante símbolo da espiritualidade medieval. 
Ingeri, em segredo, invoca o auxílio do deus Odin.
Karin e seu pai, símbolo da autoridade paternalista.
Karin, exemplo da virtuosidade cristã.
Ingeri e Karen, paganismo e cristianismo. 
Karin na floresta.  
Ingeri, em segredo, invoca o auxílio do deus Odin.
A árvore que não deixa de representar a Iggdrasil, que liga o mundo humano ao mundo de Deus (ou dos deuses).  

Enquanto que Ingeri é a bárbara pagã, também por estar grávida, relembra a antiga relação do paganismo com os ritos de fertilidade. Karin é o arquétipo da pureza cristã, e por ser virgem, mais por vontade de sua mãe que por seu desejo natural, mas ainda assim, é devota da Virgem. A mãe em certo momento se martiriza com gotas de velas nas mãos e isso representaria a questão do pecado original como inerente à mulher. Em outro momento, uma das servas da casa, falando sozinha confessa que é "a vida miserável que Deus permite que todos nós vivamos". O pai da família Töre é como um cristão convertido, que ainda que faça suas orações a Jesus antes de comer o pão e beber o vinho, em um momento necessário, antes de cometer certa vingança, se banha com as folhas de uma alta árvore que não seria impossível relacionarmos com a Yggdrasil, como num banho ritualístico e purificador para uma batalha que, sem dúvida, no passado, o deus guerreiro Odin abençoaria.

O filme trata da miséria do mundo físico medieval comparada à uma riqueza imensurável do mundo do imaginário e das representações simbólicas. É um filme de contrastes, de oposições e de convivências. Não falarei mais para não contar a história em si. Mas após assistir o filme, não deixe de ler esse artigo, escrito pelo prof. Dr. Edilson Baltazar Barreira Júnior da UFC que faz uma análise histórica, simbólica e sociológica da obra. Imperdível.

Para assistir: Filme (arquivo direto) + Legenda (desmarque a opção Use Open Subtitles Manager e clique em descarregar).
Sobre o filme: Preto e branco, áudio em sueco, legendas em português.
Palavras-chave: Paganismo, Cristianismo, bruxaria, purificação, assassinato, drama, Idade Média.


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