quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Medeia (Pasolini, 1969)


Medéia é o tipo de filme que poucos hoje conseguem apreciar. Por ser relativamente antigo e esteticamente diferente, é inspirado na obra clássica de Eurípedes. A Medéia de Pasolini é fiel ao arquétipo da feiticeira que oscila entre o humano e o divino, o maldito e o sagrado, o perdoável e o injustificável.

O filme já em seu início traz um centauro, preceptor de Jasão que conversa sobre os princípios da natureza, do mito e do racional. "Tudo é santo, a natureza é santa" confessa, pra assumir logo depois que "não existe nenhum deus". Jasão cresce, parte à Corinto a fim de reinvidicar um lugar que é seu por direito. O rei atribui-lhe o trabalho de resgatar o velocino dourado que atualmente se encontra na Cólquida, terra natal da sacerdotisa Medéia. Jasão em companhia dos argonautas parte então ao seu destino, e lá encontra Medéia que, apaixonando-se, rouba o animal que era sagrado à sua pátria, mata o irmão e volta na companhia de Jasão à Corinto, tendo então três filhos com o homem ao longo do anos que residirá longe de sua terra natal. Jasão trai a sacerdotisa, optando por casar-se com a filha do rei. O filme tratará, então, do sentimento de vingança de Medéia frente ao desrespeito cometido pelo marido.

A preocupação estética do filme é evidente ao longo da obra. Pasolini contrasta o mundo "bárbaro" de Medéia com poucos diálogos, um sacrifício humano (pois nas palavras de Medéia, o renascimento vem da Morte), vestuários escuros, uma terra árida com símbolo da Cólquida. Ao abandonar seu mundo e ser recepcionada em Corinto, abdica de suas vestes antigas, sendo então adornada com véus mais claros e finos, entrando então para o mundo "civilizado" dos gregos. Porém, como assume mais tarde, perde sua identidade pois esqueceu-se das suas artes, sequer consegue ainda ouvir a terra ou o sol logo que foje com Jasão - particularmente gosto muito dessa cena. O retorno à sua identidade se dá quando, revoltada pela vingança e o abandono cometido pelo marido (princípio de alké, coragem), veste os antigos trajes e ouve mais uma vez seu avô, o sol.


 Cena ritual.
Medeia no templo.
Medeia como Sacerdotisa em trajes ritualísticos. 
Medéia é uma feiticeira, e como tal é bárbara, é marginal, e por isso teria de ser exilada. A história através de Eurípedes ou de Pasolini tratará dessa natureza obscura e maldita, que constituindo uma ordem (kósmos) que foi quebrada, só será reorganizada pelo sacrifício.

Para assistir: Filme + Legenda.

Sobre o filme: Áudio em italiano, legendas em português. 
Palavras-chave: Magia, Sacerdócio, Romance, Drama, Antiguidade.


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