quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Mágico de Oz (Victor Fleming, 1939)


Mais conhecido cartaz do filme O
Màgico de Oz
, dirigido por Victor
Fleming.
Baseado no livro de L. Frank Baum, O Maravilhoso Mágico de Oz de 1900, o filme só é publicado quase quatro décadas depois, estreando em 1939. O filme já começa com uma mensagem de agradecimento, “àqueles que são jovens de coração” por apreciarem essa obra que em seus 40 anos não havia caído no esquecimento. E cá estamos nós para sugerir que depois de 112 anos ela continua em voga. 

Trata-se de uma história infantil que tem em Dorothy Gale sua personagem principal. Basicamente, Dorothy vive em uma fazenda no Kansas e, acompanhada do seu cãozinho Totó vai parar no mundo mágico de Oz. Lá, auxiliada por uma Bruxa Boa e prejudicada por uma Bruxa Má acaba por encontrar um Espantalho que deseja ardentemente um cérebro, um Homem de Lata que queria um coração e um Leão que sonhava em ter coragem. Os quatro rumam à Cidade das Esmeraldas para pedir ao famoso Mágico que concedessem-lhes esses pedidos. O que Dorothy queria, então, nada mais era do que voltar para sua casa.

Houveram muitas interpretações para a história, que foi desde ver no trabalho de Baum um manifesto ateu, até como um propagandista do populismo político americano. A interpretação em que vamos nos deter aqui, então, trata-se de uma leitura mítica e dos aspectos ocultistas e esotéricos do filme.

Frank Baum foi conhecidamente um adepto da Teosofia. A grossas linhas, podemos resumir a Teosofia como uma corrente filosófica e intelectual, divulgada amplamente por Helena Blavatsky no final do séc. XIX. Estudiosos dessa filosofia procuravam identificar os aspectos esotéricos e místicos nas grandes religiões do mundo, bem como seus aspectos iniciáticos que eram compartilhados como elemento comum. A Teosofia, de certa forma, é um corpus intelectual e oculista que mistura religião, filosofia e ciência. Para analisar a obra de Baum não podemos esquecer disso.

Tanto o escritor do livro quanto sua esposa foram estudiosos da Teosofia. É conhecido o fato de que ambos, já em 1892 já eram membros logo depois de terem mudado-se para Chicago. Se existem elementos místicos e ocultistas em O Maravilhoso Mágico de Oz podemos sugerir, então, que isso não trata-se de coincidência.

ATENÇÃO: A partir daqui existirão spoilers, ou seja, revelações da história. Se você ainda não viu o filme, antes assista e depois leia a análise. Vá direto ao último parágrafo desse post e baixe o arquivo caso não tenha o filme em mãos para assistir.

Aqui, clássica cena de Somewhere over the rainbown. 
A história começa com Dorothy (Judy Garland) na fazenda dos seus tios no Kansas, que é uma metáfora para o mundo material, mundano e profano da existência humana. Acidentalmente Totó morte a vizinha da família de Dorothy e a menina está preocupada com o que vai acontecer. Dorothy tenta falar com sua família sobre o que a vizinha fará com seu cachorro, mas ninguém lhe dá ouvidos: A sociedade não dá ouvidos para quem é verdadeiramente sábio e possui Verdadeiras ambições, mas diferente disso prefere preocupar-se com coisas supérfluas, como cuidar dos pintos ou dos porcos como faziam os tios de Dorothy e os demais trabalhadores da fazenda.

O Louco, no tarot de
Marselha. A falta de bagagem
e o cão seguidor são os
aspectos mais evidentes a
serem relacionados. 
A menina sente-se desiludida e, sozinha, sonha com um lugar melhor. Diz: “não é um lugar onde podemos chegar de barco ou de trem (...) Um lugar onde se não tenha problemas”, ou seja, um mundo onde não se pode alcançar através da matéria e isso representa a Vontade mortal de ascender ao mundo dos deuses. É então que Garland canta a clássica e eternizada Somewhere over the rainbown.

Dorothy foge da fazenda, e a cena em que ela está caminhando, à distância da câmera e levando uma pequena bolsa e uma cesta, mas acompanhada com seu cãozinho é uma clara referência ao Louco do tarot. O Louco não possui bagagem, pois isso representa a ignorância humana e a falta de experiência necessária para empreender uma nova Jornada mística. O cão representa os resquícios de intelecto, de auto-controle e intuição necessária para que a o caminho não seja feito somente de Caos. O Totó para Dorothy é como o Grilo Falante para Pinóquio.

Já longe da fazenda, a menina passar por uma ponte para chegar ao charlatão professor Marvel, e essa ponte representa por si só uma “transição” entre os mundos do lar (mundo interior) e do mundo exterior. O homem convida-a para entrar e vemos no quarto do professor um local cheio de simbolismos interessantíssimos. Possui uma caveira na porta, e isso representaria a Morte que guarda a transição entre os Mundos. Para submeter-se à Iniciação, é necessário morrer para só depois, no mundo divino, renascer. A caveira lembra que tudo morre, tudo tem um fim, inclusive o homem profano (aqui representado pela ingenuidade de Dorothy e da falácia do professor Marvel).

Ao fundo, veja o pentagrama invertido.
Dorothy Marvel
Em certo momento o homem senta em sua cadeira, entre duas velas acesas, o simbolizaria a dualidade de todas as coisas: bem X mal, masculino X feminino, luz X trevas. O homem assiste sua bola de cristal em busca de notícias. Quando a câmera dá um zoom em Dorothy, vemos no papel de parede um pentagrama invertido, que representa a superioridade do material (duas pontas) sobre o espiritual (uma ponta). Afinal, independente da pose, o professor Marvel também não é um Bruxo, ainda é um humano.

Dorothy desiste de fugir de casa, e no seu retorno à fazenda, surge um tornado que leva a casa da menina aos céus. O tornado em espiral, em sentido ascendente, simboliza a Kundalini ou as serpentes do caduceu de Hermes que se entrelaçam e simbolizam a ascensão divina. Também podemos fazer uma clara relação ao Cone do Poder dos rituais da Wicca. Assim como Dorothy vai aos céus, como “em êxtase”, depois ela cai, como o praticante da Wicca também faz, após dançar no Círculo mágico e faz então o “aterramento” da energia.

A menina desmaia no meio do tornado, e acorda quando tudo já está silencioso. E esse é um momento de extrema importância, de uma beleza única caracterizado magistralmente no filme. O momento em que Dorothy levanta, sai do quarto e abre a porta para a rua e chega finalmente a Oz é quando o filme passa a contar a história em cores. Sai do sépia e vai para o technicolor. E nós aqui bem sabemos que é exatamente essa a sensação de quando abrimos um Círculo mágico ao nosso redor, de quando abrimos os olhos depois da Iniciação, de quando verdadeiramente tivemos um contato direto com alguma divindade. Eu arriscaria dizer que a prática da Bruxaria consiste em ver o mundo em cores, mas o Bruxo ou a Bruxa oscila entre os mundos sépia e colorido. O mundo sépia ou preto-e-branco é o mundo humano. O mundo colorido, é o mundo mágico ou divino.

Dorothy se surpreende ao ver o mundo de Oz pela primeira vez. 
Aqui, todos os personagens “reais” se desdobram no mundo mágico de Oz. A vizinha malvada, que tornou-se a Bruxa Má do Oeste e mais tarde veremos que o Espantalho, o Homem de Ferro e o Leão também sãos os trabalhadores da fazenda. E isso nos mostra que todos podemos oscilar entre o mundo mágico e mortal, mas nem todos têm consciência disso.

Dorothy descobre que, sem querer, matou a Bruxa Má do Leste tornando-se uma heroína em Oz. Surge então a Bruxa Boa do Norte. Essa Bruxa não tem dúvidas de que Dorothy também é uma bruxa, mas a menina não tem consciência disso. Pergunta se Dorothy é uma bruxa boa ou má. Ela, que não sabe o que é, diz que não é nem uma coisa nem outra. A menina se surpreende ao descobrir que existem bruxas belas.

É então que surge a Bruxa Má do Oeste, e promete vingar a morte da irmã, mas sobre ela falaremos mais tarde. Dorothy descobre que para voltar pra casa, precisa pedir isso ao Mágico de Oz, e então começa o caminho percorrendo a estrada de tijolos amarelos.

Interpretada por Margaret Hamilton, a imagem da bruxa verde (que não aparece no livro) ficou eternizada como o arquétipo de "bruxa má".
Uma estrada em espiral, que mostra mais uma vez o caminho para a Jornada mística. Em certo momento, antes de conhecer o Espantalho, Dorothy está de frente para um caminho trifurcado. O três, bem sabemos, é um número especial: Passado, presente e Futuro; Inferno, Terra e Céu, e daí por diante. Hécate, deusa que possui as chaves dos caminhos frequentemente é retratada com três faces. O cão Cérberus que guarda a entrada do Hades também tem três cabeças. Dorothy, então, não se preocupa muito sobre o caminho que irá tomar. No fundo ela sabe, assim como todas Bruxas, que todos os Caminhos levam a um só final.

O caminho tripartido.
É ao longo dessa Jornada que Dorothy conhece o Espantalho, O Homem de Ferro e o Leão, que formam um quarteto que não pode ser deixado de lado quando lembramos da “pirâmide das bruxas”: saberquererousar calar. O saber é representado pelo Espantalho que queria um cérebro. O querer, pelo Homem de Ferro que queria um coração, pois o Amor é a motivação de toda Criação. O Ousar é simbolizado pelo Leão que queria coragem. O Calar, por fim, é a ambição (ainda que inconsciente) de Dorothy: calar seus impulsos desmedidos, sua ambição infantil, sua natureza humana e profana. Ela calou quando tentara reclamar da vizinha no começo do filme e também calou quando sua família não acreditou na sua história no final. Ou seja: depois da Jornada no mundo divino, a Bruxa volta para a terra profana, e aqui deve calar, pois nem todos entendem a linguagem do mundo mágico.

saber, querer, ousar calar podem perfeitamente ser representados pelos quatro neófitos da Jornada. 
Mais tarde, no Caminho, a Bruxa Malvada do Oeste faz com que Dorothy fique inebriada pelo aroma das papoulas e acaba, então, adormecendo. Sabemos que é dessa instigante flor que se produz o ópio. A papoula, então, simboliza o sonho, o sono profundo, bem como o submundo. Antes de seguir viagem, então, Dorothy precisa descansar, descer até o submundo para seguir adiante em sua jornada.

Depois de um tempo, eles finalmente chegam à Cidade da Esmeraldas, mas não chegam ao Mágico com facilidade. Todos depositam uma extrema confiança no Mágico, mas nem todos sabem exatamente quem é ou o que faz. Aqui, o Mágico representa Deus como é visto pelo senso comum judaico-cristão: uma autoridade máxima, perfeita, distante e que pode tudo. Autoritário, não dá explicações, nem interage com aqueles que supostamente “criou”. O filme mostrará que esse “Deus” não será suficiente para a Iniciada. “Eu nunca vi o Mágico” confessa o porteiro da cidade. “Então como sabe que ele existe?” alguém pergunta. “Ah, não me façam perder o tempo” ele responde.

Mais tarde, a Bruxa Malvada aparece mais uma vez e escreve nos céus, com uma fumaça, “renda-se Dorothy”. Todos ficam alvoroçados e vão correndo perguntar ao Mágico. Um homem que serve de intermediário (como os sacerdotes das grandes religiões) responde à população desenfreada: “está tudo bem, voltem para suas casas” mesmo sem saber exatamente o que está acontecendo. As ordens são de que ninguém pode ver o Mágico, o que reproduz o pensamento senso-comum do catolicismo, por exemplo, onde são somente os sacerdotes que podem alcançar a Deus, não ficando isso possível ao homem comum.

Enquanto o leão ficou cantando sua coragem, que receberia do Mágico, não puderam entrar no castelo. Foi só quando Dorothy, em sua humildade, lamentou e reconheceu sua perda, que puderam atravessar o portal. E aqui nos lembramos da Carga da Deusa: “Que haja beleza e força, poder e compaixão, honra e humildade, júbilo e reverência dentro de ti”. Se não existe a consciência dessas dualidades, não é possível submeter-se à Iniciação.

Mais tarde conhecem finalmente o Mágico que conceder-lhes-ia os desejos caso conseguissem roubar a vassoura da Bruxa Malvada. Os quatro conseguem essa empreitada, com Dorothy matando a Bruxa no final. Eles voltam ao castelo do Mágico e descobrem que trata-se de um falsário, mas ainda assim, mostra ao Espantalho, ao Homem de Ferro e ao Leão que tudo o que sempre quiseram, estava dentro deles. Também na carga da Deusa, encontramos: “Jamais encontrará fora aquilo que não tiver dentro de si”.

O Mágico promete voltar para o Kansas com Dorothy, mas Totó (a sanidade e a intuição de Dorothy) foge do balão, e o Mágico segue sozinho seu rumo. Isso representa as falácias e as “promessas vazias das religiões organizadas” como já foi dito.

Dorothy se surpreende quando descobre o "Mágico".
A Bruxa Boa do Norte diz para Dorothy: “Você sempre teve o poder de voltar para o Kansas” quando lhe diz que bastava bater os calcanhares e fazer o pedido. “Então porque não havia contado antes?” lhe perguntam. “Porque não teria acreditado em mim” responde a Bruxa Boa. Ou seja, antes da Jornada, Dorothy não tinha consciência da sua divindade.

Confessa no final que “não há lugar melhor que nosso lar”, mas agora reconhece isso pois volta ao mundo humano mais uma vez, torna-se sépia novamente. Mas volta não como mortal, mas como Iniciada. Sua família e os tios representam a sociedade profana, que continuam não acreditando no sonho da criança.

Agora, sobre a Bruxa Malvada do Oeste: A bruxa sempre foi, nessa e em quase todas as histórias, aquelas personagens que, não fossem suas ações, nunca desencadeariam um “final feliz” para os personagens principais. Inicialmente, devemos ter em mente que se não fosse a vizinha malvada que queria levar Totó embora, Dorothy talvez não tivesse chegado ao mundo de Oz.  Foi a vizinha quem levou Totó, guardou-o numa cesta, mas não prendeu-o, o que proporcionou a fuga do cãozinho e a fuga de Dorothy da fazenda. Se não fosse a bruxa escrever o nome de Dorothy no céu, ela também não poderia entrar no castelo do Mágico.

“Eu sou a única que sei usar os sapatos, você não”, disse a bruxa, pois tinha consciência da mortalidade de Dorothy até o início da história. A bruxa também deixou Dorothy descansar com as papoulas, ou seja, lhe proporcionou um repouso e uma descida até o submundo para só então seguir adiante.

Os sapatos de Dorothy, assim como as sandálias de Hermes, simbolizam sua capacidade de oscilar entre os mundos.
A morte das Bruxas do Leste e do Oeste simbolizam a morte do ser profano de Dorothy, como se pudéssemos simbolizar isso com uma linha em sentido horizontal. A Bruxa do Norte representa sua ascensão ao mundo divino, e sendo assim, em sentido norte-sul, em uma linha vertical, poderíamos supor que Dorothy, então, tornou-se a Bruxa do Sul, vivendo no mundo mortal e humano, mas com a experiência de conhecer o espiritual e mágico e podendo transitar entre ambos.

Para assistir: Filme + Legenda.
Sobre o filme: Preto e branco, colorido. Áudio em inglês, legendas em português.
Palavras-chave: Iniciação, Jornada, Bruxaria, Fantasia, Modernidade.


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