terça-feira, 27 de novembro de 2012

Sobre o problema do conceito de "bruxo solitário".



Nessa obra, Salvator Rosa retrata o episódio
bíblico em que a Bruxa de Endor auxilia Saul
quando o mesmo precisa ter contato com o
espírito de Samuel. Detalhe no que envolve
a bruxa no canto superior esquerdo
.
Posso estar enganado, mas creio que este conceito começa a ser popularizado com Raymond Buckland e Scott Cunningham nos anos 80 quando a chamada “autoiniciação” começa a ser defendida. Ao longo da década de 40-50 a Wicca, ainda na Inglaterra, era tida como um ofício fechado, e não necessariamente secreto, mas reservado somente aos iniciados tradicionalmente dentro do culto. É provável que essa “abertura” comece com a presença wiccana nos Estados Unidos com os autores acima citados. A partir de então, se passa a escrever para esse novo público “solitário”, longe dos círculos sociais e intelectuais ocultistas da Inglaterra, adaptando aqueles rituais que tradicionalmente eram feitos para grupos.

E aqui eu já quero deixar claro que não vou falar sobre a questão da iniciação formal ou autoiniciação, sobre o que pode ser válida ou não. Esse assunto eu deixo para outra oportunidade. O que eu quero falar aqui é sobre a problemática do conceito de “solitário” não só na prática wiccana, mas na prática bruxa como um todo. O que é ser solitário? Quando se está, efetivamente, solitário?

O bruxo solitário, como já dito, é aquele que pratica e estuda a bruxaria sozinho. Porém, se formos parar pra pensar historicamente, podemos encontrar um grande número de bruxas tidas como “solitárias”, mas que sob uma rápida reflexão, percebemos que não são tão “solitárias” assim, pois, na minha opinião, não podem existir bruxos solitários. A bruxaria é um ofício marginal, que é coletivo e de comunhão por natureza. E aqui não é só a comunhão com os outros praticantes, mas uma comunhão com os espíritos ancestrais, com os animais familiares, com os deuses, com as energias dos planetas ou qualquer coisa que o valha. Com muita dificuldade eu posso assumir que uma feiticeira pode trabalhar sozinha. Mas não uma bruxa.

Gosto muito do simbolismo do
Eremita no tarot de Marselha.
Ele é um personagem solitário,
mas ainda assim, traz consigo
uma lanterna e um bastão.
Logo, não é mais solitário.
Frequentemente a figura bíblica da Bruxa de Endor é tida como um exemplo de bruxa solitária. Mas a partir do momento que tinha um espírito familiar, já não é mais solitária. Circe também é comumente tida como tal. Mas diferente disso, penso que a partir do momento em que Circe estava sempre cercada de animais selvagens (e transformava aqueles que visitavam-na nestes seres) essa interessantíssima personagem pode ser tida como uma Senhora dos Animais, talvez até mesmo semelhante a Ártemis de Éfeso. Logo, também não era sozinha. Medéia, da mesma forma. Porém, é uma pena que quem argumente que Medéia era solitária esqueça-se de que ela frequentemente invocava o poder do deus-Sol, Hélios, seu avô. Poderíamos citar uma série de outros exemplos, mas parece que o argumento já se fez claro.

Bruxas nunca estão sozinhas. Elas podem ler livros sozinhas e organizarem seus ritos na solidão noturna. O que não faz delas solitárias, pois, a partir do momento em que entram dentro do círculo, já operam com o auxílio dos espíritos, dos deuses ou mesmo dos seus antepassados desencarnados.  E fora do ambiente ritual, hoje com as redes sociais, é impossível ser “sozinho” quando se estuda ocultismo. A internet está cheia de sites, blogs e comunidades em redes sociais, muitas de excelente qualidade, que estudam, refletem e debatem conceitos, crenças e práticas. O conhecimento nunca é construído de forma individual. Mas diferente disso, através da troca, da experiência compartilhada, da construção e reflexão propostas por conversas e debates.

Se esse blog, por exemplo, ainda está no ar, é para que os bruxos que leem essas linhas nunca ousem pensar que estão, de fato, “solitários” em uma jornada que, simplesmente, não pode ser percorrida sem o auxílio de um bastão ou de uma lanterna. 

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3 comentários:

brunodiniz disse...

é um questão que nunca refleti sobre, simplesmente aceitava que existia bruxas solitárias. Com esse texto pude repensar sobre o assunto. Excelente texto.

Emanuel disse...

Olha Odir, concordo em grande parte com seu posicionamento, porque de fato, ocorre uma banalização, associada a uma glamourização (sempre ela!) de algo que deveria ser simplesmente... o que é. Ser Solitário não é vantagem nenhuma em relação a pertencer a um Coven. Cada status com suas dores e delícias.
Eu escrevi sobre o autodidatismo em relação à Cartomancia (outra glamourizada inutilmente). E penso de forma semelhante, aqui. A questão é: com alguém que conhece o Caminho, existe a possibilidade de você se desenvolver mais rápido, simplesmente pela perspectiva do acompanhante/mestre/professor/facilitador conhecer o caminho e caminhar com você. Por outro lado, você está fadado a encontrar, a priori, o que ele encontrou. No caso da Arte, somos tentados a fazer o mesmo. E aí entra o que você escreveu: nossos professores podem não ser deste plano. E aí, os desafios são maiores. Porque a noite é escura e cheia de terrores. E nem sempre se confia nas sensações que na verdade são insights; ou talvez se confie demais, por outro lado, nos insights que não passam de sensações.
Acho que o problema está na glamourização, sempre. Vantagem nenhuma em ser Solitário. Ao mesmo tempo que somos mais livres para fazermos escolhas, estamos mais presos àquilo que conhecemos e perdemos a perspectiva de voar mais alto ou soltar a corda, se a coragem for pouca. Não há ninguém ali para contar que a corda está a dois metros do chão.
Atualmente é muito mais difícil encontrarmos essa perspectiva, justamente pelas variadas formas de contato que temos. Não sei como resolver a dicotomia Solitário/membro de Coven. Mas existe aí, ao meu ver, um meio termo que tem sido o termo de muitos de nós.
Ainda acho o termo Solitário adequado, pela ausência de referenciação entre os companheiros deste e aqueles de outros planos. Mas, certamente, esse texto me fez ir além do óbvio.
Abraços.

Fábio Alves disse...

Eu acredito que, enquanto estivermos em conexão com "as forças" (deem o nome que queiram dar a elas), sempre estaremos em contato com o Todo, e isso inclui estarmos em contato uns com os outros. Isso me tirou a sensação de estar sozinho/solitário (embora eu goste dessas palavras/estados).

Grande abraço.