terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Jesus NÃO É Hórus, nem Mitra, nem Hélios...


Jesus retratado com sua coroa solar. O fato de Cristo
 ser relacionado ao sol isso não iguala-o às divindades 
pagãs. A questão solar é simbólica e metafórica. 
Aqui, não é o sol das colheitas ou da fertilidade, 
mas o sol da salvação espiritual. 
Imagem em vitral, autoria desconhecida.
Chegando a época de fim de ano, acompanhamos um compartilhamento desen- freado de imagens e textos na internet de grupos “ateístas” e simpatizantes listando uma infinidade de deuses que teriam “nascido” de mulheres virgens, em 25 de dezembro, presenteados por três reis, que fez milagres, teriam morrido e renascido três dias depois. Esse é o argumento mais básico para a “paganização” da nossa sociedade e o de Jesus Cristo, onde na verdade, ou nunca existiu ou nada mais seria do que uma cópia de outros deuses pagãos anteriores.

Como o espaço desse blog é dedicado ao debate sobre questões relacionadas à história e a espiritualidade do paganismo, seja ele contemporâneo ou antigo, você leitor pode ser levado a crer que esse discurso aqui é reproduzido e que iremos fundamentá-lo ao longo desse texto: muito pelo contrário. Vamos refletir sobre o porque dessa discordância.


Em primeiro lugar, sobre a data do famoso 25 de dezembro tido como o dia do “nascimento” dessas divindades: nosso atual calendário, que é o calendário chamado gregoriano, só foi implantado no séc. XVI para “corrigir” as falhas do calendário utilizado no Ocidente desde Júlio César. Logo, utilizar-se de um calendário moderno para aplicá-lo a um tempo cronologicamente anterior à sua existência, argumentando que Hórus, Mitra ou Krishna foram deuses que nasceram no 25 de dezembro em um tempo no qual o 25 de dezembro, tal qual conhecemos hoje, nem sequer existia, é no mínimo um reducionismo. Isso, ainda, sob o pressuposto de que todas esses divindades eram reconhecidas, cultuadas e representadas uniformemente por todos os povos e todos os lugares na Antiguidade, o que também é um grave equívoco.

Imagem ilustrativa do que já circula pelo facebook: reducionismo e simplificação histórica e mitológica. E só por correção, a imagem que fala de Mitra, na verdade está retratando o Sol Invictus e não Mitra. Logo abaixo, a ilustração não trata do deus Dionísio, mas de Dionísio de Alexandria, bispo cristão do séc. III. Clique para ampliar.

Acontece que o “nascimento” de muitas divindades no mundo Antigo era comumente celebrado na época do solstício de inverno. E o solstício ocorre por volta do que hoje entendemos por 25 de dezembro sim. É o caso de Mitra, Áttis e até Hélios em algumas regiões. Isso porque o sol “renasce”, trazendo luz e fertilidade para o mundo em uma época de muito frio e de longas noites. Como muitas vezes (mas nem sempre) o sol é relacionado a figuras masculinas, essa era a época ideal para celebrar não o nascimento, mas o renascimento desses deuses “salvadores”. Como isso também era comum em Roma, e o cristianismo só chega ao poder quando é incorporado pelo Império Romano, ele absorve essa “data” para simbolizar o nascimento do seu deus também.
Lembrando que a própria Bíblia descreve toda uma cena pastoril que simplesmente seria impossível no inverno. Logo, se Jesus realmente existiu de acordo com o que diz a Bíblia, não foi no inverno mas em outra estação do ano.

A esquerda, Danae sendo fecundada por Júpiter através de uma chuva de ouro, pintada por Titian. A direita, Maria sendo fecundada pelo Espírito Santo pintada por Philippe de Champaigne. Detahe nas semelhanças iconográficas, na "iluminação" que vem "de cima para baixo", ou seja, do mundo divino para o mundo mortal.
O mesmo serve para os deuses que “nasceram” de deusas virgens. As deusas virgens são esposas do Desconhecido. Elas servem de “ponte” para a materialização do Invisível. Na mitologia, geralmente elas “engravidam” através de uma metamorfose ou transformação daquele Deus Criador. Com Maria, se deu pela pomba do Espírito Santo.  Buda chegou ao ventre da sua mãe através de um elefante cor-de-leite. A Coaltlicue asteca foi abordada por um deus sob uma forma de bola apenas. Júpiter se mostra a Danae através de uma chuva de ouro, por exemplo. Geralmente, através dessa fecundação divina, elas tornam-se mães de heróis salvadores.

Assim como Jesus morre e renasce três dias depois, também podemos encontrar na mitologia uma série de outras divindades que fazem o mesmo. Mitra, Krishna e Dionísio, por exemplo – onde esse último, além de  tudo, também transforma água em vinho. Não podemos esquecer que essa “morte-e-renascimento” muitas vezes estará relacionada ao ciclo do sol que “morre” para “renascer” no solstício. Já no campo da astronomia, há quem diga que os três “reis” também podem ser três estrelas que acompanham a estrela Sírius e a “cruz” onde o deus é crucificado também pode ser nada mais que a constelação do Cruzeiro do Sul presente simbolicamente no céu na época da “morte” da divindade. 

Poderíamos continuar citando uma série de outros exemplos que colocam a história de Jesus Cristo de forma muito próxima a outros deuses das mais diversas mitologias. De fato essas relações existem. Mas o problema é que isso é frequentemente utilizado como argumento de que Jesus seria um “plágio”, o que é um equívoco: até mesmo as religiões pagãs utilizavam-se de elementos de outras religiosidades paralelas para formar os seus próprios universos míticos. O intercâmbio conceitual, a justaposição simbólica, o sincretismo religioso é algo comum, normal e amplamente utilizado desde os tempos antigos. É o que os romanos chamavam de interpretatio, ou seja, ver nos deuses dos povos “conquistados”, apenas faces diferentes dos deuses de origem da cultura que observa. É um exercício de alteridade: ver “nós” nos “outros”.

Além disso tudo, o cristianismo não é só repetição, e nem teria como sê-lo. Ele também inova em algumas coisas: a noção de uma religião “salvadora” que age através do proselitismo e da conversão é algo totalmente inovador no mundo Antigo, ao lado do budismo, por exemplo. Reproduzir um discurso falho, raso e leviano, de que o Jesus Cristo, ou o próprio cristianismo nada mais são do que “cópias” de religiões anteriores não mostra muita coisa além de um gigantesco desconhecimento de história, mitologia, também demonstrando uma gigantesca incapacidade de se conviver com o diferente. “Nada se cria, tudo se transforma” alguém disse certa vez.

Outro exemplo de interpretatio: Enquanto que Ares (a direita) para os gregos era comumente relacionado ao caos e à desordem da guerra, Marte, para os romanos (a esquerda) é melhor visto, tido como um deus líder e fundador. Dentro do próprio paganismo também somos levados a crer que alguns deuses são "iguais" ou "cópias" de outros, o que nunca será verdade. 
Penso que se as religiões pagãs servem para tentar acessar o Divino, um Uno que é simplesmente incompreensível à mente humana utilizando-se de “máscaras” ou “mitos” para isso, e se isso pode ser feito de forma satisfatória e prazerosa, não vejo porque o cristianismo também não pode executar esse mesmo papel através dos seus símbolos, mitos, ritos e “máscaras” de uma realidade muito maior, e longe da nossa vã compeensão, seja ela pagã ou cristã. 

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13 comentários:

Anônimo disse...

O mito nunca é copiado e colado. É algo vivo, dinâmico, se incorpora livremente pelas tradições servindo como "máscaras" para uma realidade simbólica muito maior.

Tanakhtsenu disse...

Em primeiro lugar, obrigada pela inspiração em escrever o ótimo texto esclarecedor! Eu já perdi as contas de explicar para as pessoas que Hórus NÃO é Jesus e eles não tem nada a ver um com o outro. Infelizmente, a mentalidade reducionista ainda é muito grande e, junto com a falta de informação, chega essa época e a internet fica transbordando de bestagem.

Julio Soares disse...

Tá aí o texto do Odir que mais gostei até agora. Eu conheço alguns (se não muitos) pagãos e até mesmo não-pagãos que tem mania de sempre virar a cara e teimar ao dizer que o cristianismo nada mais é do que uma cópia das antigas religiões e culturas. Isso faz com que neguem toda a história presente na Era Cristã, recusem a estudar e tachem a mesma de "falsa religião". Se formos realmente de um ponto de vista histórico, notamos que na realidade todos os pontos que as religiões tem em comum, é por quê haviam nos diferentes povos interpretações parecidas - se não iguais - dos mesmos simbolismos. É um caso por exemplo do simbolismo que há presente no fogo, que em inúmeras culturas é sinônimo de vida, paixão e energia, mas isso não quer dizer que um povo acaba por roubar o "significado do fogo" de outro, não. O autor apresenta de forma incrível como os aspectos "iguais" entre divindades e/ou mitos podem ser aceitos e por que eles tem tanto em comum. Recomendo a todos, ainda mais agora que esse assunto dá polêmica.

Daniel Alabarce disse...

Olá, Odir.

Tenho lido seu blog algumas vezes, e fico feliz por encontrar reflexões pertinentes e importantes, alguns dos assuntos, como este que fala sobre o cristianismo, que são encarados como uma espécie de tabu velado dentro dos âmbitos pagãos - o que é extremamente escancarado no caso dos ateus, agnósticos e céticos.

Parece que a repulsa que temos ao cristianismo se deva mais à sua história negativa, às suas práticas de sectarismo, racismo, genocídios, inquisição, homofobia etc.
No entanto, a despeito dessa parte realmente grande, precisamos ser nobres o suficiente para encontrar os elementos que podem contribuir para um convívio mais saudável.

Uma religião que perdurou por mais de 2000 anos, afinal, deve ter aprendido e descoberto uma sabedoria riquíssima. Independente da própria instituição religiosa, creio ser possível e, aliás imprescindível, buscar e resgatar tudo quanto for bom e capaz de promover um ampliamento das nossas próprias visões de mundo.

Parabéns pelo texto e por proporcionar esse tipo de reflexão livre, desprendida de escamas!

Lango disse...

Sou cristão e venho acompanhado a página de vocês no facebook. Gostei do que vocês falaram sobre o assunto. A abordagem foi imparcial e madura.

Charlie Drews disse...

Odir, que parabeniza-lo pelo excelente artigo e pela sua maturidade dentro do paganismo. Muito bom encontrar pagãos que não se deixam levar por uma "fúria anti cristã". A critica construtiva e inteligente é sempre bem vinda. Parabéns

José Motta Dionísio disse...

Sempre procurei um texto que refletisse sobre a veracidade ou não de documentários tais como Zeitgeist e finalmente acho algo a respeito. Parabéns, Odir, pela iniciativa de tocar num assunto que ainda é um tabu tanto entre cristãos como entre pagãos e até mesmo ateus.

Joana Felizardo disse...

meu mais recente amigo se assim posso chama-lo, parabens! o seu texto e suas ideias vieram de encontro a algo ki penso mas nunca consegui expressar ...ainda nao li o paganismo e cristianismo....to degustando o primeiro...é 10 e eu do alto dos meus muito enta anos fico muito feliz de ver uma carinha tao jovem com tao boas ideias...é um em mil....parabens!

Aline Brum disse...

Ai, que maravilhoso, Odir. Era um esclarecimento que eu sempre quis de alguma forma apresentar para as pessoas, mas não tenho conhecimento para tal. Obrigada por nos apresentar este texto. Acho muita falta de conhecimento dizer que uma cultura ou religião é cópia da outra. Só a sabedoria e o conhecimento são capazes de quebrar as barreiras do preconceito e seus artigos fazem isso. Parabéns pelo trabalho.

Lugus Dagda Brigante disse...

Diannus,

Nesse momento em que antigas certezas em pó se transformam e que pequenas sementes deram origem a árvores tão férteis, só basta a eu dizer a você que o artigo "Jesus NÃO É Hórus, nem Mitra, nem Hélios..." veio como um sopro de suaves luzes capazes de transformarem o rumo dos pensamentos e posicionamentos - por mais reprimidos e aprisionados que ainda o fossem - libertando e abrindo caminho para aqueles que, um pouco mais velhos, já não tinham mais coragem ou interesse de explorar.

Eis bem feito o papel daquele que veio para mostrar que o interior das mais densas e escuras florestas podem estar preenchidos com as mais belas e surpreendentes clareiras - o Rex Nemorensis.

Do seu irmão,
Lugus

Daniel Ferreira disse...

Até que enfim um blog sobre paganismo que presta! Parabéns!!!

Jully disse...

Nossa adorei o seu texto. Sou cristã, porém, admiro muito o paganismo. Acho que uma cultura muita rica, cheia de arte, história e sabedoria. Eu particularmente odeio a "guerrinha" que alguns cristãos travam contra as pessoas que não seguem a Cristo. Isso é primitivo demais, lembra-me a época da inquisição. Que bom seria se todos respeitassem a religião e as crenças, e até mesmo as não crenças, uns dos outros. Parabéns, amei o texto e voltarei por aqui mais vezes!

Anônimo disse...

Muito bom. Contudo, mesmo o cristianismo sempre "inovando", não deixa de ser uma religião de preconceitos (não sou gay, contudo não tenho nada contra quem é) e que deixa muitas coisas a desejar. Como sempre o foi desde o início da humanidade, nenhuma religião é perfeita. Em todas existe a frustração a determinado ponto, a dúvida, o medo e muitas vezes o fanatismo.