sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O paganismo do poeta Fernando Pessoa.




Fernando Pessoa nasceu em 1888 e morreu em 1935,
vivendo praticamente toda a sua vida na cidade de Lisboa.
Quando se fala em paganismo e literatura, é indispensável mencionarmos a importância de Fernando Pessoa. Sabemos que Pessoa era um profundo conhecedor da astrologia – conhecimento que o leva até a conhecer Aleister Crowley, fazendo com que traduzisse o famoso “Hino à Pã” desse autor para o português – e estava vinculado ao movimento ocultista europeu do início do séc. XX. Pessoa se dizia gnóstico e era iniciado na Ordem Templária de Portugal. Sem dúvida é também sob essa bagagem que se fundamenta a obra de Ricardo Reis. 

Reis foi um dos heterônimos de Fernando Pessoa. O poeta teria tido uma formação clássica em um colégio de jesuítas, sendo um estudioso do paganismo e também latinista. Toda a sua obra representaria, então, a herança das artes do mundo greco-romano ao mundo Ocidental. Sua obra é marcada pelo epicurismo (a busca pela tranquilidade, o desapego do medo da morte, a busca pelos simples prazeres da vida e a fuga da dor) bem como pelo estoicismo (as paixões e os excessos são dominados e a noção de a morte é uma extensão natural da vida e não deve ser negada) e também pelo elogio ao bucólico e à natureza. 


Muitos dizem que arte não deve ser explicada, e eu em parte concordo com isso, mas também penso que essa mesma arte também pode servir como um meio de elevação, de sublimação e êxtase, seja ele físico ou intelectual. E é sob essa perspectiva que falaremos um pouco sobre uma importante obra desse poeta. Um dos poemas mais conhecidos de Reis é “Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo”.

Aqui, Reis nega a autoridade de Jesus Cristo como uma única divindade que deve ser cultuada, em favor da negação dos outros deuses do paganismo. E dessa forma que o autor ataca o cristianismo. O poema na íntegra: 

"Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo 
Que aos outros deuses que te precederam 
Na memória dos homens. 
Nem mais nem menos és, mas outro deus. 

No Panteão faltavas. Pois que vieste 
No Panteão o teu lugar ocupar, 
Mas cuida não procures 
Usurpar o que aos outros é devido. 

Teu vulto triste e comovido sobre 
A stéril dor da humanidade antiga 
Sim, nova pulcritude 
Trouxe ao Panteão incerto. 

Mas que os teus crentes te não ergam sobre 
Outros, antigos deuses que dataram 
Por filhos de Saturno 
De mais perto da origem igual das coisas, 

E melhores memórias recolheram 
Do primitivo caos e da Noite 
Onde os deuses não são 
Mais que as estrelas súbditas do Fado. 

Tu não és mais que um deus a mais no eterno 
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo. 
Panteão que preside 
A nossa vida incerta. 

Nem maior nem menor que os novos deuses, 
Tua sombria forma dolorida 
Trouxe algo que faltava 
Ao número dos divos. 

Por isso reina a par de outros no Olimpo, 
Ou pela triste terra se quiseres 
Vai enxugar o pranto 
Dos humanos que sofrem. 

Não venham, porém, stultos teus cultores 
Em teu nome vedar o eterno culto 
Das presenças maiores 
Ou parceiras da tua. 

A esses, sim, do âmago eu odeio 
Do crente peito, e a esses eu não sigo, 
Supersticiosos leigos 
Na ciência dos deuses. 

Ah, aumentai, não combatendo nunca. 
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando 
Cada vez maior força 
Plo número maior. 

Basta os males que o Fado as Parcas fez 
Por seu intuito natural fazerem. 
Nós homens nos façamos 
Unidos pelos deuses".

O Mundo do tarô de Waite-Smith:
O que Ricardo Reis faz, diferente de
eleger divindades "certas" 
ou "erradas", ele engloba-as todas
em um só Universo. 

Vemos que Reis argumenta, ainda logo de início, que sua crítica não é a Cristo, mas sim aos cristãos. Iguala-o frente aos outros deuses, lembrando da sua posteridade frente a existência de muitas outras divindades que lhe precederam. Para Reis, o cristianismo está ligado à dor e ao sofrimento, principalmente o sofrimento humano, o que não lhe parece digno, e por isso é inferior ao paganismo que prega a vida e a alegria. Insiste que os cristãos são “supersticiosos leigos na ciência dos deuses”. O poeta assume a existência de Cristo, mas insiste que essa mesma existência, submetida ao Fado (destino) também é compartilhada pelos demais deuses quando diz “nem maior nem menor”. Reis assume que o Cristo pode acrescentar ao panteão, mas não por valorizar o sofrimento ou a dor e sim por ser um deus tão digno de receber culto como qualquer outro. Não é arriscado dizer que esse breve, mas interessantíssimo poema, consegue traduzir a mentalidade de muitos dos neopagãos de hoje. 

Penso que em tempos de intolerância religiosa no país em que vivemos, muitas vezes empreendidas por certas vertentes do cristianismo, a poesia de Ricardo Reis vem bem a calhar. E é feliz se provoca a reflexão. É pela obra de Pessoa que sabemos que Reis teria saído de Portugal, por vontade própria, e se mudado para o Brasil. Que a beleza das suas palavras continuem vivas por muito tempo também na nossa terra.

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4 comentários:

Emanuel J Santos disse...

‎"Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Panteão que preside
A nossa vida incerta."

Odir Fontoura, sempre implacável e impecável.
Vale (MUITO!) a pena ler.

Fernanda Amorim disse...

Odir Fontoura,adoro seu blog,suas postagens e como você escreve !!!

Vitor Luis disse...

Fantástico Texto Odir Fontoura, Apaixonado por esse poeta! muito Obrigado pelo lindo presente de conhecer esse poeta e esse texto intensamente forte!

Angi disse...

Temos tbm,Frederik Nitzsche que fala sobre o cristianismo... ele vê como um mal, algo que só serve para os fracos sem controle próprio... a visão ampla e destorcida me atrai... o pensamento do incrédulo também, se fazem tão incrédulos, que acreditam no que discordam...