sábado, 2 de março de 2013

O Deus Pã visto por um cristão.

Bispo Isidoro de Sevilha retratado por Murillo.
O período que compreende o gradual declínio do paganismo junto ao crescimento e fortalecimento do cristianismo é tido como Antiguidade Tardia. É um período rico e de importante florescimento cultural, pois é nesse instante que o cristianismo perde seus traços orientais e passa a incorporar, cada vez mais, uma identidade ocidentalizada e romana. Ainda que o paganismo seja oficialmente abolido nos primeiros séculos da nossa era, ele persiste, tanto como religião popular, quanto como cultura de elite, letrada e intelectualizada, e vale comentar que foi por essas duas vias que ele chegou até os dias atuais. E é justamente pelos cristãos beberem tanto das fontes clássicas e pagãs, que muito do paganismo antigo que conhecemos hoje só se conservou devido a estes intelectuais cristãos.


É o caso de Isidoro de Sevilha, que escreveu suas Etimologias entre 623 e 630. Aqui, o intelectual mais tarde canonizado santo, procura sintetizar todo o conhecimento enciclopédico do seu tempo. Todo o conhecimento do Mundo Antigo, não sem ser cristianizado, é evidente, é resguardado por esse homem das letras. Em um capítulo da sua obra, chamado “Sobre os deuses dos gentios”, Isidoro escreve longamente sobre os deuses do paganismo. Ainda que sob uma visão cristã, o que não nos impede de resgatar importantes testemunhos históricos, como esse, belíssimo, ainda que de poucas linhas, sobre a figura do deus Pã. 

Compartilho com vocês:

"Pã, deus dos gregos é chamado Silvado pelos latinos. É deus dos campos, que idealizaram os antigos à semelhança da natureza e por isso se chama Pã, que significa “tudo” pois está formado por todos os elementos da natureza.

Tem chifres por semelhança dos raios de sol e da lua. Sua pele tem pintas, como assim é o céu com as estrelas; o ar resplandece em seu rosto e tem uma flauta de sete tubos devido à harmonia do céu, que tem sete sons e sete diferenças de vozes.

É peludo pois a terra está assim vestida e agitada pelos ventos; sua parte inferior é escandalosa e disforme, assim como as árvores, feras e animais selvagens. Os pés são de bode para simbolizar a firmeza da terra; o veneram como Deus da natureza e de todas as coisas".

Etimologias, Livro 8, Capítulo XI, 81-3.

O título do texto de hoje, ao leitor desavisado, poderia dar a impressão de que falaríamos sobre o Diabo. Pois sim, é com base em Pã que se constrói a representação iconográfica desse personagem bíblico. Uma construção sem fundamentação literário-religiosa, inclusive, pois não existe passagem alguma da bíblia que comenta que os chifres ou os pés de bode são símbolos satânicos. Mas não é sobre isso que queremos falar. A representação simbólica de Pã é importante e muito rica, pois ele sintetiza, hoje, o espírito do neopaganismo em si, independe de qual vertente esse neopaganismo está representado, seja pelos reconstrucionismos grego, romano, celta, egípcio ou até mesmo brasileiro.

Aqui, imagem ilustrativa de , que mostra muitos dos seus atributos tradicionais, e ainda assim, não todos os retratados pelo bispo cristão do séc. VII. 
Pã é tudo o que é selvagem e livre. É o retorno do culto à Terra, à Natureza, ao extático e ao terreno. Não em oposição ao espiritual e etéreo, há muito incentivado pelo cristianismo, mas em complemento a este – pois como já havia testemunhado Isidoro, Pã é a terra e a solidez, mas também o céu e as estrelas. Ele é tudo, mas também "só" isso.

Veja também: 


6 comentários:

AugustoCrowley disse...

Interessante!

Mariela Queiroz disse...

Ele é um jovem genial e os textos dele sempre são isentos e apresentam informações que só mesmo alguém comprometido com a História pode compartilhar.

Só posso fazer comentários elogiosos ao que escreves, Odir Fontoura. Desde que te conheci, há anos atrás, fiquei encantada ao ver que felizmente ainda existem pessoas que cultuam os Antigos e que transmitem o conhecimento que têm com imparcialidade. Isso é muito raro.

Daniel Alabarce disse...

não consigo mais sentir nenhum tipo de aversão ao livro dos cristãos, a bíblia. não compactuo com os dogmas posteriores da instituição (como também não sou favorável ao moralismo higiênico da instituição budista ou da própria inflexibilidade exacerbada dentro do paganismo moderno - que acabou se engessando de forma mais densa que outros fundamentalismos)... o Cristo que desce aos infernos, que vence a morte, que rompe o véu entre o céu e a terra, que escolhe 12 discípulos, que é o Logos...

a bíblia, tanto quanto o alcorão ou qualquer outro livro sagrado, é tão rico em sabedoria perene quanto (e muito mais) que um desses iniciados escritores (também dignos de respeito) que estão na boca de todos nós!

Só vê poesia fora, quem tem poesia dentro!

Rafael Nolêto disse...

Conheço alguns cristãos (não tão ligado a igreja) que possuem essência mais pagã que cristã. Na história da igreja, São Francisco de Assis é um bom exemplo desse tipo.

Ligia Amaral Lima disse...

Parabéns pelo maravilhoso trabalho, irmão! ;-)

Fernanda Costa disse...

Li e gostei, Odir Fontoura. O que foi natural um dia, tornou-se bestial por entenderem q so assim, atraves do medo das velhas crenças, a nova, ‘mais pura e eterea‘, seria implantada.
Para mim, cada um ha de crer conforme o q lhe for mais confortavel em sua escala intelectual e evolutiva.
Obrigada por compartilhar e esclarecer.