quarta-feira, 27 de março de 2013

O feitiço certeiro para resolver todos os seus problemas.

Detalhe de Penélope e os Pretendentes (Waterhouse 1912).
Operar feitiçaria movido pelo medo é como fazer a
colcha de Penélope: é trabalho de fazer para ver
desfeito logo depois.
Frequentemente eu recebo solicitações de feitiços. Muitas pessoas sequer sabem exatamente qual o propósito desses pedidos, ou nem sabem exatamente o que é magia ou para que ela serve. 

Muitas vezes quando um leigo, um amigo de um amigo, geralmente imbecil, toma conhecimento do meu estudo e prática da feitiçaria, rapidamente solicita uma “simpatia” pra resolver algum problema. De preferência algo rápido, simples, fácil e certeiro. Nada muito difícil. 

Tal como o título dessa postagem.

Isso frequentemente me faz pensar que nossas conquistas sempre são diretamente proporcionais ao tamanho das nossas ambições. Há quem queira resultados fáceis e de curto prazo acendendo uma ou duas velas pensando que isso é o suficiente? Sempre há! E essas pessoas se sentirão realizadas dessa forma? Pouquíssimo provável, pois o tempo em que desejam por um feitiço certeiro solucionador dos seus problemas é geralmente o mesmo tempo que demoram para esquecer desse mesmo pedido e mudar o foco da sua atenção para qualquer outra coisa banal. Como disse, muitos querem feitiços para resolver problemas que nem eles próprios ainda compreendem.

A magia existe, mas não as soluções mágicas. Não, ao menos, no sentido ligeiro da palavra. Aprendi certa vez que operar um feitiço é como que nadar contra a correnteza ou tentar desviar o curso de um rio, talvez ambas as coisas ao mesmo tempo. Acontece que muitas vezes traduzimos certas dificuldades cotidianas em problemas gravíssimos que devem ser erradicados. E achar que tudo o que há de – na falta de uma palavra melhor – “ruim” pode ser rapidamente resolvido com velas e incensos é no mínimo ignorar que a Vida é uma jornada cheia de provações, que nos brinda com a Beleza e o Horror o tempo todo. E que se existe um propósito para nossas experiências nessa terra – e eu honestamente prefiro crer que exista uma –, penso que passar uma borracha na primeira dificuldade que aparece no nosso caminho é no mínimo intransigência ou falta de ambição. Pois sendo a ambição o prelúdio da sinfonia da Vida e da Morte, as bênçãos e as maldições são o ápice do espetáculo e a experiência o fechar das cortinas. Quem perde o início, provavelmente não acompanhará o fim. Quem evita entrar no campo de batalha não recebe os louros nem aprende com a derrota.

O Mago só consegue operar
se está tranquilo o suficiente
para trabalhar com todos os
instrumentos da sua mesa.
Operar feitiçaria no meio do
nervosismo da hora
simplesmente não funciona.
Aqui, o tarô de Marselha.
Se esboçarmos em uma folha em branco o nosso destino, os feitiços não servem como borracha para apagar algumas linhas. Eles servirão, no máximo, para abreviar ao alongar certos traços do desenho de uma obra que não pode ser muito rasurada nem ter o papel jogado fora ou substituído. Desenho, inclusive, que nem sabemos como será finalizado. Da mesma forma que o fluxo de um rio não pode ser facilmente contido, querer ser Sábio sem sofrer é impossível. E eis o paradoxo: somente os Sábios – e os que ambicionam sê-lo – sabem operar feitiçaria.

Feitiços não resolvem problemas, eles apenas amenizam-nos, redirecionam-nos, antecipam ou atrasam essas irrupções do caos em meio a nossa suposta ordem, ou o que entendemos como tal. E isso só funciona se existe um plano consciente prévio para a resolução de certos problemas. Recorrer à feitiçaria como uma fuga é sinal de fraqueza e medíocres não se tornam Sábios.

Se a vida fosse como um jogo de tabuleiro, o feiticeiro seria o jogador que move as peças e monta as estratégias específicas de cada jogo. Jogo esse que media vitórias e derrotas passageiras até que o jogo termine e o ganhador definitivo seja escolhido. “Anular” as dificuldades através da feitiçaria seria como recolher os dados da mesa e considerar-se vitorioso por isso. O Feitiço certeiro para resolver todos os nossos problemas é um só: a Coragem. 

Veja também: 

3 comentários:

Katharina Dupont disse...

Maravilhoso e esclarecedor como sempre meu querido! Cada vez mais me torno fã sua!
Mas gostaria de deixar minha opinião sobre o tema:
Sempre fui muito mais devocional do que praticante de feitiços, isso desde que decidi trilhar meu caminho mágico.Não porque não os achasse eficientes mas porque eu sempre acreditei que meus Deuses, aqueles quais eu honro e presto culto me ouviriam quando eu mais precisasse. e eu não teria a necessidade de manipular a energia de um fato ou etc porque eles mesmo se encarregariam de "ajeitar" as coisas para mim. Hoje em dia eu trabalho com mesa radionica ( radiestesia) aonde antes de iniciarmos qualquer trabalho consultamos ao pêndulo se é divino o trabalho. Caso a resposta for negativa não trabalhamos na mesa e dizemos ao clientes que determinada situação tem que vivida desta forma, para sua evolução.
Humildade e devoção é uma coisa que muito feiticeiro deveria ter...

beijossssssssss

Anônimo disse...

concordo contigo ,viver nao é ter soluçoes rapidas pra tudo .é muito mais complexo que isso ..a ilusao mais forte com magia ,bruxaria em geral é acharem que com uma simples varinha de condao logo tudo sera resolvido ...ainda bem que nao ,o que seria da magia se ficasse atrelado aos desejos egoicos sem fim .... BRUXARIA ,MAGIA , FEITIÇARIA NAO É SHOPPING CENTER ...

Leo Natura disse...

Com certeza!