sexta-feira, 8 de março de 2013

Sobre uma comunidade espiritual.

Aqui, a Luna de Evelyn de Morgan (1885).
Detalhes na cordas e nos nós que a envolvem.
Abri o círculo, apaguei as velas, coloquei a cama de volta no lugar e abri a janela. A minha frente o computador e a minha esquerda a lua cheia brilhante no céu algumas vezes embaçada pelas nuvens, o que a deixava ainda mais bonita ao meu ver. Antes de começar a escrever, me permiti ficar algum tempo observando-a e me peguei pensando em quantas outras pessoas não estariam fazendo o mesmo que eu naquele instante. Noite de lua cheia, noite de esbá, dia de semana... Em um primeiro momento, imaginei que não muitas.

Primeiro, a sensação de solidão. Não tive dúvidas que muitas das pessoas que conheço, pra não dizer todas, estariam dormindo naquela hora. Se acordados, talvez no facebook ou vendo televisão até pegar no sono. Alguém, por ventura, em alguma festa, mas a grande maioria simplesmente dormindo. Fato. A vizinhança em silêncio, nenhum carro passava na rua e até os cães parecem dormir também. E a lua brilhando. As nuvens por vezes se abriam, como cortinas, e eu não conseguia deixar de ver aquilo como um interessantíssimo espetáculo.

Um espetáculo, inclusive, que qualquer pessoa dotada de certa sanidade seria incapaz de não acompanhar. E a solidão continuava. Confirmando que ainda que muitos estivessem junto de mim, observando o mesmo palco celeste naquela hora, ainda assim não veriam a mesma coisa que eu. Percebi, então, que o insano era eu, sentindo pesar por ter de fechar a janela e ir dormir, não querendo isso. E eu já não me indisponho mais com a minha insanidade.

Perguntei-me novamente sobre quantas outras pessoas não estariam admirando a lua cheia aquele momento também, talvez em outro bairro, outra cidade, estado ou até outro país com fuso-horário semelhante. Quantos não estariam ainda dentro dos seus círculos, já inebriados com os incensos ou até mesmo preparando seus altares para os rituais noturnos? Quantos não estariam andando marginalmente pela noite se deixando iluminar pela dança daquela lindíssima atriz acompanhada pelas estrelas? Quantos no conforto do quarto, como eu, ou quantos caminhando pelos gramados de casa tentando acompanhar a sinfonia? Quantos não estariam fumando ou tomando um café na companhia da lua, cada um a sua forma adorando a Deusa?

A Lua do tarot de Marselha.
Detalhe nas gotas de chuva,
que simbolizam sentimentos.
Veja como a lua convoca,
convida e reúne seus filhos
noturnos.
Poucos, sem dúvida. Mas poucos o suficiente que me fazem, ainda, perceber que são essas “crianças escondidas” que compartilham laços invisíveis e que atravessam nossas noções humanas – e precárias – de tempo e espaço. Pessoas que trazem arte ao mundo através de tantas as formas de se fazer Arte. Pessoas que escrevem poesias que confortam, que pintam telas que extasiam, que desviram cartas sobre a mesa que profetizam boas esperanças, pessoas que acalmam e aconselham, enfim, pessoas bruxas. Que não têm medo da noite ou do escuro pelo fato de simplesmente não se contentarem a luz do dia, conseguindo apreciar essa última também.

Foi nessa hora que a solidão se transformou em solidariedade e até comunhão. Comunhão não só com a natureza, mas também com essas pessoas que não conheço, com essas crianças escondidas que, ainda que ocultas pelas sombras, fazem o nosso mundo ser mais belo e profundo do que a maioria das pessoas – aquelas que se contentam somente com a luz do sol – conseguem fazê-lo. Pessoas que leem, como você que está deslizando essa página agora mesmo. Essa é a nossa comunidade espiritual: divina, noturna, musical, celeste, oculta e infinita.

Veja também: 


9 comentários:

Melro disse...

Para mim, um dos seus textos mais lindos. Obrigado, me fez lembrar de muita coisa que eu deixei se perder durante esses anos. Como viver sem inspiração? Seu texto me conforta.

Jorge disse...

Marcante!!!

Jorge Alan Thibes Pizzol disse...

Muito profundo e bonito o texto!!!

Yuri R. Raskin disse...

Um brinde aos filhos de Caim. ;)

Emanuel disse...

Sim, e entremundos, sombras e luzes, nos tocamos. De alguma forma estranha, como no filme Avatar, nosso "USB divino" encontra n'Ela a essência que nos une, e que nos diversifica. Como células, como flores, como galhos, como manifestações plurais de uma mesma Vontade.

Somos Um,

E.

Anônimo disse...

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AugustoCrowley disse...

Excelente, lindo, tocante, me fez lembrar da minha fase de notívago.

Anônimo disse...

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