quinta-feira, 4 de abril de 2013

A Bruxa como camaleão.

Aqui, Mulher Morcego de Albert Joseph Pénot.
O morcego está associado a noite, a escuridão
e as trevas, enquanto que a beleza, pálida e
humana da mulher faz referência justamente
ao oposto disso. Aqui, a Bruxa que oscila entre
a Luz e as Trevas. 
Sempre gostei muito dos contos de fada e hoje, mais velho, ainda penso neles, mas os observo com outros olhos. Não é com dificuldade que encontramos nessas lendas aparentemente tão rasas, verdades muito profundas. Se pararmos para pensar, sempre veremos a bruxa como uma velha reclusa do resto da aldeia. Geralmente solitária, ela se isola – ou é isolada – do resto da comunidade e lá continua operando suas artes “maléficas”. Mas ainda assim eventualmente é procurada para resolver certos conflitos dos homens comuns e frequentemente serve como uma importante auxiliar, mediadora ou desafiadora, da jornada do herói. 

E além de transformar, a bruxa também tem capacidade de se transformar. Nas lendas medievais a bruxa tinha o poder se metamorfosear em certos animais como lobos ou corujas até chegar ao sabá. Aqui no Brasil as bruxas se transformam naquele tipo de borboleta noturna, e se quando vistas dentro de casa, geralmente são tidas como sinal de mau agouro. A bruxa da Branca de Neve se transforma, ora em bruxa velha e feia, ora em uma bela rainha. A bruxa da Pequena Sereia também se transformou em humana e roubou a voz de Ariel certa vez. A feiticeira Samanta, do seriado norte-americano Bewitched dos anos 60 e 70 podia se transformar até em objetos domésticos. Mas e quanto aos praticantes da vida real, da bruxaria como um ofício de verdade? 


Ora, todos nós também somos transformadores, transformados e também solitários. Solitários pois a bruxaria em si sempre foi e será uma prática marginal e periférica frente as religiosidades oficiais ou tradicionais. A bruxa sempre opera nas sombras, no oculto, na calada da noite, seu ofício é visto como maléfico, ainda que nem sempre o seja. As pessoas comuns nada entendem de bruxaria, seja como ofício, cultura ou espiritualidade, é mais fácil rotulá-la pelo senso comum como algo ruim, demoníaco ou diabólico. É mais fácil e mais cômodo. 

Mas na vida real nós também somos filhos, pais e mães. Somos professores, alunos, policiais, artistas, enfermeiros e tantas outras coisas. Somos amigos, somos família, somos profissionais e também somos cidadãos. Temos uma série de identidades que não são necessariamente a de bruxo ou bruxa. É nesse sentido que os bruxos e bruxas da vida real também se transformam e se metamorfoseiam todo o tempo. É nesse sentido que somos como camaleões, que se adaptam ao meio em que estão por um simples instinto de sobrevivência. Não ousemos falar, por exemplo, em um almoço de domingo com a família ou na reunião de trabalho sobre deuses de chifres, sobre danças noturnas, sobre a nudez ritual ou sobre as velas coloridas que temos guardadas em caixas escondidas no quarto. Nessas situações nós somos pessoas normais. Normais, no sentido literal da palavra. Pessoas comuns, banais. 

A Roda da Fortuna do baralho de Waite
simboliza justamente a natureza mágica da bruxaria:
a mudança, a transformação e a oscilação
.
Acho importante que sejamos pessoas normais, e que trabalhemos e vivemos como pessoas normais. Pelo menos por muito tempo antes da maturidade ou da velhice. É uma experiência, inclusive, que enriquece a experiência mágica e a Jornada bruxa. Ao longo da minha vida conheci algumas pessoas, às vezes muito novas ao meu ver, que puderam se dedicar profissionalmente ao tarô, à terapias alternativas e a outras esferas de modo que puderam fazer, do mundo esotérico, sua vida profissional. Acho isso válido, mas também acho perigoso quando se é muito jovem. Estágios importantes da vida “profana” devem ser vivenciados: a borboleta só existe em função do casulo e o casulo só aparece quando se é verme. 

Particularmente acho muito excitante a experiência de ser uma pessoa normal de vez em quando. Andar de ônibus, ouvir as músicas da moda, trabalhar, estudar, voltar pra casa, cozinhar, fazer amor, ir à festas, ver bobagem na televisão, jogar conversa fora... Mas essa é a nossa natureza “camaleoa”, são as “máscaras” que usamos para provar dos prazeres (e desprazeres) mortais que são sim necessários à nossa Jornada Bruxa. Mas eis que surge a hora certa, de despirmo-nos, literalmente ou não, para ascender aos céus como bruxos e bruxas de verdade através dos nossos rituais. É o tempo de acessar os Mundos que os mortais não podem sequer imaginar que existem. 

Para chegar ao sagrado temos de passar pelo profano. Para tornarmo-nos Bruxos, temos de ser, por muito tempo, pessoas normais. Para saber diferenciar o joio do trigo, o Mortal do Imortal, o efêmero do Eterno. E mais do que isso, saber oscilar entre os mundos profano e sagrado, temporal e atemporal: o mortal do imortal. Sabe a história de que “bruxos de verdade” são bruxos o tempo todo? Eu discordo profundamente. Não teria graça se fosse assim.

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4 comentários:

AugustoCrowley disse...

Excelente!!

Sadat Oliveira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hecate disse...

OLA!!! OLHA FINALMENTE VI UMA POSTAGEM COMPROMETIDA COM AS PESSOAS LEIGAS E COM OS BRUXOS EM UMA SO PALAVRA.... VOCÊ MESCLA SOBRIEDADE COM AQUELA REALIDADE QUE PARA MUITOS SERIA ALGO LUDICO. E ALIAS, NOS BRUXOS E MAGOS BRUXAS E MAGAS DEVEMOS TER UM GRANDE COMPROMISSO COM O MUNDO QUE OS "NORMAIS" PODEM UNICAMENTE TER ACESSO SOBRIO. POR ISSO SERIAMOS EGOISTAS E ERRADOS SE EXCOLHESSIMOS NOS ISOLAR TOTALMENTE DELES....

MEGAN ONATAH disse...

Descobrindo seu blog e ficando maravilhada a cada post, nessa manhã de domingo cinzenta.