sábado, 20 de abril de 2013

A magia de Shakespeare em "A Tempestade" (1611)

Xilogravura de Próspero, o Mago, sua filha
Miranda e o monstro Calibã.
Fonte desconhecida.
Uma das minhas opiniões no que toca a transição paganismo-cristianismo, na qual já tive a oportunidade de escrever mais uma vez aqui no blog, está vinculada à noção que as representações artísticas ao longo da história serviram como um “fio” de ligação do paganismo do mundo antigo, passando pelo medievo e pelo moderno até chegar aos dias atuais. 

Aqui, a arte como pintura, escultura, literatura e também como teatro. Nesse último sentido, penso que Shakespeare é o melhor autor para demonstrar isso. Já falamos sobre o Sonho de uma Noite de Verão e Macbeth. Falemos agora de A Tempestade.




Encenada pela primeira vez em 1611 é tida como uma das últimas obras do autor. E por isso é um símbolo de profundidade e maturidade. Conta a história de Próspero, duque de Milão que foi deposto do seu poder e exilado em uma ilha deserta com sua filha, Miranda. Próspero é um mago e um leitor assíduo de uma vasta biblioteca sobre ciências ocultas. Conhecimento, inclusive, que prendera tanto sua dedicação que descuidou-se das tramas políticas do seu irmão, Antônio, que aliou-se a Alonso, rei de Nápoles. Ambos usurpam o poder de Próspero, deixam-no em uma ilha deserta e lá, ao longo dos anos, trama sua vingança. Anos depois, quando esses e outros homens partem em viagem, Próspero toma conhecimento disso pelos dos espíritos que lhe servem. Conjura uma tempestade e faz com que eles cheguem à ilha. A história desenvolve-se a partir disso. 

O modelo de magia de Próspero é, evidentemente, a magia cerimonial: ele invoca e domina certos espíritos, superiores e inferiores, que exercem sua vontade. Em certo momento, aprisiona os invasores em um círculo mágico. Na ficção é um homem da corte, e isso é o suficiente para lembrarmo-nos que a magia também era um conhecimento intelectualizado, letrado e de elite. Importantes magos ao longo da história estiveram diretamente vinculado aos favores de grandes reis, como Agrippa e Rasputin por exemplo. Por vezes estudamos tanto sobre em bruxaria e sobre as práticas marginais das feiticeiras das aldeias que esquecemos dessa “outra face” histórica da magia que permitiu que ela também chegasse até nós.

Na obra de Shakespeare, é Próspero quem conduz toda a trama. E não é isso o que um Mago faz? Construir a trama da sua própria existência? Na história, também temos Calibã, filho de uma bruxa que também residia na ilha até a chegada de Próspero, que mata a feiticeira e domestica o monstro que era seu filho. Enquanto que Próspero aqui representa a sabedoria e a ciência divina, o monstro Calibã representa justamente o contrário: o homem profano, mortal, submisso aos dogmas e valores terrenos. Um mostro cuja feiura não é só física, mas também uma metáfora para a pequenez de espírito. Calibã só sabe servir, como o homem que só serve a Deus, mas não se vê como divino.

Próspero tem por espírito fiel Ariel que serve-lhe a todo o instante visando sua liberdade. Outros seres espirituais aparecem ao longo da história como Iris, que anuncia a presença de Ceres que traz consigo o poder de prosperidade e fertilidade da natureza em um casamento.  Sobre a efemeridade das coisas, ele confessa:
“E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas e o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se (...) sem deixarem vestígio. Somos feito da matéria dos sonhos, nossa vida pequenina é cercada pelo sono”.
No final da história Próspero conclui sua vingança, mas também abandona sua magia, considerando-a “negra”. Por ora, na falta de um argumento melhor, fico me perguntando se esse detalhe final na história não seria ideia de algum sensor. Afinal, não seria muito educado ver uma peça de teatro do começo do séc. XVII terminar com um elogio a prática da magia. 


Um comentário:

Cristina Amorim disse...

amo essa obra. Também amo a leitura, pra lá de autoral que Peter Greenaway fez de A Tempestade no filme Prospero's books. Simplesmente um brinde aos sentidos e à linguagem onírica!