quinta-feira, 11 de abril de 2013

Sobre um "purismo" no neopaganismo.

Aqui, Oferenda de Verão de Alma-Tadema. Esse pintor
é conhecido por retratar cenas do cotidiano da antiguidade.
Se não soubéssemos disso, poderíamos confundir essas
mulheres e suas oferendas com mulheres do mundo
contemporâneo? Seriam elas pagãs ou cristãs?
E ainda assim, isso faria alguma diferença?
Ao longo dos dias que envolveram o feriado da Páscoa pude observar um certo comportamento nas redes sociais que, confesso, me deixou um pouco incomodado: o compartilhamento constante de imagens e frases que faziam referência às origens pagãs da celebração que é popularmente conhecida como uma festa cristã. Até aí tudo bem, afinal, de fato praticamente todos os feriados religiosos cristãos tem sim, indubitavelmente, uma origem no paganismo antigo.

Mas isso seria motivo para desqualificar as expressões cristianizadas dessas festas? Será que uma celebração religiosa, por ter sido “pagã” séculos atrás, deve ter a sua face “cristã” desconsiderada? Me pergunto se esse tipo de mentalidade não reflete um certo sentimento de “purismo” no paganismo contemporâneo.

Eu prefiro pensar que a história é viva, constante e está em um intenso movimento de transformação do qual somos os que conduzem, mas que também somos os conduzidos. Não consigo encontrar menos sinceridade em um cristão que se utiliza do simbolismo do ovo para representar o renascimento do seu Cristo quando comparado a um pagão que se utiliza do mesmo ovo para representar a prosperidade ou a fertilidade da Natureza. Ao invés de falar que o cristianismo “rouba” ou “copia” as festas dos povos antigos, eu prefiro dizer que o cristianismo transforma-as, lhes dá uma nova roupagem e algumas vezes um novo sentido ou significado: mas não sendo purista, não tenho porque pensar que as primeiras festas, as “originais” são “melhores” ou mais “verdadeiras” que as festas cristianizadas pelo simples fato de terem aparecido primeiro.

Seria ingenuidade nossa, afinal, crer que as antigas festividades da deusa Eostre “nasceram”, prontas, como tal nós as conhecemos. Afinal, o fato de termos uma deusa da prosperidade cujo símbolo era um coelho e o costume antigo de presentear os entes queridos com ovos são só alguns e poucos dos elementos dessas expressões rituais cuja maior parte, infelizmente, morreu no passado. E antes disso, como os povos antigos celebravam o que hoje nós entendemos por primavera? Será que as festas de Eostre já não são uma “cópia” de festas mais antigas? E essas festas mais antigas, segundo o raciocínio comum, não seriam “melhores” pelo simples fato de serem mais antigas?

No caso do natal, muitos dizem que ele só é uma “cópia” das celebrações de Mitra. Mas as celebrações de Mitra no Império Romano também não seriam uma “cópia” do Mitra do Oriente? E as cerimônias do Mitra oriental, vieram de onde? E antes disso?

O que eu quero demonstrar, por ora, é que as celebrações cristãs, na missa ou nas procissões nas redondezas da igreja, podem ser tão válidas quanto as celebrações que fazemos envolvidas pelos nossos círculos mágicos. Afinal, o que nós estamos comemorando são só pequenas facetas e máscaras de uma realidade muito maior do qual não podemos explicar – ou seria muita pretensão tentar fazê-lo. Como já disse, quando um cristão ora para o seu Cristo, não está mais errado do que um judeu que ora para o seu Javé ou do que um pagão que reza para sua Deusa Mãe.

É importante conhecer a história? Sem dúvida! Mas não utilizemo-na para dizer que nossas crenças, por terem raízes mais antigas, são mais válidas ou mais “originais” que as outras doutrinas, mais recentes, que seguiram essas mais velhas. Afinal, a história é imortal. E mais que imortal, ela distribui o erro e o acerto, a verdade e a mentira, para todos os lados.

Leia também: 

12 comentários:

Katharina Dupont disse...

E esta reflexão é super válidas nos tempos atuais, aonde exigimos o direito à nossa expressão e o respeito devido com as nossas crenças. Como podemos exigir isso se nem ao menos respeitamos as crenças aonde fomos criados? Sim, porque TODOS nós fomos criados em famílias com alguma ligação cristã, seja evangélica ou católica..

Respeitemos as crenças alheias assim como queremos ser respeitados

Beijosssss

Michel Luiz disse...

Justamente a parte que vou contra a proposta de acusar o pré-cristianismo de plágio do deus Hórus, pois se seguir a linha de raciocínio da astroteologia, na verdade o Cristo substitui a antiga figura para uma nova, precisando levar em conta que cerca de 2140 deve-se colocar um novo herói (messias) para a Era de Aquários.

Mikka Capella disse...

Eu acho que o interessante em se divulgar a origem pagã das festas cristãs, antes de estar na busca por um purismo religioso, está justamente em desmitificá-lo. Afinal, foi o paganismo que durante quase dois milênios deve a sua imagem distorcida e denegrida pela doutrinação cristã, em vários aspectos. Nesse sentido, a constatação de que o cristianismo, bem como muitas de suas crenças e representações, tem, na verdade, uma origem mais antiga e raízes pagãs, afasta a ideia de que haveria um purismo religioso cristão se sobrepondo às "superstições" pagãs. E isso abre um importante debate antropológico na atualidade: se não há purismo, mesmo onde se pensava que ele era absoluto, por que não aceitar a inclusão de outras expressões religiosas na sociedade?

Rafael Nolêto disse...

Não vejo muito problema nas festas em si, o problema é que muitos cristãos repelem o paganismo e cospem na fonte de onde se abasteceram. Por parte do cristianismo, muitas tradições não foram apenas incorporadas, mas sim, roubadas, no pior sentido da palavra.

Afonso Jonas disse...

Não sei como o Natal possa ter origem pagã, quando a árvore de natal com sua estrela na ponta, seus enfeites, a virgem mãe que chora pela morte do "rei" não vem do tão conhecido Natalis Solis Invictus mas da narração semita de Ninrod. Caso esteja afim de debater mais Odir Fontoura estou aqui aberto e receptivo a trocar idéias e informações! Abraços!

Aline Pandora disse...

Adorei o texto, Odir Fontoura! Para ser sincera, de início pensei que você estivesse sendo um pouco "beato da igreja", defendendo-a. Mas lendo um pouco mais para baixo, percebo como nossas mentes são estreitas. Concordo plenamente com você - embora eu tenha que fazer uma força muito grande dentro de mim para suportar a igreja! rs. Mas o que irrita os pagãos - e acredito que posso afirmar por todos - não é somente o fato dos cristãos celebrarem festivais que já celebrávamos antes, e sim a postura deles. Eles saem por aí pregando seu único e verdadeiro Deus, batendo nas portas das pessoas proclamando a verdadeira fé, quando na verdade, eles não sabem da missa a metade. Não sabem que os festivais que hoje eles comemoram de bom gosto e com tanto ardor, tem origem num passado muito remoto, onde os pagãos - ou seja, as pessoas que eles abominam - celebravam. Quem garante que quem realmente "deu origem", podemos dizer assim, as celebrações não eram povos pagãos? Eu dou minha cara à tapa, e digo que sim! Então, o que realmente incomoda os pagãos é essa "mentira" na qual as outras pessoas, no caso os cristãos, vivem. E mais, querer impor isso ao mundo. E a maior prova que eles querem impor isso à todos é o Deputado Marco Feliciano. Os cristãos têm tanta certeza do seu Deus único e da origem de suas crenças que querem que um cara cristão/ evangélico tome o poder à nosso favor. Creio que as vezes os pagãos têm a mesma postura ditatorial que os cristãos, e não acho isso certo, pois temos conhecimento suficiente para sermos diferente e fazermos a diferença. Mas realmente é revoltante! Cansamos de apanhar, na verdade, e agora que aprendemos e podemos bater, o fazemos. Mas creio que o importante mesmo seja nós sabermos que, no fim, todos nós e todos eles - os cristãos - estamos celebrando a mesma coisa, a mesma essência Divina, independente do nome que Ela/ Ele tenha para cada um. E disso, NÓS PAGÃOS, temos a certeza. E é isso que deve prevalecer

Sadat Oliveira disse...

Uma das análises mais equilibradas que já vi da tradição cristã à luz do paganismo. Ver a história como um fluxo vivo e mutante é fundamental. Afinal, tanto cristianismo quanto paganismo são fenômenos culturais e estão vivos, em transformação, e exercem e recebem influência. O cristianismo em dois mil anos também influenciou o paganismo e várias religiões dos povos cristianizados, assim como absorveu também influência deles. É uma troca mútua, bidirecional. E no final todas as tradições são enriquecidas.

Everson Romero disse...

A Cultura e a Natura são pura mistura... não existe cultura humana isolada... não existe manifestação mágico-religiosa "purista"... e neopaganismo, por ser moderno, em si já acarreta uma porrada descomunal de influências, as mais variadas... se o Paganismo tradicional assim o é, pq o Neopaganismo não o haveria de ser?

roberto quintas disse...

Eu não posso considerar válido a apropriação, supressão e assimilação, por meio da força e da aculturação. Se isso te amofina, não venha reclamar quando Feliciano e corja baterem à sua porta.

Elton Sipião O Anjo das Letras. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elton Sipião O Anjo das Letras. disse...

Até onde sei o cristianismo se apossou de nossas festas pagãs adaptando-as a sua própria religiosidade com o intuito de evangelizar os povos pagãos da antiguidade com o objetivo de convertê-los a si. Então antigos pagãos se converteriam em neo-cristãos.Assim fez o Islamismo ao tomar para si a pedra negra da Caaba que pertencia a Deusa para dá-la ao seu Deus-Pai monoteísta, o próprio Alá. Essa foi a forma que Maomé achou para "evangelizar" os pagãos da época fazendo-os abraçar a nova fé-islâmica. Então isso é pura tática de evangelização e de muita "esperteza" para dizer a verdade.Um novo fluxo e movimento da história?Uma nova roupagem as tradições pagãs?Será?Será que se aceitarmos tais ideias não estamos esquecendo dos verdadeiros motivos escusos pelos quais nossas festas pagãs foram incorporadas a Igreja pelos próprios lideres cristãos?Saber desses motivos é conhecer a verdadeira história. Agora quanto ao purismo, isso é bobagem, mesmo que nossos ritos e festivais tenham sido cooptados ou copiados pela religião cristã devemos respeitar sempre quando estes são celebrados pelos seguidores de Cristo. Para mim o Deus e a Deusa estão presentes tanto lá como cá. Ambos nunca poderão ser exilados pelo homem. Abraços poéticos amigo.

Elton Sipião O Anjo das Letras. disse...

Ah...e só para complementar, o comentarista "Roberto Quintas" que usou o seu perfil no Google+ para comentar aqui, foi perfeito em sua observação,e ela é fundamentada pela própria história que não o deixa mentir. O cristianismo se apropriou,suprimiu e assimilou por meio da força e da aculturação os ritos e celebrações pagãs. Isso é, revestiu-as com uma nova roupagem para atrair os fiéis pagãos dos tempos antigos a sua fé, a fé em Cristo Jesus. Abraços poéticos.