quinta-feira, 20 de junho de 2013

O neopaganismo e o exercício da cidadania.

Detalhe de "O nascimento de Minerva", de René
Antoine Houasse. Seu nascimento é auxiliado por
Vulcano, deus da forja. O mito do nascimento dessa
deusa conta como a Sabedoria pode nascer do Poder
através do Trabalho e da Trasformação.

Todos sabemos que o conceito de cidadania é, em sua origem, uma noção grega. Porém, tratando-se de uma cidadania minoritária e excludente (pois só era considerado cidadão grego aquele homem livre nascido na polis, ficando excluídos disso as mulheres, os estran- geiros, os trabalhadores e os escravos, há estimativas que dizem que somente cerca de 10% da população da Hélade poderia ser considerada cidadã), venho por meio desse texto propor uma reflexão: o que é ser um cidadão pagão nos dias atuais?


A proposta do neopaganismo, e até mesmo dos reconstrucionismos étnicos, nunca foi de revivar nos dias atuais, tal como foi no passado, o mundo antigo. Diferente disso, todas as vertentes contemporâneas que buscam no paganismo antigo um religare propõe que esse mundo ancestral não deve ser copiado, mas sim adaptado ao mundo em que vivemos. E assim como não imolamos – ao menos não necessariamente – bois ou cavalos nos altares dos nossos deuses, nem vemos nossas mulheres correndo peladas nas ruas na época das Lupercálias, também penso que o conceito de “cidadão” deve ser relativizado e adaptado ao mundo de hoje.

O objetivo da educação romana, que muito bebeu da cultura grega, era inculcar nos indivíduos o chamado mos maiorum, que aqui pode ser entendido como o respeito pelos costumes e crenças dos ancestrais, no qual consistia em um rígido conjunto de valores e de moral, de crenças e práticas, que determinava o estilo de vida do homem greco-romano, livre e intelectualizado. Cícero quando escreveu De oficiis ou “Dos deveres”, disse que os antepassados deviam ser imitados. E para tanto, elencou uma série de valores dos quais o bom cidadão deveria imitar dos antigos. Vou elencar alguns, adaptando-os ao nosso mundo atual. 

A virtu é a excelência guerreira e a integridade cívica. Vamos traduzir isso como a capacidade de nós, homens e mulheres livres, defender pela luta e pelo protesto se necessário, a condição de homens e mulheres livres, atuantes e conscientes dos nossos papeis sociais, políticos e democráticos; a dignitas era o prestígio político em função da boa observância do trabalho de funções públicas importantes. Se nossos políticos não o tem, que possamos exigir isso a partir do momento em que exerçamos, com boa fé e boa conduta, os nossos mais variados empregos, trabalhos e profissões; a gloria pertencia aquele que tinha a confiança da multidão (fides) e era digno de honrarias (honor). 

A Justiça, no tarot de Marselha,
aqui invertida, pode representar
o atual panorama político
do Brasil. O que nós,
não só como pagãos, mas
também como cidadãos livres e
conscientes, faremos para
mudá-la?
Que saibamos escolher bons representantes com base nesse critério: a gravitas era o sentimento de firmeza e austeridade necessária ao homem público investido da dignitas; a libertas, conceito primordial que está entre a servitus (ausência total de direitos) e a licentia (abuso de direitos) o que permite ao cidadão expressar suas vontades e votar leis; a clementia o poder de agir com justiça; a sapientia é a moderação e o bom senso essencial aos líderes e generais; a humanitas é a civilidade, o “polimento” da natureza humana; a concordia era indispensável à República, servia de mediação e equilíbrio entre as diferenças. Em síntese, para Cícero, se deveria viver a vida com modéstia (paupertas) sem ostentação (frugalitas).

Na Grécia clássica, quando um banquete era realizado em homenagem a um deus, também celebrava-se a cidadania; a prática ritual reforçava o modelo da sociedade. Os romanos concebem uma cidade, ou qualquer que seja uma comunidade civilizada um lugar onde deuses e humanos coabitam um lugar comum. Os deuses são, então, “concidadãos” poderosos, e o diálogo com eles é o cultus deorum

Que sejamos virtuosos, dignos, livres, sábios, humanos e modestos. No verdadeiro sentido da palavra. E que os deuses nos ajudem, nesse momento tão importante do Brasil, a realizarmos as mudanças políticas e sociais que queremos. Que sejamos instrumentos conscientes, livres e atuantes, da vontade e da comunhão divina. 


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